'Não há grupos com bandeiras mais claras'

Ex-ministro e advogado diz que um fundo histórico ajuda a explicar a atual debilidade dos partidos colombianos

Entrevista com

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2014 | 02h08

Aos 78 anos, o advogado e escritor Jaime Castro dedica-se a estudos acadêmicos e análises sobre o cenário eleitoral da Colômbia. Militante do Partido Liberal (mas foi ministro do conservador Belisario Betancur), considera que a falta de partidos sólidos no país ocorre porque as legendas não representam um grupo ou estamento social. Da ausência de diferenças decorre sua falta de prestígio, analisa, em entrevista ao Estado.

Qual a razão para a fragilidade dos atuais dos partidos colombianos?

Nunca houve por exemplo um partido de esquerda forte, comunista ou socialista. Nem um de extrema direita. Não houve um partido agrário ou ligado à Igreja. Por isso é tão fácil ir de um grupo a outro, sem uma conversão ideológica. Muda-se de partido com a facilidade com que se muda de camisa. Como isso é aceito pelo cidadão, o político que busca um cargo vai diretamente no grupo que lhe apresenta maior possibilidade de sucesso.

A ascensão da guerrilha prejudicou a formação de partidos com características mais claras?

Não houve partido de esquerda forte porque o Liberal, na primeira metade do século passado, era o mais popular. Em comparação com o Conservador, era o que representava a causa operária. Com a Revolução Cubana e o financiamento de Rússia e China, apareceram movimentos guerrilheiros e o Partido Comunista deu respaldo a esses movimentos. Isso contribuiu mais para o desprestigio da esquerda, para quem a presença do movimento guerrilheiro, paradoxalmente, foi nociva no longo prazo.

Chamam a atenção dois apoios ao presidente Juan Manuel Santos. O de Antanas Mockus, rival dele na eleição passada, e o do ex-guerrilheiro e prefeito de Bogotá Gustavo Petro, que teve a destituição aprovada por Santos dois meses. Como explicá-lo?

Mockus e Petro dizem que passaram a apoiar Santos porque ele é o representante da paz. É uma explicação de fachada. Mockus ajudou a fundar o Partido Verde, mas logo depois de perder a eleição para Santos em 2010 já não estava à vontade. Saiu. Petro, por sua vez, tem problemas no cargo de prefeito. Passou para o lado de Santos para ser ajudado pela Procuradoria que o investiga. Ele sabe que a última palavra no caso é de Santos e aderiu por conveniência.

Houve reformas políticas recentes para conter esta permissividade. Elas podem dar certo?

O panorama não é promissor, por um fenômeno, o da corrupção. As eleições são cada dia mais caras e o sistema democrático está perdendo legitimidade.

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