Nadia Shira Cohen/The New York Times
Nadia Shira Cohen/The New York Times

Cidade japonesa com população envelhecida tem mais bonecos que crianças

Os cerca de 350 bonecos na cidade de Nagoro, feitos por Tsukimi Ayano e suas amigas, superam os residentes humanos em mais de 10 para 1

Motoko Rich / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2019 | 17h58

NAGORO, JAPÃO - As últimas crianças da remota vila montanhosa de Nagoro nasceram dezoito anos atrás. Agora pouco mais de duas dúzias de adultos vivem neste ponto isolado, à beira de um rio na ilha japonesa de Shikoku. A escola primária fechou as portas em 2012, logo depois que os dois últimos alunos completaram a sexta série.

Mas, em um recente domingo de outono, Tsukimi Ayano trouxe a escola de volta à vida. Acontece que ela fez isso com bonecos, não com humanos.

Ayano, de 70 anos, havia arrumado mais de 40 bonecos artesanais em uma cena muito realista dentro da escola fechada. Recriando um dia escolar de festividades esportivas conhecido como undokai, item básico do calendário japonês, ela colocara bonecos do tamanho de crianças em posição de corrida, empoleirados no balanço ou jogando bola.

“Nunca mais vimos crianças aqui”, disse Ayano, que nasceu em Nagoro e nos últimos sete anos vem realizando o festival anual de bonecas. “Queria que tivéssemos mais crianças, porque assim seríamos mais alegres”, disse ela. “Então eu mesma fiz as crianças.”

A população do Japão está encolhendo e envelhecendo, e a tendência é sentida com mais intensidade nas regiões rurais, onde a baixa taxa de natalidade é exacerbada pela diminuição das oportunidades de emprego e pela vida difícil.

“Aqui não há chance para os jovens”, disse Ayano, que se lembra de quando a vila tinha uma clínica médica, uma sala de jogos pachinko e uma lanchonete. Agora, Nagoro não tem nenhuma loja. “Eles não têm como ganhar a vida.”

Os cerca de 350 bonecos feitos por Ayano e suas amigas superam os residentes humanos em mais de 10 para 1. Ela espalhou os bonecos - feitos de madeira e armações de arame, recheados com jornais e vestidos com roupas velhas doadas de todo o Japão - por toda a Nagoro, em várias cenas que evocam as pessoas reais que povoaram a vila no passado.

Uma senhora se curva diante de um túmulo na estrada, enquanto outra aguarda em uma cadeira de rodas. Trabalhadores da construção civil fumam cigarros no intervalo do serviço, enquanto outros esperam no ponto de ônibus. Um pai puxa uma carroça cheia de crianças. Um rapaz levado pega castanhas de uma árvore.

Dentro da escola, os bonecos perambulam pelas escadas ou prestam atenção aos professores e suas aulas eternas. Ayano tem um toque brincalhão, dá a muitos de seus bonecos uma expressão travessa. O efeito geral de uma cidade dominada por bonecos não é tão assustador quanto pode parecer.

“Não acho esquisito”, disse Fanny Raynaud, de 38 anos, enfermeira francesa que viaja pelo Japão de motocicleta com o marido, Chris Monnon, de 55 anos. Eles pararam em Nagoro depois de ler sobre os bonecos em um blog de viagens.

“Acho que é uma maneira muito bonita de reviver a vila”, disse Raynaud.

Outro visitante rabiscou uma mensagem mais incisiva na lousa de uma das salas de aula da escola: “Onde estão os vivos?”.

Nagoro, que fica no que é conhecido como Vale Iya, cercada por vastas encostas cobertas por cedros, nunca foi um lugar movimentado. Mesmo quando Ayano era criança, a população era de apenas 300 pessoas. Shikoku é de longe a menor e menos povoada das quatro principais ilhas do Japão.

Durante as décadas de 1950 e 1960, a região foi tomada pela silvicultura e pela construção de estradas e barragens para usinas hidrelétricas.

Depois que as barragens foram construídas, muitas pessoas foram embora. As que ficaram operam suas próprias bombas para trazer água para suas lavouras.

Para chegar ao supermercado ou ao hospital mais próximo, os residentes de Nagoro têm de dirigir uma hora e meia por estradas estreitas e sinuosas.

