PATRICK DOMINGO/AFP
PATRICK DOMINGO/AFP

'Não podemos chamar de islâmico o atentado'

Mesquitas no Brasil devem ter pregação de tolerância hoje, após ataque ao jornal satírico francês 'Charlie Hebdo'

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2015 | 02h01

O atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, não pode ser qualificado como um ato islâmico, afirma o professor Ali Hussein el Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras). Em entrevista ao Estado, ele disse que o principal papel da comunidade hoje é diferenciar muçulmanos de extremistas.

Qual é a posição da Federação sobre o ataque?

A Federação reforça a ideia de que o Islamismo é uma religião cuja a essência é a paz, a preservação da vida e o direito inalienável de liberdade de expressão. Não podemos qualificar de islâmico o que essas pessoas praticaram. Nós nos colocamos ao lado das vítimas.

Como a comunidade muçulmana pode lidar com uma possível onda de islamofobia?

A ação passa pelo diálogo com líderes de países e a mídia para dissipar a ideia de que (o atentado) se trata de algo relacionado aos princípios islâmicos. Hoje os muçulmanos são 1,5 bilhão, praticamente um quarto da população mundial. A minoria absoluta (que comete ataques) é uma distorção, não reconhecida como islâmica. A islamofobia também é algo absurdo, inaceitável. Temos de buscar soluções e uma delas é por meio da educação. Na Europa, a integração desses jovens consegue equacionar uma série de problemas de ordem social e emocional, que podem ser fatores geradores de ataques. Na religião, é papel das autoridades religiosas nortearem seus discursos em torno da tolerância.

É possível detectar um comportamento extremista dentro de congregações muçulmanas?

Não temos notícias no Brasil de pessoas que possam caminhar para essa distorção. Na Europa, o setor de inteligência tem detectado esses focos. O nosso papel é passar para as autoridades religiosas que em todos os momentos preguem a tolerância, o respeito às diferenças e essas autoridades têm feito isso. Por exemplo, amanhã (hoje) o teor do discurso nas mesquitas deve ser de pesar e tolerância.

Há risco de ver no Brasil esse tipo de ataque?

Até pela formação étnica, o Brasil é um modelo de tolerância e convivência pacífica. A gente tenta dialogar para exportar esse modelo. Claro que é preciso considerar as diferenças de cada comunidade muçulmana.

A Federação foi procurada após o ataque?

Não tivemos contato com as organizações da França, só notícias de que elas se pronunciaram de maneira categórica condenando o atentado, assim como a Liga Árabe. A comunidade muçulmana hoje tem o papel de elucidar e deixar claro o que é o islamismo, uma religião ligada definitivamente à questão da paz. 'Quem matou um ser humano inocente é como se tivesse matado toda a humanidade', diz o Alcorão.

Como trabalhar isso com a ascensão do Estado Islâmico?

Essas pessoas (jihadistas) se autodenominam dessa forma, ferindo toda a essência do Islamismo e sem respaldo ao que fazem.

Cada Imã em sua mesquita tem liberdade sobre a pregação?

Sim. No Brasil existe um conselho de autoridades religiosas islâmicas e o presidente pode mandar um comunicado dando a tônica, mas sem poder de censura. Diante de uma situação limite como essa, achamos bom sugerir que se falasse sobre tolerância, sobre paz.

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