Angelos Tzortzinis/AFP
Angelos Tzortzinis/AFP

‘Não somos animais, precisamos de ajuda’, dizem imigrantes que vagam por Lesbos após incêndio

Sobreviventes de Moria torcem desesperadamente por abrigo na Europa

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2020 | 03h00

Alguns fazem chá, outros tentam dormir entre o calor e o cansaço de passar uma semana ao ar livre, mas todos se perguntam por que são tratados "como animais". Na ilha grega de Lesbos, os migrantes que conseguiram escapar do incêndio do acampamento de Moria torcem desesperadamente para que a Europa abra suas portas.

Ange, 23, chegou da República Democrática do Congo há quase um ano. Engenheiro mecânico em seu país, ele agora sobrevive no acostamento de uma das estradas onde os migrantes vivem mal há uma semana.

Nas proximidades, é possível ver algumas barracas instaladas no estacionamento de um supermercado ou em um posto de gasolina. Dezenas de crianças jogam bola e algumas até se aproximam do mar.

“Estamos no século 21! Os supermercados estão fechados, não há banheiros... Como tratam as pessoas?”, pergunta Ange, olhando em volta. "Não somos animais. Como vamos viver aqui?"

Na área, não há banheiros, não há água, apenas algumas distribuições de alimentos e uma clínica temporária montada pela organização Médicos Sem Fronteiras, algumas medidas de emergência após a remoção das 12,7 mil pessoas que viviam oficialmente no acampamento insalubre de Moria antes do incêndio.

“Precisamos da Europa para nos ajudar a sair daqui”, implora Ange. "Desde terça-feira, vivemos assim. Se fossem seus filhos, você aceitaria essas condições?"

Um novo campo, ainda em construção, deve hospedar temporariamente milhares de sobreviventes de Moria. Até agora, apenas mil pessoas se estabeleceram nele.

As tendas foram construídas umas contra as outras, graças às tropas militares que vieram reforçar o local.

"Abra as portas"

Quase totalmente fechado à imprensa, o novo acampamento fica a poucos metros do mar, num terreno arenoso e por vezes acidentado. Essa situação se agrava ainda mais, agora que as chuvas de outono estão chegando.

“Só se vierem ao acampamento serão cumpridos os trâmites para a saída de Lesbos”, pode ler-se, em várias línguas, nas placas de entrada das novas instalações.

Apesar dessas advertências e promessas de continuar examinando os pedidos de asilo, poucas famílias aparecem na entrada do complexo.

Não há "acomodação decente, sem comida, sem água", resume Simine Ahmadi, 22, que chegou do Afeganistão com sua família há um ano. “Todo mundo quer ficar aqui”, na estrada, e “ninguém quer ir para o novo acampamento”, diz a mulher.

Ao lado dela, em uma tenda improvisada onde oito pessoas se amontoam, Samira, 21, explode de raiva contra a comunidade internacional, Grécia e Europa. E então começa a chorar.

"Por favor", implora aos países europeus, "abram as portas." "Somos seres humanos, não somos animais." As crianças “são muito, muito importantes para o futuro. Por favor, ajude-as”, diz.

Um pouco mais adiante, está Vany Bikembo, de 25 anos, que deixou Kinshasa há um ano. Desde o incêndio, há uma semana, "nada aconteceu. Não há água, não há comida... absolutamente nada. O governo grego nos deixou aqui", reclama. “Eu sou um ser humano, tenho direito de trabalhar, tenho direito de fazer alguma coisa".

Vany quer sair de Lesbos. Porque estas novas instalações são "um segundo inferno", depois da de Moria. Ele prefere esperar ao ar livre, na estrada, que a Europa abra suas portas.

Até o momento, apenas o governo alemão, pressionado pela opinião pública, anunciou que acolheria 1.500 desses migrantes. /AFP

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