'Não há lobos solitários, todos estão conectados'

Radicais usam anonimato da web para planejar ataques, diz professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Haifa, em Israel; Brasil não está preparado para lidar com ameaças

Entrevista com

Gabriel Weimann

CLÁUDIA TREVISAN, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2015 | 02h02

WASHINGTON - Quando Gabriel Weimann começou a estudar o uso da internet pelo extremismo islâmico, em 1998, havia 12 sites "terroristas". Hoje, ele monitora 9.800, além de uma atividade cada vez mais intensa nas mídias sociais globais. "Estamos nos movendo dos velhos dias em que grupos que se reuniam no deserto ou em acampamentos para o espaço cibernético, onde eles não se encontram, não se veem e tudo é feito de forma online."

Professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Haifa, em Israel, Weimann lançará em março o livro Terrorism in Cyberspace: The Next Generation (Terrorismo no Espaço Cibernético: A Nova Geração, em tradução livre), o terceiro de sua autoria sobre a relação entre grupos radicais islâmicos e o mundo virtual.

A facilidade da difusão das mensagens e o caráter difuso da internet farão com que atentados como o visto em Paris no dia 7 se tornem mais frequentes, avaliou o especialista.

Segundo Weimann, não há "lobos solitários" em uma sociedade em que os radicais estão cada vez mais conectados por meio da internet. Em todos os casos recentes que ele analisou, os autores deixaram traços digitais.

Weimann esteve no Brasil há dois anos, para falar sobre os riscos de ataques no país. "O Brasil é um dos países menos protegidos contra o terrorismo do mundo." A seguir, trecho da entrevista ao Estado.

Qual a importância da internet para os grupos jihadistas?

A internet e as plataformas de comunicação online podem ser acessadas de qualquer lugar, são grátis, ninguém pode realmente censurá-las. É possível manter anonimato e usá-las para muitos objetivos: propaganda, recrutamento, ensinamentos e convocação de pessoas para a ação. No tipo de plataforma multimídia, é possível fazer upload e download de textos, filmes, livros, instruções, palestras. Você pode se comunicar, coletar dinheiro, enviar dinheiro, encontrar informação, interagir com pessoas.

Quando grupos jihadistas começaram a usar a internet?

Nós começamos esse projeto de monitoramento em 1998, quando havia 12 sites terroristas. Hoje nós acompanhamos 9.800. Depois do 11 de Setembro, o número subiu para centenas e depois milhares. Além dos sites tradicionais, eles usam fóruns, salas de bate-papo e mídias sociais, como Twitter, Facebook, YouTube, Instagram, tudo o que está online.

Como a internet se relaciona com o fenômeno do "lobo solitário"?

Não há lobos solitários no terrorismo. Todos os lobos solitários estão conectados a um texto, a um grupo e a maioria está conectada online. Muitos são radicalizados, recebem ensinamentos e instruções, e até são enviados para a ação online. Nós analisamos todos os casos recentes dos chamados "lobos solitários" e em todos encontramos traços deles online. Eles estavam se comunicando, fazendo o upload e download de informações online.

Qual é o papel da revista Inspire, publicada pela Al-Qaeda na Península Arábica?

A Inspire tem como alvo a audiência ocidental, especialmente jovens muçulmanos que vivem na Europa e na América do Norte e não falam árabe, mas sim inglês. É uma revista chique, moderna, chamativa, estilosa e bastante preocupante. Eles dão informações para radicalizar pessoas e ensinam como construir bombas. Para dar um exemplo de sua eficácia, no ataque na Moratona de Boston, em 2013, os irmãos Tsarnaev seguiram instruções da Inspire para construir a bomba com uma panela de pressão.

O líder da Al Qaeda Anwar Awlaki foi morto pelo EUA em um ataque com drone no Iêmen em 2011, mas sua influência permaneceu intacta. Qual o papel da internet nesse processo?

As suas mensagens radicais e seus ensinamentos continuam internet. Amedy Coulibaly, que atacou o supermercado judaico em Paris, colocou na internet um vídeo no qual ele citava Awlaki. Ele é muito influente, mas não é o único. Há muitas celebridades no mundo do terrorismo. Cada grupo tem a sua celebridade. Nos últimos anos, para os membros da Al-Qaeda é Ayman Al-Zawahiri - segundo a Al-Qaeda na Península Arábica, ele ordenou o ataque contra o Charlie Hebdo. Outro é Adam Gadahn, um americano que se converteu ao islamismo, se radicalizou e se tornou o porta-voz da Al-Qaeda em inglês.

O aumento da presença de grupos radicais na internet levará a mais ataques semelhantes ao que vimos em Paris?

Temo que sim. Há um uso cada vez maior da internet para recrutar e radicalizar pessoas. Estamos nos distanciando dos velhos dias em que grupos se reuniam no deserto ou em acampamentos e entrando em um novo momento do espaço cibernético, onde eles não se encontram, não se veem e tudo é feito online. O alvo para radicalização são populações enormes ao redor de todo o mundo, não apenas o Oriente Médio, mas a Europa, a América do Norte e o Brasil também. Eles estão se movendo cada vez mais para a comunicação online. Mais do que isso, eles se tornaram mais sofisticados com o uso das mídias sociais, que são mais interativas, influentes, modernas e eficazes do que os sites tradicionais.

Por que o sr. mencionou o Brasil?

Fui ao Brasil há dois anos fazer palestras sobre o potencial de o país ser atacado por terroristas, não porque o Brasil em si esteja envolvido em política e haja grupos interessados especificamente no Brasil. Acontece que o Brasil acabou de ter a Copa do Mundo e será sede da Olimpíada e isso pode atrair os terroristas. Eles buscam publicidade e eventos que podem ganhar atenção mundial. E o Brasil é um dos países menos protegidos contra o terrorismo do mundo. Certamente contra terrorismo cibernético, mas também o terrorismo convencional. Eu fui para a tríplice fronteira - Brasil, Paraguai e Argentina -, vi como é fácil cruzá-la. O Brasil não tem uma definição legal de terrorismo e uma célula da Al-Qaeda foi encontrada em São Paulo, em 2009 (um suspeito foi preso por mandar e-mails antissemitas).

Como os governos podem se defender contra essa ameaça?

É necessário ser proativo e, em vez de reagir a eles, tentar prever quais serão as futuras plataformas e desenhá-las de maneira que seja possível impedir que eles as utilizem. Além disso, é preciso tentar ser mais proativo no sentido de se dirigir à mesma população com mensagens contrárias, que não deixem os terroristas serem uma voz dominante nas mídias sociais.

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