'Não queremos uma mudança que divida ainda mais a Venezuela', diz Capriles

Em entrevista desde Caracas ao 'Programa do Jô', que vai ao ar na madrugada desta terça-feira, 18, opositor venezuelano prega transição democrática

17 de março de 2014 | 19h22

O líder da oposição venezuelana Henrique Capriles afirmou nesta segunda-feira, 17, que nunca planejou mudar o governo da Venezuela de uma forma que não seja democrática e aceita conversar com o governo para buscar uma solução para a atual crise, desde que não seja usado nem faça parte de uma encenação para fingir que o país não tem sérios problemas.

Em entrevista concedida a Jô Soares, da Rede Globo, o governador do Estado de Miranda apontou a atual crise econômica, a falta de segurança e "seguidas violações da Constituição" como principais motivadores dos protestos contra Maduro iniciados em fevereiro, com 29 mortos. O programa vai ao ar na madrugada de terça-feira.

"Nunca pensei em nenhuma mudança para a Venezuela que não seja dentro da Constituição. A mudança tem de ser democrática, constitucional, pacífica e eleitoral", disse o oposicionista ao ser questionado sobre a legalidade de movimentos que pedem a saída do presidente eleito, Nicolás Maduro. "Denunciamos a eleição de 2013 em instâncias internacionais porque os poderes na Venezuela estão todos a serviço das causas do governo."

Capriles também acusou o governo de usar uma abordagem que estimularia a violência em vez de tentar conter os crescentes índices de assassinatos no país. "Há milhares de razões para protestar na Venezuela, mas sempre pleiteamos que seja pacífica. Nós queremos uma mudança que seja verdadeira, não uma que deixe o país mais dividido do que já está. Mas veja a linguagem de Nicolás, a forma que o governo fala com o país. Não são promotores da paz. Eles têm um discurso que insulta e que divide as pessoas", acusou.

No momento mais tenso da entrevista, Jô afirmou que Capriles fazia parte dos grupos que estavam no poder antes do chavismo e questionou qual seria a culpa dessas pessoas em relação a miséria que vive parte dos venezuelanos. "Eu não fiz parte do que aconteceu. Na época do 'caracaço' eu tinha 16 anos e não militava em nenhum grupo político. Venho de uma família sem origem política, de trabalhadores, que chegaram ao país sem nada. Não tenho por que carregar uma cruz que não me pertence", defendeu-se o opositor.

Sobre a ausência na reuniões das Conferência de Paz convocadas por Maduro para buscar uma solução para os protestos, Capriles respondeu que acabou de convidar Maduro para uma espécie de "debate" em cadeia nacional de rádio e TV, de forma que tanto o governo quanto a oposição tenham oportunidade de expor seus pontos de vista. "O que significa diálogo para Nicolás? Sentar-se e ouvir o que ele tem pra falar é um monólogo. Claro que eu quero que o país melhore e, por isso, estou disposto a conversar com quem for. Só não podemos renunciar ao direito de pensar e de conversar, senão viramos animais."

O opositor aproveitou para reclamar da dificuldade que partidos e políticos contrários ao governo têm enfrentado para conseguir espaço nos meios de imprensa. "Creio que sou o venezuelano mais censurado em meu país. Se dou uma entrevista, logo depois o governo ameaça o meio de comunicação. Nesse momento, a liberdade de expressão está contra a parede na Venezuela e é uma luta muito desigual competir com o aparato de mídia que o governo montou."

Capriles encerrou a entrevista se convidando para comer uma feijoada junto de Jô Soares quando vier ao Brasil, retribuindo uma brincadeira do entrevistador, que iniciou o diálogo se apresentando como "El gordo" (O gordo) e saudando "El flaco" (O magro), apelido de Capriles na Venezuela. / MURILLO FERRARI

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