AFP PHOTO / Pedro PARDO
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‘Não há política externa na agenda de Obrador’

Favorito à presidência mexicana tem traços de Trump, mas influência maior vem de Lula e do kirchnerismo, diz analista

Entrevista com

Pedro Salazar Ugarte, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam)

Cristiano Dias, ENVIADO ESPECIAL / CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 05h00

Pedro Salazar Ugarte é professor da Faculdade de Direito e pesquisador do Instituto de Pesquisas Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Embora reconheça semelhanças entre o candidato esquerdista, Andrés Manuel López Obrador, e o presidente americano, Donald Trump, Salazar garante que o mexicano é diferente. Ele vê López Obrador mais parecido com o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e mais ligado ao kirchnerismo argentino (que acentuou o populismo herdado do peronismo clássico) do que ao conservadorismo americano. “A raiz de Obrador é a esquerda latino-americana”, afirma. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado.

O sr. acha López Obrador parecido com Donald Trump?

Sei que muita gente no México faz essa comparação. Os dois são nacionalistas, passionais e têm um ego inflado. Mas há muitas diferenças entre os dois.

Quais?

López Obrador não é da elite e nunca foi apresentador de reality show. É um líder social, com uma base estabelecida. Ele também não é racista e seus discursos não são carregados de termos que promovem a exclusão social. Em muitos aspectos, ele se parece mais com Lula.

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Pelo fato de ele ter moderado o discurso?

Não só isso. López Obrador é o Lula mexicano. Um líder carismático, que veio de baixo, ligado a movimentos sociais. De certa forma, lembra um pouco o kirchnerismo, na Argentina. Sua raiz é a esquerda latino-americana. Só não concordo quando o comparam com o chavismo.

Por que?

Porque o chavismo tem um caráter autoritário. Obrador, se chegar ao poder, será por meio de um partido político e de eleições justas.

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É possível prever como seria o embate entre ele e Trump?

López Obrador não tem uma agenda de política externa. O negócio dele é o que acontece no México. Ele não vai falar com Trump, mas sim para o eleitorado mexicano. Por isso, devemos ter uma atitude mais combativa. 

Isso pode prejudicar o México?

Acredito que, no fim, prevalecerá o bom senso. México e Estados Unidos são interdependentes. Ninguém pode conceber a solução de problemas graves como o narcotráfico, a violência ou a imigração ilegal sem uma ação coordenada dos dois lados da fronteira.

Mas não é ruim ter um presidente americano tão hostil?

É péssimo. Mas muita gente repete que o México se sairá mal com López Obrador. Francamente, mal o país já está. Não acredito que fique pior.

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