Sarah Dadouch/WP
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'Não sei como não estou morta': relata repórter do 'Post' após tragédia em Beirute

Sarah Dadouch estava de saída para o porto quando escutou explosões; jornalista teve apartamento destruído

Sarah Dadouch / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 03h00

Tudo o que eu conseguia pensar era em encontrar a gata.

Era um sentimento irracional, mas fiquei pensando: se eu pudesse encontrar a Sunday, tudo ficaria bem de repente.

Normalmente, nem gosto de animais de estimação e não faço ideia de como, durante o confinamento, me apaixonei por essa gata ruiva que constantemente balançava seu rabo espesso. Fiquei imaginando aquele rabo dramático deitado, seus olhos vidrados, mortos sob uma viga.

Mas se a Sunday estava viva, eu decidi, então talvez meu amigo íntimo, um colega jornalista, também estivesse. Em um dia comum, eu estaria com ele, acelerando em sua motocicleta, como costumamos fazer quando as notícias chegam em Beirute. Então, quando o vi tuítar que o porto da cidade estava pegando fogo, peguei meu capacete e coloquei um jeans.

Meu namorado perguntou por que eu estava indo. Ele disse que o incêndio não parecia ser uma grande notícia. "Por que você está desperdiçando seu tempo?" ele perguntou quando entrei na sala de estar. Então tudo explodiu.

Todas as portas dentro do meu apartamento, dobradiças e tudo, foram arrancadas das paredes. O mesmo aconteceu com o meu ar condicionado: grande, se dividiu ao meio. As enormes janelas da minha sala voaram em minha direção. O vidro não se partiu; as janelas voaram inteiras. Eu realmente, mesmo agora, não tenho ideia de como não estou morta. Eu fiquei de pé em meio a um turbilhão de pregos, vidro e madeira lascada. Vi a Sunday por uma fração de segundo. Então ouvimos um zumbido alto que soou como aviões e, em instantes, veio a segunda explosão.

Eu estava descalça e tinha vidro nos pés. Minhas pernas estavam sangrando, mas apenas na parte inferior porque, felizmente, eu havia colocado a calça jeans. Nós corremos para a porta da frente e nos escondemos no banheiro intacto, sem saber o que fazer.

Quando o zumbido parou, corremos para os escombros e começamos a jogar passaportes, dinheiro e qualquer coisa valiosa em mochilas. Então paramos, nos olhamos por um momento, cobertos de poeira, e decidimos que não havia sentido em fazer aquilo. Não sabíamos o que poderia vir a seguir.

E não tínhamos para onde ir. Ninguém sabia onde estava seguro.

Nós achamos que a cidade estava sendo bombardeada pelos israelenses. Todo verão, Beirute proclama que este é o verão em que um ataque acontecerá. Isso foi antes de sabermos que a explosão estava ligada a 2.750 toneladas de nitrato de amônio armazenadas no porto.

As ruas estavam tomadas pelo som de gritos. Havia corpos ensangüentados por toda parte. Não sobrou vidro em nenhuma janela dos antigos prédios históricos de nossa famosa rua. As mensagens do WhatsApp começaram a surgir, amigos certificando-se de que todos que conheciam estavam vivos.

Mas meu amigo ainda não estava atendendo minhas ligações. Sua noiva estava me ligando, gritando em pânico. E não conseguíamos encontrar a gata.

Ironicamente, meu apartamento terrivelmente danificado se transformou em uma espécie de esconderijo temporário. Amigos e vizinhos se amontoavam lá dentro, enquanto tentávamos descobrir o que estava acontecendo e onde todos estavam. Pedimos a todos que gritassem o nome de Sunday. Era realmente insano procurar uma gata quando as pessoas estavam morrendo. Mas eu não estava me sentindo racional.

No final, meu amigo e a gato vieram à tona ao mesmo tempo.

A Sunday estava escondida atrás de um pedaço de aço que nossos vizinhos tinham usado para cobrir a porta no andar de baixo. Ela tremeu incontrolavelmente por horas, mas não se machucou fisicamente, pelo que podíamos ver. Outro amigo viu nosso amigo desaparecido na TV, confirmando que ele estava vivo. Ele estava em choque e severamente abalado, mas não estava morto.

Passamos a noite trabalhando e olhando para a rua pelas minhas janelas estouradas, enquanto as pessoas carregavam corpos - feridos e mortos - em carros aleatórios. Voluntários e paramédicos estavam vasculhando as ruas até altas horas da noite, acendendo luzes azuis e pedindo que sobreviventes enviassem sinais se estivessem presos nos escombros.

Às três da manhã, todos haviam fugido da área e acho que éramos os únicos que restavam. A rua estava envolta em trevas, exceto por uma vela piscando na varanda do meu vizinho. Era como se alguém a tivesse deixado para deixar outra pessoa mais calma. Isso me manteve sã por horas.

Começaram a surgir avisos de que o ar podia ser tóxico, por isso decidimos ir para uma casa na encosta da montanha nos arredores de Beirute no meio da noite. A gaiola de Sunday desapareceu na explosão, então a colocamos em um refrigerador. A gata geralmente abrasiva acabou tremendo no meu colo o tempo todo, agarrando meu ombro, o rosto repousando no meu braço enquanto ela observava uma Beirute silenciosa e destruída pela janela. Nós podíamos ouvir o vidro triturando implacavelmente debaixo de nós. Outras vezes, sentimos os pequenos fragmentos da janela traseira quebrada voarem em nossos pescoços e o som de lajes de concreto deslizando no telhado.

Fiquei nas montanhas até a manhã de quarta-feira, quando peguei um táxi de volta à cidade. Apesar do fechamento das ruas, eu me forcei a voltar para o meu bairro e tomei o caminho para o meu apartamento. O prédio ao lado estava prestes a desabar. A defesa civil e a polícia nos disseram que nosso prédio cairá em breve.

Quando cheguei ao hotel à tarde, percebi que esta quarta-feira marcou o aniversário de 10 anos da minha saída da Síria para os Estados Unidos. Quando a Síria se tornou perigosa demais para retornar, Beirute, a uma curta viagem de distância de minha cidade natal, Damasco, tornou-se um segundo lar. É o único lugar para o qual tenho que voltar desde 2015. E agora não sei mais se tenho um apartamento. Um amigo com quem eu estudei no ensino médio em Damasco me enviou uma mensagem de texto: "Você não pode ter sobrevivido à Síria para morrer em Beirute, as leis da física não permitirão isso".

Mas comecei realmente a sentir o trauma coletivo de Beirute quando entrei no meu apartamento destruído. Naquele momento, soube que não saberia se voltaria a ver meu lar. "Quais livros você quer levar?" um membro da defesa civil que subiu comigo perguntou.

Olhei para os meus 400 livros, a maioria deles alinhados em frente a um grande espelho personalizado de Istambul. Outra pilha estava junto à minha cadeira amarela favorita. Estes são os primeiros itens de mobiliário que já tive. Joguei alguns dos meus livros favoritos na mala: Revenge of the Lawn, de Richard Brautigan, um livro sobre polvos, o romance Milkman, de Anna Burns.

Mas estas são todas coisas. Sunday é apenas uma gata. Os libaneses perderam entes queridos, muitos vendo-os morrer na frente deles.

Carreguei minha mala e algumas sacolas cheias de não sei o quê, desci as escadas e me senti ficando desamarrada, como se eu pudesse simplesmente flutuar sem ter para onde ir.

 

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