''Não podemos permitir uma nova Guerra Fria''

Corrida armamentista desvia foco dos temas atuais: energia, segurança alimentar e ambiente

Susilo B. Yudhoyono*, O Estadao de S.Paulo

20 de setembro de 2008 | 00h00

Quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, o mundo alimentou grandes esperanças de finalmente poder colher os dividendos da paz sobre as ruínas da Guerra Fria. De fato, apesar da turbulenta transição do sistema internacional, pudemos ver algum progresso. As relações entre as principais potências melhoraram significativamente e o Conselho de Segurança da ONU voltou a funcionar. Desapareceu a ameaça da 3ª Guerra Mundial e a corrida armamentista foi interrompida. Houve uma reaproximação estratégica - principalmente entre EUA, China e Rússia - e as tensões tornaram-se administráveis. A democracia e a sociedade aberta difundiram-se por todo o planeta.Em grande parte da Ásia, as armas se silenciaram - até mesmo em meu país, onde a paz reina em Aceh. O número de conflitos mundiais diminuiu. A maior parte deles agora explode no interior dos países e não entre países. Na realidade, segundo o Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional, de Estocolmo, durante quatro anos, entre 2003 e 2007, não foi registrado nenhum conflito entre nações.A última coisa de que precisamos agora é de um novo esfriamento do sistema internacional. Entretanto, esse novo esfriamento está sendo sentido nas especulações sobre uma nova Guerra Fria entre a Rússia e o Ocidente, depois do confronto na Geórgia que envolveu a Ossétia do Sul e a Abkázia.Persiste esta tensão de caráter geoestratégico, alimentada anteriormente pelo estardalhaço sobre a independência do Kosovo, e poderá resultar em um confronto mais amplo. O esfriamento também está sendo sentido no Conselho de Segurança da ONU. É improvável que o mundo retroceda à divisão ideológica existente no século 20. O perigo real está no fato de que, se persistir e reverberar por todo o sistema internacional, o esfriamento poderá desviar atenções e recursos de questões cruciais. Já estamos vendo sinais desconcertantes. Os gastos militares de EUA, Rússia e China são enormes, e, com exceção da Rússia, superam os do final da Guerra Fria.O total dos gastos militares mundiais cresceu rapidamente nos últimos anos. Os debates estratégicos sobre armas e mísseis recomeçaram, colocando em grave perigo o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em meio a um evidente crescimento da desconfiança, o que torna mais provável o risco de um confronto geopolítico.A comunidade internacional não pode perder tempo para desativar as bombas-relógio que já estão em contagem regressiva: energia, alimentos e mudanças climáticas. São essas as verdadeiras ameaças à segurança em nosso tempo. No entanto, mal arranhamos a superfície.Quanto à primeira, será preciso encontrar um equilíbrio adequado entre a oferta e a demanda de petróleo, acabar com nossa dependência do produto e desenvolver fontes de energia alternativa mais baratas, de baixo teor de carbono, para determos o aumento dos preços do petróleo, que hoje estrangulam a economia mundial.A respeito de segurança alimentar, precisamos de uma segunda revolução verde, desta vez com maior respeito pelo meio ambiente, a fim de intensificar a oferta de comida em todo o mundo e impedir possíveis crises sociais, econômicas e políticas, ajudando, ao mesmo tempo, as 100 milhões de pessoas que, em todo o mundo, estão prestes a voltar para trás da linha da pobreza.Sobre as mudanças climáticas, precisamos urgentemente elaborar um ambicioso programa global pós-2012 para reduzirmos o aquecimento global a dois graus centígrados nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, as nações, principalmente as principais poluidoras, devem começar a implementar um plano ambicioso para reduzir as emissões de gases estufa.Também devemos pressionar para que as metas globais de desenvolvimento do milênio sejam alcançadas dentro do prazo, até 2015.Todos esses são desafios enormes, que transcendem as relações Leste-Oeste e Norte-Sul. Essas complexas questões não serão resolvidas pelo poder e pela violência. Só terão solução por meio de uma ação coletiva no longo prazo, associada a uma adequada vontade política e a enormes recursos.Os alicerces da nossa segurança e sobrevivência no século 21 baseiam-se no nosso sucesso em vencer estes desafios. E, certamente, nenhum deles poderá ser vencido se as grandes potências não cooperarem e demonstrarem a liderança que o mundo espera delas.As poderosas forças da globalização não tornam irrelevante a geopolítica. O mundo, porém, não pode retroceder para a geopolítica da dominação, da conquista e do confronto que vimos no passado. Ao contrário, precisamos de uma nova geopolítica da cooperação, que deverá ser impulsionada pelo imperativo representado pela vitória sobre os desafios comuns.Ela terá de concentrar-se na cooperação estratégica, e não no confronto; na construção de pontes, e não em divisões; na difusão do soft power, e não do hard power; na garantia de benefícios mútuos, e não na garantia da mútua destruição.Essa nova geopolítica não é uma utopia. Já a estamos presenciando na prática, em muitos casos: na resposta global à crise gerada pelos tsunamis, em 2004, na luta global contra o terrorismo, nas negociações sobre a Coréia do Norte e no sucesso da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, realizada em Bali, em dezembro. Se mantivermos este curso, concluiremos nossa jornada.*Susilo B. Yudhoyono é presidente da Indonésia e escreveu este artigo para o "International Herald Tribune"

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