Não há motivo para temer o islâmico Gul na presidência turca

Dentro de alguns dias, a Turquia passará a ser presidida por um islâmico, Abdullah Gul. É um acontecimento. A Turquia era uma exceção extraordinária entre os países muçulmanos. Não tinha sido tragada pelas ondas invasivas do fundamentalismo islâmico, que nos últimos 20 anos avançam sobre o mundo, com conseqüências trágicas. A Turquia resistia. Será que a eleição de um presidente islâmico, esperada para a próxima semana, marcará o fim da tradição laica desse país muçulmano? Essa tradição tem mais de 80 anos. Foi por volta de 1920, após a desagregação do Império Otomano, que um militar tornado presidente, Kemal Ataturk, suprimiu os tribunais religiosos, laicizou o Estado, aboliu a poligamia, adotou o alfabeto latino, impôs a indumentária ocidental e fez seus administrados dançarem valsa e tango. Desde então, a Turquia resistiu a qualquer retorno do "religioso". Se vê algum "perigo islâmico", o Exército faz ouvir o ruído de suas botas e tudo retorna à ordem. Este ano, as coisas vêm acontecendo de maneira diferente. Os generais não têm se manifestado. E a razão é simples: em julho houve eleições legislativas. O partido islâmico Justiça e Desenvolvimento (AKP) obteve uma vitória decisiva: 42% dos votos, o que permitiu a Recep Erdogan manter-se como premiê. Agora se prepara a segunda fase do triunfo dos islâmicos: a eleição, como presidente, de Gul, também do AKP. E se o Exército está inerte é porque entendeu que o povo segue em massa os islâmicos e os militares não têm mais força ou autoridade para opor-se a essa onda religiosa. Assim, Gul será, salvo uma reviravolta, o primeiro presidente islâmico em mais de 80 anos. Isso quer dizer que a Turquia, país próspero e evoluído, que une a Europa e a Ásia, deve pender para o campo dos países alucinados por um islamismo frenético e um antiocidentalismo feroz, como o Irã? Pelo que se sabe dos novos homens fortes do país, Erdogan e Gul, não há razão para esse temor. No plano religioso, eles proclamam sua fé no Islã, mas recomendam uma versão moderada, não sectária, mais "pró-ocidental". É Erdogan que tenta há anos fazer com que a Turquia entre na União Européia. Estranhamente, é mais do lado dos laicos, ou seja, os militares, que se observa uma tendência antiocidental. São eles que se opõem violentamente à UE e aos EUA. No caso da sociedade turca, os islâmicos moderados também se mostram tranqüilizadores. Favorecerão o comportamento religioso, mas sem fanatismo. Os laicos respondem, observando que a mulher de Gul nunca aparece em público sem o véu islâmico. É verdade, mas ela deixou claro que tem muito interesse pela moda. Aliás, já pediu a um estilista turco que lhe desenhe um véu da moda. A moda feminina mobilizada contra o fanatismo? Isso nos tranqüiliza! * Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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