'Não queremos mais tropas estrangeiras no Iraque'

Diplomata iraquiano fala ao 'Estado' sobre o esforço internacional para derrotar os jihadistas do Estado Islâmico

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2014 | 02h01

Depois de seis semanas de bombardeios aéreos, o Estado Islâmico (EI) ainda ocupa a maior parte do território invadido. Por que é difícil expulsá-lo?

Os bombardeios e a presença do Exército iraquiano permitiram conter o avanço deles no terreno. O próprio povo iraquiano também se armou para impedi-los de avançar.

Mas por que, com tudo isso, o EI continua ocupando Mossul e outras cidades?

O apoio aéreo é suficiente para conter o avanço, mas não para vencer a guerra. Para isso, são necessárias forças terrestres. As milícias sunitas não aderiram à luta contra o EI, pois consideram que o novo governo não atende suas reivindicações.

Mas o novo governo está sendo bem aceito pelas tribos sunitas. A quais tribos o sr. se refere?

Às do Conselho Revolucionário Tribal, representado, por exemplo, pelo xeque Ali Hatem al-Suleiman, exilado em Irbil. Esse xeque foi contra o governo no início. Há uma grande bancada das tribos sunitas no Parlamento que hoje apoia o governo. No mundo, sempre há alguém que faz oposição. No entanto, é preciso ver o peso dessa pessoa, o que essa oposição representa.

O sr. acha importante então que as milícias sunitas enfrentem o EI?

Lógico que o governo aceita e apoia qualquer um que esteja disposto a enfrentar o EI. Não importa sua religião ou o grupo ao qual pertence.

O novo governo está oferecendo cargos aos sunitas?

Os cargos são preenchidos de acordo com a representação parlamentar. É o Parlamento que aprova os nomes. O gabinete já está quase todo formado. Só faltam os ministérios mais importantes: Defesa e Interior.

Há quantos ministros sunitas?

Não tenho o número certo. Mas depende de quantas cadeiras eles têm no Parlamento. Há dois vice-presidentes e um vice-primeiro-ministro sunita, assim como o presidente do Parlamento. Um nome cotado para a Defesa, Jaber al-Jabari, também é sunita. Mas precisa ser aprovado pelo Parlamento.

Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein, com apoio do Catar, começaram a bombardear o EI. É a primeira vez que eles atacam um dos grupos fundamentalistas, que antes apoiavam. O que muda na região?

Temos de viver o hoje. Depois que foi constituído o governo de Abadi, com o apoio de todos os países da região e da comunidade internacional, ele tentará reverter a favor do Iraque toda aquela situação que estava contra. Há a reunião da coalizão internacional, em Paris, após o encontro de Jeddah (Arábia Saudita), o que significa mudança nas posições.

Quais as consequências da exclusão do Irã da coalizão?

Em primeiro lugar, o Irã afirma que foi ele que não quis participar. O Irã propôs que o grupo fosse formado no âmbito da ONU e tivesse a participação da Síria, que passa pela mesma situação que o Iraque, e da Rússia. Quando viu a formação da coalizão, o Irã desconfiou de que havia algum interesse por trás.

Isso abalou a relação entre Irã e Iraque (membro da coalizão)?

Não afetou as relações entre os dois países e eles compreendem a nossa posição.

O Curdistão pode se tornar independente como resultado desse conflito?

Hoje, acredito que não. Mas eles têm, há muito tempo, o desejo de um dia separar-se do Iraque.

O xeque (sunita) Ali Hatem al-Suleiman propôs uma federação, com bastante autonomia para as regiões sunitas e xiitas e a redução do poder central. O senhor acha isso possível?

Desde a época do governo anterior, de Nuri al-Maliki, está sendo oferecida mais atribuições às províncias. No entanto, isso não é simples. Toma tempo para se concretizar. O xeque Ali não é quem vai conduzir isso, mas o gabinete.

Se os Estados Unidos decidissem enviar tropas terrestres, o Iraque se oporia?

O governo iraquiano é contra isso. O Exército iraquiano tem capacidade de combater o Estado Islâmico. Lógico que vamos precisar de ajuda: apoio aéreo e armamento. Aceitamos tudo. Mas, tropas estrangeiras, não queremos mais.

Mas o Hezbollah está no Iraque, não está?

Não estou sabendo disso. O Líbano possui as mesmas ameaças das gangues terroristas do Estado Islâmico e o Hezbollah pode combatê-las no território libanês.

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