REUTERS/Henry Romero
REUTERS/Henry Romero

‘Não imaginei voltar tão cedo ao Equador nem no meu pior pesadelo’

Ex-presidente retorna a seu país para fazer campanha contra fim da reeleição e critica ‘onda conservadora’ na região

Entrevista com

Rafael Correa, ex-presidente do Equador

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 05h00

Após o rompimento com Lenín Moreno, o ex-presidente Rafael Correa voltou ao Equador para fazer campanha pelo “não” a duas perguntas das sete que serão respondidas pela população no próximo domingo. “Os direitos não podem estar sujeitos a uma campanha política”, disse ao Estado o ex-presidente, que vê problemas na pergunta 2, que determina o fim da reeleição indefinida – e encerraria a possibilidade de Correa voltar ao poder – e na 3, que reestrutura o Conselho de Participação Cidadã. A seguir, trechos da entrevista.

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Por que o senhor defende o 'não' em dois pontos?

Se tivesse acontecido isso na Espanha ou com um governo de esquerda, seria um escândalo. Temos uma consulta que viola a Constituição. Nossa Constituição diz que em todos os casos de consulta popular é necessário uma avaliação da Corte Constitucional sobre as perguntas. Os direitos não podem estar sujeitos a uma campanha política ou à opinião de uma Assembleia Constituinte. Temos a convocatória de uma consulta popular com as perguntas 2 e 3 inconstitucionais, que teriam sido rejeitadas pela Corte. A pergunta 2 é regressiva de direitos e a 3 é um golpe de Estado. Segundo o Estado de Direito no Equador, o presidente Moreno deveria estar indiciado como (ex-governador catalão Carles) Puigdemont. Se ocorresse isso na Venezuela, o país já teria sido invadido pelos gringos, mas aqui não acontece nada, pois a imprensa nacional é cúmplice nessa ruptura constitucional.

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Como tem sido a campanha?

Essa consulta é manipulada e as perguntas estão confusas. Atrás do papel, há um anexo que não se consegue ler e muitas vezes o mais importante está nele. Isso tudo é inconstitucional, pois a lei diz que as perguntas devem ser objetivas, que deve haver uma questão por pergunta. O item 3 tem facilmente quatro, cinco questões. Por isso, o trabalho de informar é complicado. Mas, quando as pessoas são informadas, percebem a fraude, o engano, a manipulação. Nosso problema é o tempo e todo o boicote que sofremos. Não podemos colocar publicidade na mídia. Foi difícil até mesmo nossa inscrição para fazer propaganda pelo ‘não’. Estou aqui desde o dia 5 e estamos há 20 dias fazendo campanha. Se tivéssemos mais dois meses até a votação, ganharíamos. Tomara que consigamos superar a diferença que havia do 'sim' para o 'não' depois de oito meses com um único discurso de campanha.

Após apoiar Moreno, imaginava que voltaria ao país tão cedo?

Não poderia imaginar isso nem no meu pior pesadelo. Ele é um impostor, me enganou. E parte disso é minha culpa. Como eu poderia imaginar que, oito meses após passar a presidência a Moreno, que me chamava de “o melhor presidente”, eu teria de voltar para evitar um golpe de Estado? A pergunta 3 fala de se apoderar do Conselho de Participação Cidadã, criado para organizar concursos nacionais para a escolha de autoridades de controle (procurador, promotor, controlador, defensor público, etc). Esse conselho pode ser destituído agora. A propaganda (do “sim”) diz que, em 2019, teremos eleições locais e, em fevereiro de 2018, serão eleitos os novos membros do Conselho”. Mas o que fica oculto é que, se a pergunta for aprovada, até fevereiro de 2019 haverá um conselho transitório apenas com delegados do Executivo, com poderes para substituir todas as autoridades. Isso me obrigou a voltar pela pátria. E pelo lado pessoal também, pois é óbvio que vão colocar no poder um procurador ou um juiz que me odeie.  

O que o senhor pensa sobre a situação de Julian Assange?

Moreno é um traidor, um impostor convencional. Não se interessa por Assange. Os dias de Assange estão contados, é uma questão de tempo diante da mínima pressão dos EUA. Se obtiverem êxito na consulta, tenho certeza que o próximo passo é mudar a política internacional, tirar Assange da embaixada e submetê-lo aos EUA.

O que pensa da situação na Venezuela?

É surpreendente como a Venezuela tem saído de seu conflito, provocado pela guerra econômica e pela política de países hegemônicos, em paz e democracia. Nos últimos seis meses, o governo venezuelano ganhou três eleições. Ele se reposicionou totalmente, ajudado pela recuperação do preço do petróleo. É muito provável que, nas eleições presidenciais, Nicolás Maduro seja reeleito. A Constituinte tem pleno poderes, pode fazer isso (adiantar as eleições) e está aproveitando a popularidade e os êxitos do governo.  

Como vê a condenação de Lula?

Mais um capítulo da volta ao passado. Há quatro anos, eu disse que havia uma restauração conservadora, uma nova direita, articulada nacional e internacionalmente em seu discurso, aproveitando o desgaste da esquerda. Por mais êxito que o governo tenha, sempre enfrentará mudanças econômicas, e a direita e sua mídia vão jogar a culpa no político, não nas estruturas econômicas. Já não se respeita a democracia no Brasil, não se respeita a integração, querem destruir a Unasul. Antes, mesmo em governos de direita, a democracia e a integração eram inquestionáveis. Vivemos um novo capítulo dessa restauração conservadora até a judicialização da política. É uma estratégia regional, começa com um alvoroço midiático, aproveitando um caso real ou fictício de corrupção, depois se destrói a reputação do dirigente, que perde sua base política e é destituído por meio do Parlamento ou de juízes, que só podem condená-lo porque não se atrevem a ir contra a pressão midiática e social. O caso de Lula é emblemático. Todos sabem que é para impedir sua participação na eleição. No Brasil, tomaram o poder pela força. Na Argentina, pela eleição. No Equador, pela traição. 

Qual sua posição sobre o caso Odebrecht no Equador?

É preciso enfrentar o caso sem politicagem. O melhor que aconteceu a esse governo foi o caso Odebrecht, pois eles distorceram tudo. Entreguei o governo em 24 de maio, avancei no que pude as investigações. Com as delações, foi possível avançar nas prisões, mas esse governo traidor disse que eu tive de deixar o poder para que se pudesse começar a investigar os casos de corrupção. Uma infâmia. É preciso investigar o caso, mas até agora só o politizaram. Foi usado para prender o vice-presidente (Jorge Glas). Não há provas contra ele. Tiramos a imunidade parlamentar dele quando surgiu o caso. Da noite para o dia, (o governo atual) muda a cautelar por um pedido de prisão preventiva para obrigá-lo a abandonar o cargo.

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