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''Não ser prioridade dos EUA é uma vantagem''

Diplomata fala sobre o impacto da eleição de Barack Obama na relação bilateral entre Brasil e EUA

Entrevista com

O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

O governo de Barack Obama não será um retrocesso para o Brasil. Essa é a opinião de Antonio de Aguiar Patriota, embaixador do Brasil em Washington desde fevereiro de 2007. Ele acha que haverá maior afinidade com Obama em questões multilaterais, como aquecimento global e segurança, e não acredita em um maior protecionismo dos democratas. A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado.Fala-se muito que Lula tinha uma boa relação com o presidente George W. Bush. É possível manter esse bom relacionamento com Obama?Havia uma empatia entre Lula e Bush, apesar de eles terem biografias diferentes e representarem segmentos do espectro político diferentes. Entre Obama e Lula, pode-se antecipar uma afinidade mais espontânea, menos surpreendente. Vários elementos apontam para isso: "a esperança venceu o medo" foi o slogan de ambas as campanhas. Há o inusitado de um operário chegar à presidência no Brasil e de um negro chegar à presidência dos EUA. As duas eleições evocam a mesma superação de preconceito. Há também a ênfase dos dois governos nos segmentos menos favorecidos da sociedade. O que muda na relação bilateral?Onde pode haver intensa maior afinidade é no tratamento multilateral de temas que interessam a toda comunidade internacional, como mudança climática. O governo Bush foi muito refratário a Kyoto. Outro exemplo são assuntos de paz e segurança. O governo Bush será lembrado, sobretudo seu primeiro mandato, por doutrinas que pregavam a "ação preventiva". Esperamos com Obama um maior respeito pelo direito internacional.Com relação a eliminação da tarifa sobre o etanol, o que podemos esperar de Obama?O atual governo era um aliado, mas isso não se traduziu na eliminação da tarifa por causa do Congresso. Então, seria errado pensar que agora, com um democrata, que não foi tão flexível quanto os republicanos nesse tema durante a campanha, haverá uma mudança.O senador Obama tem flexibilizado o apoio ao etanol de milho...Continuaremos tendo aliados importantes, inclusive um muito próximo de Obama, que é o senador Richard Lugar. E também vejo uma tendência de firmas americanas de grande porte, como a ADM, que investe em etanol de milho, se interessarem pelo álcool de cana-de-açúcar do Brasil. O senhor teme um aumento de medidas protecionista?Durante a campanha, os democratas se distanciaram dos acordos de livre comércio negociados por Bush. Obama vai assumir em meio à mais grave crise econômica desde os anos 30. Esse será o assunto prioritário dele. Mas acho que nesse contexto, a conclusão da Rodada Doha aparece como uma luz no fim do túnel.O senhor não acha que justamente por ele estar enfrentando um enorme problema doméstico o comércio ficará em segundo plano?Eu acho que ele vai encarar o comércio na dimensão multilateral com uma predisposição positiva. Na reunião do G-20 houve um chamado de resistência ao protecionismo.Mas temos visto sinais de protecionismo mesmo após o comunicado do G-20, a Índia pretende adotar uma tarifa de importação de aço, a Argentina está pressionando para elevar a TEC de vários produtos...Olha, tudo isso está dentro das regras da OMC. Não é nada que invalide o compromisso do G20. É claro que, se houver proliferação dessas medidas, ficaremos preocupados.Os EUA estão mergulhados em uma crise econômica sem precedentes. Como isso afeta a relação com o Brasil?Um aspecto positivo foi a convocação de uma cúpula com os países emergentes. Essa cúpula talvez fosse difícil em um cenário sem crise internacional. O negativo são as pressões protecionistas que poderão surgir internamente, e os EUA não serão os únicos. Mas sabendo que o protecionismo piorou os problemas na Crise de 29, acho que eles não vão incorrer nesse erro.A relação com a América Latina muda?Não ser prioridade dos EUA é uma vantagem. Precisamos interpretar isso da maneira adequada. A América do Sul é uma região onde todos os governos foram eleitos de forma democrática, onde tensões são resolvidas pelo diálogo, não há terrorismo, não há guerra.

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