REUTERS/Ammar Abdullah
REUTERS/Ammar Abdullah

'Não tivemos tempo para cuidar de todos os feridos', diz testemunha de ataque químico na Síria

Presidente do Conselho Local de Khan Shikhoun, na Província de Idlib, conta detalhes dos momentos de terror após bombardeio que deixou dezenas de mortos e feridos

O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 12h13

DAMASCO - "O que mais me comoveu foi a visão dos feridos nas ruas e dos asfixiados em suas casas enquanto dormiam", disse nesta quarta-feira, 5, Osama al-Siada, testemunha do ataque químico do dia anterior na cidade síria de Khan Shikhoun.

Siada, que é presidente do opositor Conselho Local da cidade, despertou na terça-feira com o som dos bombardeios que ocorreram a cerca de 700 metros de sua casa. "Nos dirigimos ao local com máscaras normais, nos aproximamos pouco a pouco com o temor de ficarmos feridos e preparamos água para espalhar pelo lugar e salpicar nos feridos", narrou em uma conversa pela internet.

"Infelizmente, não houve tempo suficiente para que as equipes da Defesa Civil e as ambulâncias pudessem cuidar de todos os feridos e isto resultou na morte de muitos", lamentou. Siada afirmou que pela região se espalhou um cheiro difícil de descrever. "Era bem difícil respirar e tossíamos", detalhou.

Ao chegar ao local, Siada conta que ficou consternado quando comprovou que entre os afetados pela asfixia e feridos pelo ataque havia pessoal da área da saúde. Os feridos, lembrou, apresentavam paralisias corporal, dificuldade para respirar, espumavam pela boca, tossiam e tremiam. "Minhas forças desapareceram, sentia que seríamos incapazes de salvar suas vidas", lamentou.

Perante a escassez de ambulâncias e de pessoal médico, muitos moradores levaram os feridos em seus próprios veículos a hospitais e centros médicos fora de Khan Shikhoun.

Nesse sentido, Siada destacou que pouco depois do bombardeio, pelo qual acusou aviões governamentais, houve um ataque aéreo de aparatos russos que teve como alvo o único hospital da cidade, que ficou fora de serviço.

"Khan Shikhoun hoje em dia é uma cidade sem hospital, onde não há remédios, não se pode tratar ninguém. O centro hospitalar mais próximo está a 25 quilômetros", disse. Segundo Siada, todos os afetados pelo ataque químico foram levados para fora da cidade para receber tratamento.

Siada explicou que havia grande número de menores entre os mortos e feridos porque o bombardeio teve como alvo zonas residenciais, onde havia muitos deslocados procedentes de outras áreas De acordo com os dados do presidente do Conselho Local, Khan Shikhoun conta com 75 mil habitantes, dos quais 12.490 são deslocados de outros lugares.

Ele afirmou que nenhuma facção controla a cidade e não há nenhum quartel de grupos armados em seu interior, mas que "na zona está presente de forma geral a organização de Libertação do Levante (ex-filial síria da Al-Qaeda) e o Exército da Honra".

De acordo com a última apuração do Observatório Sírio de Direitos Humanos, pelo menos 72 pessoas, entre elas 20 menores e 17 mulheres, perderam a vida no bombardeio, pelo qual o governo sírio e a oposição se acusaram mutuamente. / EFE

Mais conteúdo sobre:
Defesa CivilSíriaArma Química

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.