''''Não haverá negociação real em Annapolis''''

Para professor americano, reunião servirá apenas para que Bush tente formar aliança de árabes moderados contra o Irã

Entrevista com

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

A cúpula do Oriente Médio, marcada para terça-feira em Annapolis, nos EUA, terá grande valor simbólico, mas não abordará os temas que impedem a paz entre israelenses e palestinos: a volta dos refugiados, os assentamentos judeus nos territórios ocupados e a divisão de Jerusalém. Para William Quandt, professor de política da Universidade de Virgínia, o momento não ajuda. Americanos, israelenses e palestinos chegam à reunião com líderes fracos e incapazes de pôr em prática medidas necessárias para a paz. Abaixo, trechos da entrevista concedida por ele, por telefone, ao Estado. O que podemos esperar da cúpula de Annapolis?A reunião terá um grande valor simbólico, mas não haverá uma real negociação. Não há sequer um acordo sobre a agenda da cúpula. Eles não conseguiram nem chegar a um acordo prévio sobre que tipo de documento fariam. Eu vi a versão preliminar do relatório, no dia 17 de novembro, e havia poucos pontos de consenso. Portanto, todo o trabalho duro virá depois da reunião. O premiê de Israel, Ehud Olmert, e do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, estão enfraquecidos. Como isso afeta o resultado de Annapolis? Isso faz tudo ficar mais difícil. A esperança da secretária de Estado, Condoleezza Rice, e do presidente dos EUA, George W. Bush, é que Annapolis fortaleça Abbas e Olmert, permitindo que eles tomem decisões difíceis. Mas no momento em que Olmert começar a discutir Jerusalém, há uma grande possibilidade de membros de seu gabinete deixarem a reunião. A posição de Abbas é ainda pior. Olmert nunca disse que cederia parte de Jerusalém para os palestinos. E Abbas precisa de concessões. Se não conseguir, aumentará o ceticismo dos palestinos. Isso tudo sem mencionar a questão do Hamas. Abbas não controla Gaza e o Hamas ainda tem apoio de 30% da população. É muito tarde para o governo americano engajar-se na questão?Até agora, o governo Bush vinha dando prioridade a Iraque, Irã e Paquistão. Com esse encontro, Bush se compromete mais com a questão palestina. O problema é que ele tem o hábito de anunciar coisas e não dar continuidade depois. Além disso, Bush está entrando em seu último ano de mandato e é muito impopular nos EUA. Não é o melhor momento para negociar a paz. As condições não são boas e os líderes são fracos. A Síria ainda não confirmou presença. Como isso afeta a reunião?É muito importante que eles mandem alguém. Se não mandarem, será uma demonstração de que o bloco árabe não legitima uma reunião formada por americanos, israelenses e parte dos palestinos. Haverá 50 países e organizações em Annapolis. Isso ajuda ou atrapalha?Olha, não haverá negociação para valer. É como na ONU. O pessoal só aparece lá. O Brasil está vindo, certo? Mas em que os brasileiros poderão colaborar? Será que haverá oportunidade para chanceler brasileiro falar por dez minutos? Esses países precisam aceitar o fato de que estarão lá só para posar para as fotos. Os participantes cruciais são sírios, palestinos e israelenses. Qual o significado da reunião para a política externa de Bush?Bush cometeu muitos erros no Oriente Médio. Em 2000,estávamos perto de um acordo em várias dessas questões. Hoje, retrocedemos. Gastamos dinheiro, perdemos tantas vidas no Iraque e ainda estamos longe do fim da guerra. Não avançamos nas relações com Irã. O Líbano ainda não está estável. Não conseguimos isolar a Síria e nem envolver o país nas negociações. Diplomaticamente, estamos mais frágeis do que há cinco anos.O que impede a paz entre israelenses e palestinos?Três pontos são essenciais: os refugiados, os assentamentos e e Jerusalém. Os palestinos precisam desistir de reivindicar o regresso dos refugiados. Eles não vão voltar para suas antigas casas em Israel. A questão dos assentamentos também é complicada. Olhando para um mapa, vemos que muito vai ter que mudar para que exista um Estado palestino viável e contíguo. Israel precisa retirar parte dos assentamentos que estão bem no interior da Cisjordânia. Sem falar na divisão de Jerusalém, que também será difícil. David Brooks, colunista de ?The New York Times?, diz que o objetivos da cúpula seria formar uma coalizão de árabes moderados para conter o Irã. O sr. concorda? Realmente Annapolis não se restringe à paz entre israelenses e palestinos, mas pretende também formar um bloco de forças moderadas contra o Irã. É por isso que céticos como o vice-presidente Dick Cheney, que não acreditam na paz, toparam participar de Annapolis. Eles vêem na reunião um meio de lançar uma aliança anti-Irã.

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