Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

‘Não sou fascista, sou protecionista’

Nos Alpes franceses, voto de carpinteiro ajuda a explicar ascensão da extrema direita

Jamil Chade, Enviado Especial / Saint Paul En Chablais, França, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

SAINT PAUL EN CHABLAIS, FRANÇA - No caminho das montanhas que dão acesso aos Alpes franceses, pequenos vilarejos rurais não contam com mesquitas. Nenhum muçulmano praticante circula pelas cidades, repletas de chalés de madeira e ainda com a torre das igrejas como principal marco. 

Mulheres de burca fazem parte apenas da imaginação e homens com longas barbas aparecem apenas nas capas dos jornais. O desemprego não passa de 5% e cartazes alertam aos motoristas para circular lentamente para não estressar as centenas de vacas da região. 

As urnas revelaram que a população da região de Chablais, no Departamento de Haute Savoie, e seu conjunto de vilarejos votaram amplamente em Marine Le Pen no primeiro turno. A região foi uma das mais fiéis à Frente Nacional, sendo um exemplo de como 7,7 milhões de franceses optaram pela extrema direita. Ainda que as pesquisas indiquem que a candidata não deva ser eleita, ela pode terminar a eleição com mais de 10 milhões de votos. 

Cientistas políticos tentam entender o que fez com que essa massa de cidadãos seja seduzida por uma campanha contra instituições, estrangeiros e a Europa.

Em localidades rurais como Vacheresse ou Bonnevaux, Le Pen obteve quase 30% dos votos, resultados parecidos nos demais vilarejos, como Saint Paul en Chablais com 2,2 mil habitantes. Eleitores, militantes e vereadores de extrema direita garantem que, apesar da distância com as grandes cidades francesas, a população se sente “insegura”. Por isso, optaram por Le Pen. 

Gabriel Portmann, carpinteiro, explica que seu voto por Le Pen foi para garantir que seus filhos não sejam ameaçados. “Todos os países têm fronteiras e as controlam. E nós?”, questionou. “Sou muito ligado ao meu país. Temos liberdade e todos os direitos. Não sou fascista, como a imprensa diz, sou protecionista. Não temos problemas com os estrangeiros. Mas eles precisam se integrar. Se optam por viver na França, precisam viver como se vive na França.” 

Apesar de seu vilarejo não ter nenhum refugiado, Portmann diz que se “sente ameaçado” e teme um atentado. Seu sentimento de ameaça vem acompanhando por outra preocupação: a concorrência de trabalhadores do Leste Europeu que, segundo ele, cobram salários mais baixos para trabalhar nas obras de fazendas e chalés da região. Ele afirma que empresas da região têm optado por dar trabalho para poloneses e outras nacionalidades para reduzir custos. “Temos 6 milhões de desempregados na França. Não faz sentido”, disse, sugerindo que todos seus funcionários são locais. “Houve uma abertura ao mundo que ocorreu de forma muito rápida, sem nos proteger”, disse.

Sua sugestão é simples: fechar as fronteiras para a concorrência e os imigrantes que representem ameaça. Durante a conversa, ele admitiu que sua empresa presta serviços também na Suíça, onde a fronteira praticamente desapareceu nos últimos dez anos graças aos acordos de Schengen. Para ele, porém, a volta dos controles não o afetará. 

Um argumento parecido de que continuariam a ter acesso ao mercado europeu foi usado na votação do Brexit por grupos que faziam campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia. Hoje, os europeus insistem que o Reino Unido não poderá ter apenas os benefícios de sair do bloco, mantendo seu acesso ao mercado da UE.

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