Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

'Não houve perda de credibilidade de Lenín Moreno frente ao FMI', diz analista

Para sociólogo e cientista político, presidente do Equador fez uma jogada estratégica em dar um passo atrás com o decreto de fim dos subsídios, ao mesmo tempo em que vai propor um novo texto

Entrevista com

Edison Hurtado, sociólogo e cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso)

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2019 | 08h00

Após 12 dias de manifestações, o presidente do Equador, Lenín Moreno, voltou atrás com o decreto que previa o fim dos subsídios aos preços dos combustíveis, que aumentou os preços dos galões.

Em reunião com lideranças indígenas e representantes da ONU e da Conferência Episcopal do Equador, Moreno prometeu revogação imediata do decreto, e ao divulgar a medida em sua conta no Twitter, afirmou que seria apresentado um novo decreto para que o empréstimo de mais de US$ 4 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) não fosse prejudicado. 

O sociólogo e cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais do Equador (Flacso), Edison Hurtado, avaliou ao Estado que a credibilidade e estabilidade do governo de Moreno ficou impactada em relação aos setores populares da sociedade equatoriana, mas não se alterou perante ao FMI e aos grupos empresariais.

De acordo com Hurtado, todos os grupos indígenas estão em desacordo com a ideia de um novo decreto, e o movimento que apoia o ex-presidente do Equador e opositor de Moreno, Rafael Correa, sofre uma espécie de perseguição política no País. Três pessoas foram detidas na segunda-feira, 14, integrantes do partido Revolução Cidadã, de Correa, e tiveram computadores e aparelhos telefônicos confiscados, acusados de intentar os protestos para desestabilizar o governo. Outra congressista aliada a Correa se exilou na embaixada do México no Equador ainda no sábado. 

Como fica a legitimidade do governo de Moreno a partir de agora?

O apoio e credibilidade que Moreno tinha antes do conflito já era muito baixo. Em pesquisas feitas por órgãos amigos do governo, sua credibilidade não era superior a 15%. O que sucede depois do conflito é que sua imagem em geral fica mais debilitada para o povo. Mesmo assim, creio que ele recuperou sua legitimidade em um setor social, de classes médias e altas urbanas, que eram contra as manifestações dos indígenas. 

E em relação ao FMI, dar um passo atrás o prejudica?

Frente ao FMI, creio que não houve perda de credibilidade. Está intacto o grupo de poder dentro do governo que é totalmente favorável às medidas do FMI. Nesse sentido, o governo segue mantendo uma estratégia de ajustes estruturais neoliberais. O que Moreno perde é a credibilidade da maioria da população que não está de acordo com as políticas do FMI que não estão totalmente claras. Elas não foram aprovadas pela Corte Constitucional ou pela Assembleia Legislativa. Na perspectiva do governo, seguirão com a mesma agenda até onde possam conseguir as coisas. 

A negociação feita com o movimento indígena então não vai interferir na agenda de governo?

Na perspectiva estratégica, o governo fez um bom acordo. Acaba cedendo com a revogação do decreto 883, mas em seguida lança a possibilidade de fazer um novo decreto. Ainda não sabemos seu conteúdo, se vai retomar a eliminação dos subsídios dos combustíveis, mas não deixa de ser uma carta na mão para fazer uma manobra. Pode até conseguir recuperar um pouco do apoio que perdeu nas ruas. 

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No momento em que se fez o acordo na mesa de negociações no fim de semana, o movimento indígena fez demandas muito pontuais, para revogar o decreto, mas não solicitou a revogação do acordo inteiro com o FMI, que está no pacote econômico. É ambivalente, o governo segue com o acordo com o fundo, ao mesmo tempo em que perde a batalha frente à deslegitimação popular. 

Há alguma espécie de ruptura no movimento indígena após terem permitido a Moreno propor um novo decreto?

Não creio que há rupturas. Todo o movimento indígena está em desacordo com a estratégia de apresentar um novo decreto. Houve uma manobra suspeitosa, para dizer o mínimo, por parte do governo, para ganhar vantagem e fazer um novo decreto, depois que sua proposta perdeu legitimidade. Aqueles que ficaram felizes com esta manobra de um segundo decreto são os setores empresariais que estão a favor do pacote econômico. 

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O correísmo e o próprio Rafael Correa já levantaram a possibilidade de novas manifestações, dependendo do conteúdo do novo decreto. Isso legitima o argumento governamental de que eles querem desestabilizar Moreno?

Desde quando o presidente Lenín Moreno rompeu com o correísmo, deixando de pertencer a um projeto mais progressista e começou a ter uma agenda mais corporativa, em parceria com os grupos econômicos, temos visto uma espécie de perseguição política às figuras do correísmo. Muitos setores se enfrentaram neste levante que levou à crise, e um deles foi o correísmo. O governo foi muito hábil em tentar culpar os correístas de manipuladores e que estivessem infiltrados nos protestos. É um discurso midiático do governo, apesar do grupo que apoia Correa ser contra as medidas econômicas e ter aderido aos protestos. 

Na madrugada de segunda, três pessoas foram presas, figuras visíveis do correísmo. Há um resquício de perseguição política. O governo quer capitalizar e sair da atual crise com a ideia de que há um inimigo comum, que são os correístas, responsáveis pelos atos violentos. Viraram um bode expiatório do governo, que quer manter o apoio das classes mais altas, que são contra o correísmo. Houve nessa medida uma transição de cenário de repressão violenta, com as forças armadas com ordens para reprimir os protestos da maneira que for necessária, para a atual situação de prisão de opositores políticos. Há então distintas versões de autoritarismo no governo de Moreno. 

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