“Você precisa gostar muito de viver nas montanhas”, disse Tatsuya Matsuura, que aos 38 anos é o morador mais jovem de Nagoro. “Acho que muitas pessoas teriam problemas para morar aqui”.

Matsuura faz parte da terceira geração de sua família à frente de uma hospedaria para os turistas que fazem as trilhas do Monte Tsurugi, a cerca de 10 quilômetros de Nagoro. Três anos atrás, quando os negócios minguaram, a família fechou uma loja e uma pousada em Nagoro.

“Se continuarmos no caminho que estamos trilhando nos últimos dez ou vinte anos, as áreas rurais continuarão encolhendo e as pessoas continuarão se concentrando nas cidades”, disse Hiroya Masuda, professor da Universidade de Tóquio e ex-governador de Iwate, no norte do Japão. “Muitas comunidades acabarão desaparecendo.”

Nagoro é uma das muitas aldeias que ficam em uma área municipal onde mais de 40% dos residentes têm 65 anos ou mais. Mesmo com subsídios para cuidados infantis, descontos para despesas médicas e apoio à moradia, a área não vem conseguindo atrair novos residentes, nem segurar os adultos que nasceram na região.

Filha mais velha de quatro irmãos, Ayano se mudou de Nagoro aos 12 anos, quando seu pai conseguiu emprego em uma empresa de alimentos em Osaka, a terceira maior cidade do Japão. Lá conheceu e se casou com o marido. Juntos tiveram dois filhos.

Depois de se aposentar, seu pai voltou a Nagoro, para cuidar do sogro doente e de sua esposa, que sofria de insuficiência renal. Dezesseis anos atrás, Ayano voltou à aldeia para cuidar de seu pai, então com 90 anos, o morador mais velho de Nagoro.

No campo em frente à casa deles, ela plantou algumas sementes de rabanete e ervilha. Os pássaros comeram tudo, então ela fez um espantalho, modelando-o à semelhança de seu pai.

“Parecia alguém de verdade, não um espantalho convencional”, disse Ayano. “É por isso que realmente funcionou.” Ela acrescentou três ou quatro bonecas que arrancavam ervas daninhas do campo, mais algumas outras junto à estrada.

Os viajantes que passavam por lá começaram a pedir informações aos bonecos. Ayano achou tanta graça que passou a fabricá-los em período integral.

Agora ela de vez em quando dá aulas de fabricação de bonecos em uma cidade próxima ou para visitantes de seu estúdio, instalado na antiga escola maternal da vila.

Um dia antes do festival esportivo recriado na velha escola, Ayano montou várias cenas com a ajuda de um grupo de voluntários, além de alguns outros moradores e de sua irmã e cunhado, que vieram de Kyushu, no sul do país.

Até escurecer, Ayano costurou meticulosamente braços, cabelos e roupas. Como choveu durante a noite, ela acordou antes do amanhecer para renovar seu trabalho.

Na abertura do festival, o sol apareceu. Os moradores montaram barracas de comida, servindo noodles, batatas fritas e bolinhos de polvo.

Osamu Tsuzuki, de 73 anos, proprietário de uma empresa de construção local, fez o discurso de boas-vindas, “em nome da equipe, dos moradores e de mais de trezentos bonecos”, disse ele. “Estávamos todos esperando vocês.”

Algumas crianças vieram de cidades vizinhas ou para visitar os avós.

Para uma brincadeira de cabo de guerra, as pessoas se juntaram a bonecas cujas mãos Ayano costurara na corda. Como não havia crianças humanas suficientes, os competidores octogenários deram tudo de si. Na pista de corrida, Hiroyuki Yamamoto, de 82 anos, morador de uma casa de repouso na montanha, acariciou a bochecha da boneca que ocupava uma das raias.

“Ela é tão fofa. Eu queria falar com ela”, disse Yamamoto, trabalhador de manutenção de estradas aposentado.

Kayoko Motokawa, de 67 anos, avó de uma criança que, por sua vez, mais parecia uma boneca, disse que era triste que Nagoro agora fosse mais conhecida por seus bonecos do que por seu povo.

“Se fossem humanos de verdade, este seria um lugar feliz de verdade”, disse Motokawa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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