Não há solução à vista para o terrorismo do Estado Islâmico
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Não há solução à vista para o terrorismo do Estado Islâmico

Não se sabe o que fazer com os jihadistas europeus, seus filhos e mulheres

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 05h00

O que fazer dos jihadistas franceses, alemães, britânicos ou italianos? O Estado Islâmico estrebucha, vomita seus últimos insultos. Pela TV, o mundo assiste a um derradeiro grupelho do EI agonizar na vila de Baghuz, na Síria, hoje um amontoado de pedras e cinzas. O lado bom é a morte de bandos que por tantos anos semearam o terror. O lado ruim é que tentáculos venenosos da besta ainda se estendem pelos países do Oriente, mas também do Ocidente, em busca de novas presas.

Os sobreviventes do EI são provavelmente mais numerosos do que se imagina. Os números são vagos, mas, segundo os mais críveis, 41 mil estrangeiros, principalmente europeus, juntaram-se na Síria e no Iraque aos “loucos de Deus”. Um grande número desses voluntários escapou da repressão e voltou aos países de origem – 7.366 soldados do EI teriam voltado para a Europa. Milhares de outros foram mortos. Cerca de 850 homens e milhares de mulheres se reagruparam em campos improvisados no leste da Síria. 

Há ainda um grande número de combatentes do EI em poder dos curdos – de longe os soldados mais heroicos da coalizão formada contra o EI. Mas esses prisioneiros se tornaram um problema. Não podem ser julgados pelos curdos, que são minorias dispersas entre quatro países: Iraque, Síria, Irã e Turquia. Além disso, os americanos, que davam apoio aos curdos, retiraram-se subitamente da coalizão por um capricho de Donald Trump, deixando os curdos à mercê de seus inimigos turcos. 

O caso dos jihadistas prisioneiros dos curdos não tem solução à vista, mas a situação dos que são prisioneiros de outros Exércitos também não é mais clara. 

Primeiro obstáculo: os países de origem dos jihadistas não têm a menor vontade de recebê-los de volta. É por isso que a França, como a maioria dos outros Estados europeus, têm pedido aos países nos quais eles estão presos que os julguem in loco. 

E esse é o segundo obstáculo. A França aboliu a pena de morte há 30 anos, enquanto o Iraque, que detém jihadistas franceses, aplica a punição suprema. Assim, Paris adoraria se desembaraçar desses matadores, mas não pode aceitar que se aplique uma sentença inexistente no direito francês. Daí as complicadas negociações entre os dois países: “Sim, vocês podem julgá-los, mas não condená-los à morte.” 

Outro quebra-cabeça: é preciso levar também as mulheres à Justiça. Alguns defendem sua inocência, afirmando que elas simplesmente se reuniram aos maridos. Outros, mais numerosos, ressalvam que a maior parte dessas mulheres – quer tenham se reunido aos maridos, quer tenham se casado com um jihadista em zona de guerra – abraçou apaixonadamente a causa dos terroristas.

Algumas se tornaram célebres. Uma francesa ficou conhecida ao ser fotografada com cabeça do homem que acabara de decapitar. 

E, para complicar mais, há o destino das crianças da guerra. Segundo especialistas, 5 mil delas são de 30 países diferentes. As mais velhas nasceram nos países de origem dos pais. As mais jovens, em feudos do EI. 

Na Noruega, foi proposto que sejam ajudados os filhos de vítimas dos carrascos, não os deles próprios. Por exemplo, que se sustente os filhos dos yazidis, cujos pais foram massacrados pelas forças do EI, mas não “as sementes jihadistas geradas pelas fêmeas do grupo”. Chocante? Esse programa não lembra precisamente as lições sobre o pecado original tal qual nos foram transmitidas no Gênesis da Bíblia? Estranho, esse retorno da humanidade aos primórdios da criação. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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