Não haveria cartéis sem ajuda dos EUA

Demanda por cocaína e venda indiscriminada de armas fazem dos americanos cúmplices da violência no México

JACOB BRONSTHER, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Após a prisão de um dos mais implacáveis chefões do tráfico no México, Edgar Valdez Villarreal, conhecido como "La Barbie", a mídia destacou suas origens americanas - ele nasceu no Texas. O rei do crime, porém, é um produto dos EUA sob um aspecto muito mais profundo: somos moralmente responsáveis por sua carreira de crimes e culpados pela ascensão dos cartéis mexicanos.

Atribuir a um país a responsabilidade pelo problema de outro é difícil, pois há muitas forças causais em jogo. Mas, neste caso, a correlação é clara. Os chefões mexicanos existem para abastecer o mercado americano de drogas. Eles obtêm suas armas nos EUA. Ou seja, damos dinheiro aos malfeitores ao comprarmos as drogas e vendemos armas a eles, possibilitando que continuem a existir. Com elas, eles ameaçam um país de mais de 100 milhões de habitantes com o qual os EUA fazem fronteira.

Os cartéis mexicanos surgiram como potências do crime quando ocuparam a lacuna deixada pelos cartéis de Cali e Medellín, dissolvidos nos anos 90 junto com a rota da cocaína que passava pela Flórida. Segundo o Centro Nacional de Espionagem contra as Drogas, eles dominam o mercado atacadista de drogas nos EUA, a produção no México e o tráfico de substâncias ilegais cultivadas em outros países da América Latina.

O Departamento de Estado estima que 90% da cocaína dos EUA passe pelo México. Os cartéis são os principais fornecedores de maconha e têm grande participação na venda de metanfetaminas e heroína. Eles fornecem por atacado para revendedores em 25 mil cidades americanas, deixando o varejo a cargo de gangues americanas. Os cartéis faturam US$ 39 bilhões com o tráfico, o valor corresponde à soma do lucro anual global de Halliburton e do Google.

Além disso, os americanos ajudam os cartéis na lavagem de dinheiro. De acordo com o Departamento de Justiça, entre 2003 e 2008, o Wachovia Corp. lavou pelo menos US$ 110 milhões. O banco reconheceu suas "graves e sistemáticas" violações da Lei de Confidencialidade Bancária e concordou em pagar ao governo US$ 160 milhões para pôr fim a acusações criminais. Recentemente, o American Express Bank International e o Western Union também concordaram em pagar grandes somas por causa de lavagem de dinheiro do tráfico.

Apesar de não pagarem impostos quanto as grandes empresas, os cartéis têm despesas com segurança. Eles cruzam a fronteira para resolver esses problemas e nós os recebemos de braços abertos em nossas lojas de armas. No México, os civis precisam de aprovação do Exército para comprar uma arma e não podem adquirir armamento pesado. Mas, nos EUA, os comerciantes vendem fuzis de uso militar sem nem sequer relatar a venda.

Os cartéis contratam pessoas de ficha criminal limpa para comprar um punhado de armas - há 6,6 mil lojas licenciadas somente na região da fronteira - ou de indivíduos em feiras. Então, transportam o armamento até o outro lado da fronteira. O governo estima que 90% das armas recuperadas no México venham de mãos americanas.

Munidos com armas e dinheiro dos EUA, os cartéis espalharam o caos pelo México, especialmente no norte do país, ao longo dos 3,2 mil km de fronteira. Desde dezembro de 2006, quando o presidente Felipe Calderón declarou guerra aos cartéis e mobilizou 45 mil soldados contra eles, 28 mil morreram.

Entre outras táticas, a violência dos cartéis recorre à decapitação de policiais, marcação de vítimas com ferro quente, ataques contra jornais, intimidação de eleitores e ao assassinato de políticos e jornalistas. O temor é tão grande que, em algumas cidades, os partidos não encontram quem queira se candidatar à prefeitura.

A lista de funcionários do governo acusados de conspirar com traficantes indica o nível de corrupção e terror que os cartéis são capazes de produzir. Rodolfo Torre Cantú, favorito ao governo do Estado de Tamaulipas, foi assassinado um mês depois que Gregoria Sanchez, prefeita de Cancún e candidata ao governo do Estado de Quintana Roo, foi detida por proteger os cartéis Beltrán-Leyva e Zetas.

Enquanto isso, o ex-governador de Quintana Roo, Mario Villanueva, foi extraditado para os EUA por participação no tráfico de cocaína. No Estado de Sinaloa, agentes federais são suspeitos de trabalhar para o cartel local. Em 2005, o procurador-geral disse que um quinto dos policiais federais estava sob investigação. Por meio de sequestros de funcionários da Pemex, os traficantes conseguiram fechar grandes operações da estatal do petróleo, maior fonte de renda nacional, no nordeste do México. O objetivo não é obter combustível gratuito - eles o roubam há anos -, mas controlar a região.

É claro que nenhum líder americano apoia a compra de drogas ilegais nem a venda de armas para traficantes, mas há um imenso número de cidadãos envolvidos e o governo pouco faz para combater o problema. Se levarmos a sério nosso status moral, enquanto povo que apoia a democracia e não inflige danos a seus aliados de forma gratuita, teremos de fazer desse problema uma prioridade. De um ponto de vista mais egoísta, basta pensar que o caos no México incentiva a imigração ilegal e narcoestados não são vizinhos amistosos.

Em relação às armas, não existem muitas pílulas mágicas em termos de políticas públicas, mas fechar as lojas perto da fronteira seria um bom começo. Também deveríamos aumentar a pena para o tráfico de armas. Sobre o dinheiro, precisamos sufocar a demanda e debater a legalização de algumas drogas recreativas, o que pode afastar dos cartéis parte do dinheiro. Entretanto, um início menos dramático poderia se dar sob a forma de uma campanha informando às pessoas o destino do dinheiro que usam para comprar cocaína.

Precisamos também cumprir a promessa que fizemos com a Iniciativa Mérida, assinada pelo presidente George W. Bush, em 2006, doando US$ 1,3 bilhão em assistência à guerra contra os cartéis. Eis os termos do acordo: em troca de drogas perigosas e imigrantes ilegais, fornecemos bilhões de dólares aos chefões das drogas e armamento suficiente para que possam combater um Exército, aterrorizar milhões de civis e ameaçar uma democracia. Não existe sutileza nos nossos crimes. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ESTUDANTE DE DIREITO NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK E FOI BOLSISTA DA FULBRIGHT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.