'Não se pode crer cegamente nos EUA'

Para ex-líder soviético, Rússia fez bem ao bloquear uma 'má decisão' contra a Síria e qualquer ação no caso deve ser coletiva

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2013 | 02h08

Um líder que entrou para a história por mudar de forma dramática sua relação com a Casa Branca alerta: "Não se pode crer cegamente nos EUA". O Estado foi um dos quatro meios convidados para um encontro ontem com Mikhail Gorbachev, último presidente da URSS, que esteve em Genebra nos 20 anos de sua entidade ambiental, a Green Cross. Ele falou sobre Síria e outros temas.

Qual a opinião do sr. sobre os ataques químicos na Síria?

A primeira coisa seria descobrir o que ocorreu de fato. Com base nisso, passos precisam ser tomados. Ainda não posso acreditar que armas químicas foram usadas contra seres humanos. Isso não é normal. É chocante.

E o que deve ser feito diante dessa situação?

Primeiro precisamos entender a situação. Há gente muito apressada para chegar a conclusões. Isso é política. Tem gente tentando ganhar politicamente com isso. Insisto que, se for o caso, existe o Tribunal Penal Internacional e casos podem ser levados a ele pelo Conselho de Segurança. Mas até agora o Conselho de Segurança não fez nada. Sei que o governo russo adotou uma posição de princípio e quer uma conferência de paz. Com todo respeito aos EUA, não podemos simplesmente crer no que eles dizem. Não podemos acreditar cegamente nos EUA. Ninguém pode achar que sabe, sozinho, o que deve ser feito na Síria.

Como o sr. avalia a paralisia do Conselho de Segurança diante da guerra?

Não posso acreditar que não está ocorrendo nada no Conselho. A ONU tem a primeira responsabilidade pela paz. Também não posso confiar, seria inocente de minha parte, achar que podemos ter um ataque cuidadoso que só atingiria áreas específicas. Ao mesmo tempo, sei que Obama não é o tipo de pessoa que aceitaria qualquer coisa. E continuo achando isso dele.

Mas não é a Rússia que está bloqueando uma ação do Conselho?

Eles bloquearam uma decisão que era uma má decisão. O direito de vetar uma má decisão é algo positivo. O veto não foi inventado por pessoas estúpidas. Não são decisões banais. Mas sim sobre a vida de seres humanos. Alguns acreditam que as armas são a solução. Eu não acredito nisso.

Nos últimos anos, uma das novidades no cenário geopolítico é a criação dos Brics. O sr. acredita que esse seja um bloco ou apenas uma ficção?

Não é uma ficção. Quando o Brasil fala, o mundo hoje escuta. Quando a Rússia, Índia e China falam, eles têm um peso. Trata-se de uma aliança importante para contrabalançar outros poderes. É uma espécie de equilíbrio que se estabelece em relação a outros polos de poder. É importante que o bloco tenha sucesso.

A URSS por anos apoiou o regime cubano. O que o sr. acredita que ocorrerá em Havana?

Não podemos dar aulas para, por exemplo, a China, sobre o que deve ser feito. A China terá de lidar com os mesmos problemas que nós na Rússia enfrentamos em nossa transição. Em Cuba, eles são teimosos. Se alguém tentar ditar ou colocar demandas injustas sobre Cuba, não vai funcionar. Fidel Castro é muito influente ainda em Cuba e acho que haverá mudanças, mas cabe a eles decidir e Cuba tem muitos amigos ainda. Espero que normalizem suas relações com os EUA. Mas isso depende mais dos EUA do que de Cuba. Muitos problemas que vemos lá são herdados da Guerra Fria e dos erros que foram feitos.

Até que ponto a relação pessoal entre líderes é fundamental para resolver crises?

Lembro de quando a reunificação da Alemanha era urgente. Margaret Thatcher era contra. A França também era contra, mas eles tinham outra forma de afirmar. Diziam: "Gostamos tanto dos alemães que queremos que tenham dois Estados". Para URSS e EUA, era mais complicado. A posição da URSS até quase o final era de que a Alemanha não deveria ser reunificada. Mas chegamos a um acordo de que o país decidiria de que lado ficar. Hoje, dizem que Gorbachev "vendeu" a Alemanha Oriental muito barato. Mas pensamos: "Muito bem, muita coisa ocorreu na história da Alemanha e a nova geração provou que poderia viver de forma democrática". Foi decisiva a confiança mútua entre os líderes.

Como o sr. avalia as leis antigay na Rússia?

Existem muitos grupos que querem viver de sua forma. São coisas que, em outros países, já foram decididas há anos. Mas não existe ainda na Rússia um consenso e parte da população acredita que isso pode influenciar os jovens para o caminho errado. Não se pode acelerar os processos numa sociedade.

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