Abir Sultan / EFE
Abir Sultan / EFE

Não tementes ao vírus

Em Israel, ultraortodoxos ignoram medidas de restrição e têm maior número de mortos

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 03h00

Há pessoas mais intolerantes do que Trump ou Bolsonaro. São aquelas que, em Israel, encontramos em alguns bairros de Tel-Aviv ou Jerusalém, e em algumas cidades pequenas. Em Paris, elas se concentram nos distritos 19 e 20 e pertencem à comunidade ultraortodoxa dos haredim, o que significa “aqueles que temem a Deus”. Mas não o coronavírus.

E eles são numerosos e poderosos, pois Yaakov Litzman, presidente da sua agremiação política, Agudat Yisrael, comanda o Ministério da Saúde israelense. Litzman, de 72 anos, com seu chapéu e vestimenta negros e barba branca, parece ter saído de uma sinagoga do século 15. Ele não só não possui nenhum estudo de medicina, como também não toma nenhuma decisão sobre a saúde antes de consultar o mais venerável dos rabinos, que parece receber as ordens do Alto.

Litzman é minucioso em matéria de religião. Como ministro da Saúde, já pediu demissão várias vezes. Em 2017, ele se demitiu porque os operários que trabalhavam na manutenção ferroviária não respeitavam o dia do shabat. Este ano, com o surgimento do coronavírus, sua recusa em atender às regras ditadas pelo governo para reduzir a epidemia provocou revolta, até entre os haredim, aterrorizados com o perigo. 

Além disso, o que se fala, sem provas concretas, é que o ministro foi visto na sinagoga onde estaria confinado. Aos ataques, ele respondeu: “Esperamos que o Messias chegue antes da Páscoa, que neste ano será em 8 de abril. Ele virá nos salvar, como Deus nos salvou no êxodo do Egito”.

A população de Israel, uma das mais evoluídas e modernas do mundo, está cada vez mais furiosa com a obstinação do ministro da Saúde: os professores mais reconhecidos do campo da medicina, aterrorizados com as posições adotadas pelo ministro, exigem que suas ordens não sejam acatadas. 

É verdade que, mesmo se desejassem, os “tementes” não podem se inclinar às ordens do poder. É certo que, a separação de homens e mulheres não seria um problema, uma vez que a crença já estabelece essa separação – as mulheres ocupando espaços subalternos, geralmente exíguos, no fundo das sinagogas. Não existe ar-condicionado, proibido como todas as invenções modernas. Nada de internet e nenhum outro jornal além do seu.

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Eles conseguiram impedir que seus jovens fossem obrigados a prestar o serviço militar, não só por causa dos seus deveres religiosos, na sinagoga, mas também porque o Exército seria uns instituição do poder e eles o ignoram. Durante a crise atual foram distribuídas refeições quentes pelos soldados. As crianças haredim, que jamais ouviram falar do Exército, ficaram atônitas ao verem os soldados.

O incompreensível é que essa comunidade tem um poder político e um ministro pelo menos. O fato é que eles são numerosos (cerca de 20% da população), mas imagino que seja impossível fazer um recenseamento, pois sem dúvida isso é proibido pelos rabinos. O ministro da Saúde conseguiu resistir às críticas e conservar seu feudo, embora nem o Messias, nem mesmo Deus, tenham se manifestado na Páscoa, apesar do discurso tranquilizador de Litzman.

Israel adotou as recomendações sanitárias de modo exemplar, registrando um pequeno número de mortes pelo coronavírus. Em compensação, nos bairros de grande densidade populacional dos ultraortodoxos, a taxa de mortalidade é enorme. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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