Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Artigo: Não há um modo certo de reagir ao terror. Há o modo errado

Defender a instituição da pena de morte para inibir a ação de um terrorista suicida é infantil; as soluções devem ser de longo prazo

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2017 | 05h00

Não existe reação correta diante do terrorismo. A crueldade, o fanatismo e a loucura de um homem que explode uma bomba poderosa no meio de uma multidão de jovens inspiram todo tipo de sentimentos: horror, raiva, tristeza, medo, repulsa. Nenhuma dessas emoções é mais “correta” do que as outras. Nenhuma linguagem que as pessoas empreguem para expressá-la pode ser julgada. Alguns choraram com a notícia do ataque em Manchester, no Reino Unido. Outros xingaram e amaldiçoaram. Ambas as reações são compreensíveis.

Mas, se essas emoções forem politizadas, se forem usadas para alimentar a histeria popular, que só vai piorar a situação, então elas deixam de ser neutras e naturais. O atentado a bomba em Manchester foi um ato de maldade extrema e, por isso, levou uma série de escritores, celebridades e políticos britânicos a exigir uma resposta também extrema. Um jornalista reivindicou “o encarceramento imediato de milhares de suspeitos de terrorismo para proteger nossos filhos”. Um ex-político exortou o governo a restabelecer a pena de morte.

Mesmo antes que a biografia do assassino fosse conhecida e suas ligações com grupos estrangeiros fossem confirmadas, um cantor atacou as autoridades que, na sua opinião, estavam sendo politicamente corretas demais ao evitar chamar o assassino de extremista islâmico: “Na Grã-Bretanha dos dias de hoje, todo mundo fica petrificado na hora de dizer oficialmente o que todos dizemos em particular. Os políticos dizem que não têm medo, mas eles nunca são as vítimas. Como é fácil não ter medo quando se está fora linha de fogo. As pessoas comuns não contam com nenhuma dessas proteções”.

Más ideias. Cada uma dessas afirmações tem muita carga emocional e nenhuma utilidade prática. Pena de morte? É difícil imaginar por que isso deteria um terrorista suicida. “Encarceramento de milhares de suspeitos de terrorismo”? A Grã-Bretanha tentou combater o Exército Republicano Irlandês (IRA) dessa maneira, ordenando a prisão em massa de quase 350 “suspeitos” em 1971. O resultado foi catastrófico: a credibilidade britânica e o sistema jurídico da Irlanda do Norte sofreram danos reais, pois muitos dos encarcerados não tinham ligações com o IRA. A detenção em massa fez com que mais pessoas se radicalizassem e ocasionou um aumento acentuado da violência.

Quanto às críticas ao “politicamente correto”, a maioria dos políticos britânicos tenta não apontar assassinos ou causas até que essas informações sejam conhecidas, o que parece ser uma boa regra. E, quando essas informações vêm à tona, os políticos tomam posição. Em 2015, Theresa May, então secretária de Estado e agora primeira-ministra, fez um pronunciamento denunciando “o ódio, a intolerância e a ignorância” do extremismo islâmico.

Também não é verdade que os políticos britânicos “nunca são as vítimas”. Pelo contrário: muitas vezes eles são o alvo. Durante a campanha do referendo sobre o Brexit no ano passado, um defensor da supremacia branca assassinou Jo Cox, uma congressista britânica. Ela não estava nem um pouco “fora da linha de fogo”. Os políticos que sofreram com a violência do IRA nos últimos anos também não estavam.

Muito longe de resolver qualquer problema, aqueles que oferecem soluções dramáticas e slogans hostis (“pessoas comuns não contam com essas proteções”) não ajudam as vítimas, não ajudam suas famílias, não ajudam suas comunidades. E tampouco impedem futuros ataques. Eles só aumentam a histeria, amplificam a raiva e exacerbam a divisão social. É exatamente isso que os terroristas querem, especialmente os inspirados pelo radicalismo islâmico antiocidental, uma ideologia que quer derrubar a democracia, minar o estado de direito e causar uma crise política.

Os terroristas querem promover o antagonismo e o partidarismo. Querem inspirar mais violência. É por isso que explodem bombas. Na verdade, os reis do drama não servem a ninguém senão a si mesmos. Talvez se sintam corajosos, oferecendo soluções radicais que os outros “não se atrevem” a sugerir. Talvez se sintam superiores quando zombam daqueles que tentam desafiar o terrorismo tocando a própria vida e se recusando a deixar que a violência acabe com seu dia ou seu sistema político.

Soluções. Basta dar uma olhada na história para ver que as únicas soluções para o terrorismo são bem menos dramáticas, menos imediatas e mais de longo prazo. Elas incluem coisas como melhor policiamento e mais cooperação internacional, além do franco ensino de valores britânicos nas escolas britânicas. Tais soluções passam também pela solidariedade comunitária, coisas como a vigília em massa que ocorreu em Manchester na noite de terça-feira e a doação de chá, cobertores e colchões para os atingidos pelo ataque.

São políticas e ações que funcionam: mantêm as comunidades unidas, aumentam a solidariedade, desencorajam futuros homens-bomba. Mas essas soluções não satisfazem o ego dos que precisam provar ao mundo que as reações deles são as mais vigorosas. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*É COLUNISTA

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