Nicholas Kamm/AFP
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'Não vamos deixar as pessoas passarem fome', diz Biden ao assinar ordens para recuperação econômica

Presidente americano quer acelerar entrega de cheques de estímulo e expandir vale-refeição enquanto pressiona por aprovação de pacote de US$ 1,9 trilhão no Congresso; democrata estima em 600 mil mortos pela pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 18h45

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assinou nesta sexta-feira, 22, duas ordens executivas para fornecer ajuda financeira a famílias carentes e aumentar os salários de trabalhadores federais, em um esforço para ajudar na recuperação econômica do país em meio à crise causada pelo coronavírus. O presidente estimou que a pandemia matará mais de 600 mil pessoas no país.

"Estamos com 400 mil mortos, espera-se que cheguemos a muito mais de 600 mil", disse o presidente, que nunca havia mencionado um número tão alto. "A crise está apenas se aprofundando", disse Biden, chamando a ajuda aos desempregados e incapazes de pagar por comida de "imperativo econômico". "Temos as ferramentas para ajudar as pessoas. Então, vamos usar as ferramentas. Todas elas. Agora", declarou.

Com a assinatura, Biden pretende dar algum alívio econômico aos americanos enquanto o Congresso negocia o destino do pacote de estímulo de US$ 1,9 trilhão proposto em janeiro deste ano. Durante sua fala, ele apelou mais uma vez pela aprovação, afirmando que a economia estaria pior se os EUA não tivessem tomado medidas anteriores. 

“Há um consenso econômico crescente de que devemos agir com decisão e ousadia”, disse ele. “Isso não pode ser o que somos como país. Não podemos, não vamos deixar as pessoas passarem fome. Não podemos ver as pessoas perderem seus empregos e temos de agir", afirmou.

Na primeira ordem executiva desta sexta-feira, Biden pede ao Departamento do Tesouro que considere a adoção de medidas para expandir e melhorar a entrega dos cheques de estímulo, como o estabelecimento de ferramentas online para solicitar pagamentos. A proposta inclui a entrega de cheques nos valores de US$ 600 e US$ 1.200 aprovados no ano passado para até 8 milhões de pessoas qualificadas que ainda não receberam o benefício. 

A ordem também aumentará o valor dos benefícios do Programa de Assistência à Nutrição Suplementar, comumente conhecidos como vale-refeição, que visam fornecer dinheiro a famílias que dependiam da alimentação fornecida nas escolas para alimentar seus filhos. A expansão equivaleria a US$ 100 extras a cada dois meses para uma família de três pessoas. O aumento semanal seria destinado a cerca de 12 milhões de famílias que mais dependem do programa, de acordo com estimativas da Casa Branca.

A segunda ordem executiva pretende desfazer algumas das ordens de Trump relativas à força de trabalho federal, incluindo uma que deu aos presidentes mais liberdade para contratar e demitir trabalhadores e outras que limitaram alguns direitos de negociação para os funcionários. O documento orientará que as agências federais promovam um salário mínimo de US$ 15 por hora para seus trabalhadores. O salário mínimo federal está em US$ 7,25 a hora desde 2009.

“O povo americano (...) precisa de ajuda agora”, disse o diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Brian Deese, em entrevista à imprensa. “Estamos em um momento precário para o vírus e para a economia. Sem ações decisivas, corremos o risco de cair em um buraco econômico muito sério, ainda mais grave do que a crise em que nos encontramos”, afirmou.

De acordo com Deese, atualmente cerca de 16 milhões de pessoas recebem algum tipo de seguro-desemprego e cerca de 29 milhões não têm o suficiente para comer. Mulheres, minorias e trabalhadores de serviços de baixa renda foram afetados de forma desproporcional, com os trabalhadores negros e hispânicos enfrentando taxas de desemprego mais altas do que os trabalhadores brancos.

Pressão

Em sua defesa contundente do pascote fiscal, Biden afirmou que o auxílio pode tirar 12 milhões de americanos da pobreza e criar 7,5 milhões de empregos apenas neste ano. O democrata atribuiu as previsões à agência de classificação de risco Moody's.

"Sem o pacote, haverá uma onda de despejos e execuções hipotecárias nos próximos meses", afirmou. "Os atuais cheques de US$ 600 simplesmente não são suficientes."

Em um teste inicial para saber se os republicanos poderiam apoiar os planos do democrata, a Comissão de Finanças do Senado dos EUA votou por unanimidade na sexta-feira para aprovar Janet Yellen, a escolha de Biden para Secretária do Tesouro, abrindo caminho para sua confirmação pelo plenário.

Os legisladores republicanos questionaram, no entanto, os custos da ajuda relacionada à pandemia e a proposta separada de investimento de US$ 2 trilhões de Biden para infraestrutura, projetos de energia verde, educação e pesquisa.

Para além de discordâncias sobre o destino das verbas, alguns parlamentares, incluindo da base do governo, mostram desconforto com o pacote de Biden pelo seu impacto sobre a dívida pública americana. Como mostrou o Estadão/Broadcast em reportagem especial, a relação dívida/PIB já supera os 130% nos EUA e, se mantiver trajetória ascendente, poder gerar dificuldades no financiamento público.

Na coletiva de imprensa desta tarde, Biden minimizou a questão. "Precisamos agir agora, a dívida pública vai se estabilizar no futuro", declarou. "Se agirmos agora, nossa economia ficará mais forte no curto e no longo prazo. É o que dizem economistas de esquerda, direita e centro", acrescentou.

Biden citou dados de auxílio-desemprego informados ontem para dimensionar a crise econômica. Segundo o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, 900 mil pessoas requisitaram o benefício no país. /NYT, REUTERS e AFP

 

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