'Não quero morrer sem ver a carinha de meu neto', diz argentina

Sonia Torres, uma das líderes das Avós da Praça de Maio de Córdoba, procura seu neto há 36 anos

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

07 de agosto de 2012 | 20h09

BUENOS AIRES - No dia 26 de março de 1976, Sylvia Torres tinha 21 anos e estava grávida de seis meses e meio. Estudante de Economia, ela havia militado nos anos anteriores, durante o segundo grau, nos movimentos estudantis do Liceu Manuel Belgrano. Às 18 horas daquele dia, os vizinhos de Silvia ouviram os gritos de dor da jovem, enquanto era levada de sua casa.

 

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Também escutaram os gritos desesperados de seu marido, Daniel Orozco. Ao olhar pelas frestas da janela, os vizinhos viram como a jovem - oculta sob um cobertor - era levada por um grupo de militares para um veículo. Dali, Silvia e o marido foram levados para La Perla, nome do mais sinistro centro de detenção e torturas da província de Córdoba, comandado pelo general Luciano Benjamín Menéndez.

 

Dois dias antes, no 24 de março, um golpe militar havia derrubado a então presidente Maria Estela Martinez de Perón, mais conhecida pelo apelido de "Isabelita", e instaurado uma ditadura que se prolongaria por sete anos. Ao longo desse período, 30 mil civis foram torturados e assassinados pelos militares. Além deles, a ditadura sequestrou 500 bebês, filhos das desaparecidas.

 

A organização das Avós da Praça de Maio recuperou a identidade de 106 netos - o último deles nesta terça-feira, 7. Na cidade de Córdoba, de um total de 22 bebês roubados, apenas dois foram resgatados por suas famílias biológicas. Ali, no interior da Argentina, uma das avós, Sonia Torres, continua à procura de seu neto. A filha e o genro dela foram assassinados, mas os militares nunca revelaram o lugar de jazida de seus corpos.

Às vésperas de completar 83 anos, ela disse ao Estado, por telefone: "Não quero morrer sem ver a carinha de meu neto". Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

 

Estado: Onde nasceu seu neto?

 

Sonia Torres: Não nasceu em La Perla, onde minha filha esteve presa. Sylvina foi levada a dar à luz a outro lugar, que ainda não conseguimos identificar. Meu neto é um menino, pelo que soubemos por depoimentos. É um rapaz agora, que está entre nós, oculto. Não o encontramos ainda. Mas vamos encontrá-lo. Ele ainda é escravo dos militares, pois não conhece seu nome nem sobrenome. Sou avó de cinco netos: quatro que estão comigo e um que vou encontrar.

 

Estado: Quem comandava La Perla, o maior centro de detenção e tortura do centro da Argentina?

 

Sonia Torres: O lugar era comandado por (Luciano Benjamín) Menéndez e sua "patota". Esse general era o chefe do Terceiro Exército e tinha o domínio de dez províncias do centro e norte da Argentina. Era um "açougueiro".

 

Estado: Ao longo das maior parte do tempo, Menéndez, atualmente condenado e preso, esteve solto, caminhando pelas ruas de Córdoba. Alguma vez deparou-se com ele?

 

Sonia Torres: No tribunal, no ano passado, quando ele foi julgado e condenado. Mas nunca cruzei com ele na rua. No entanto, algumas pessoas de nosso grupo o encontraram. Uma vez na rua, outra vez em um elevador. É algo muito injusto, o fato de que assassinos genocidas caminhassem na rua livremente. Menéndez, muito tempo após o fim da ditadura, ainda era chamado para participar das cerimônias oficiais.

 

Estado: As investigações sobre o paradeiro dos netos roubados no interior do país foram mais difíceis do que na capital?

 

Sonia Torres: A tarefa em Córdoba não foi fácil. Os meios de comunicação na cidade foram colaboracionistas dos militares. O problema, para encontrar pistas, é que várias dessas jovens foram levadas para fora de Córdoba, para outras cidades que também estavam sob o controle de Menéndez. Moças daqui eram levada para Tucumán, por exemplo. E as jovens sequestradas de Tucumán eram trazidas para Córdoba. Em Buenos Aires existe um número maior de avós, que puderam fazer mais coisas do que nós, aqui no interior. Mas, em todo o país conseguimos reencontrar 106 netos, de quem não conhecíamos os rostos. Não estamos insatisfeitas. Mas resta muito trabalho ainda a fazer em Córdoba por meu neto e pelos filhos das outras 21 jovens grávidas que deram à luz no cativeiro.

 

Estado: Depois das leis do perdão aos militares dos anos 1980 e dos indultos do início dos anos 1990, quando os militares estavam livres, acreditava que um dia os veria na cadeia?

 

Sonia Torres: Não acreditava que seria possível anular as leis do perdão, pois houve muitos cúmplices civis e religiosos. Nos parecia uma utopia a possibilidade de poder levá-los novamente ao banco dos réus. Foi um trabalho longo e desgastante. Mas nenhuma de nós abandonou a luta. E sempre buscamos nossos netos com tranquilidade, respeitando a saúde mental desses jovens. Mesmo quando sabíamos que havia um neto em um lugar, não nos aproximávamos de supetão.

 

Estado: Na maioria dos países da região, os ex-integrantes das ditaduras militares continuam impunes pelos crimes cometidos. Considera que algum dia os responsáveis por torturas e sequestros serão levados ao banco dos réus na região?

 

Sonia Torres: Na Argentina, as Avós e Mães da Praça de Maio colocamos nosso grãozinho de areia nessa tarefa de fazer justiça a esses crimes contra a humanidade. Talvez nos outros países não tenham aparecido organizações desse estilo. E além disso, a justiça é lenta aqui, como em outros lugares. Espero que no Brasil as averiguações avancem.

 

Estado: Dentro de alguns anos as avós - a maioria das quais na casa dos 80 anos - talvez não estejam mais aqui para continuar com essa tarefa. O que acontecerá com a procura dos netos desaparecidos?

 

Sonia Torres: Já estamos preparadas para quando não estivermos mais aqui. Estamos treinando um grupo de jovens que continuarão com a procura de nossos netos. Mas, cada uma de nós tem a esperança de ver a carinha de nossos netos antes de morrer. 

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