''Não podemos tratar Breivik como um louco''

Especialista alerta que grupos radicais têm encontrado terreno fértil para atrair simpatizantes com base no medo e na crise

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - JEAN ZIEGLER, sociólogo e ex-político suíço

O fortalecimento do discurso de extrema direita na Europa ameaça a democracia e precisa ser contido. O alerta é do acadêmico e ex-político suíço Jean Ziegler, um dos sociólogos de maior prestígio na Europa. Em entrevista ao Estado, Ziegler aponta para o "terreno fértil" que partidos extremistas encontram para recrutar simpatizantes, com base no discurso do medo, na crise e numa apatia política dos demais partidos. No próximo mês, o sociólogo lança mais uma obra no Brasil, Ódio ao Ocidente, da Editora Cortez. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A polícia norueguesa acredita que Anders Breivik agiu sozinho. O sr. considera que foi um ato isolado?

Certamente o autor é um monstro e não há outra palavra para descrevê-lo. Mas ele é revelador. Deixou um testamento de mil páginas, com uma ideologia clara e sólida, adotou uma estratégia militar e contava com recursos. Tudo isso é sério e não podemos tratar Breivik como um louco. O incidente requer uma posição séria de todas as forças políticas da Europa para repensar sobre o que ocorre.

Por que esse incidente é tão revelador?

Porque ele mostra o que ocorre quando grupos políticos usam o medo, a xenofobia e o racismo para ganhar espaço e poder. O resultado pode sair do controle. Pessoas como esse assassino agem supostamente para liberar a Europa dos imigrantes e de políticos que defendem esses imigrantes. A proteção da Europa é o grande projeto.

Como é que, apesar dos esforços, a Europa não conseguiu evitar a volta do extremismo de direita?

Há duas fontes para esse ressurgimento. Esses grupos alimentam-se do êxito visto entre os ultraconservadores americanos. Outro fator é a crise econômica. Hoje, existem 18 milhões de desempregados na Europa. Há um sentimento claro de insegurança e medo do amanhã. E é nessa base que grupos neonazistas, por exemplo, encontram espaço. A crise é profunda na Europa e extremistas não têm tido dificuldade para recrutar jovens que nunca conseguiram trabalho e querem explicação para o que os atinge.

Qual tem sido a repercussão política dessa tendência de fortalecimento dos grupos extremistas?

Esses grupos criam movimentos políticos legalizados para chegar ao poder e fortalecem os que existiam. Na Suíça, o partido UDC já é o maior do país e, em outubro, vencerá facilmente as eleições. Na França, Marine Le Pen poderá ter mais votos que os socialistas em 2012. Na Holanda, o país mais multicultural da Europa, a extrema direita tem amplo eleitorado.

Mas esses partidos tomaram a decisão de se distanciar do massacre em Oslo.

Claro. Não estou dizendo que são a mesma coisa. A xenofobia e o racismo passaram a ser aceitos no debate público e esse é o perigo.

Como o sr. acha que a Europa deve reagir agora ?

Esse incidente pode ser um fator fundamental. Os partidos europeus precisam reagir e despertar contra o risco real do extremismo. O discurso racista e xenófobo é inimigo da humanidade e não pode ser autorizado. Ele fere a democracia. Partidos de centro e esquerda adotaram um tom de conciliação com a extrema direita e isso está sendo mortal. O extremismo deve ser visto como ele é: uma peste.

Qual deve ser o modelo usado para garantir que esse multiculturalismo possa existir?

Não posso pensar em um modelo mais exemplar que o do Brasil. O multiculturalismo é a sociedade brasileira e líderes europeus deveriam olhar um pouco para o Brasil para tentar tirar algumas lições de que a existência de diferentes grupos não enfraquece a sociedade. Muito pelo contrário.

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