‘Não vamos obrigar as mulheres a usar o véu’

Deputado do partido islâmico moderado no poder explica que a religião estabelece como fazer um bom governo

Lourival Sant’Anna, enviado especial a Rabat,

09 de novembro de 2013 | 05h00

RABAT - O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD) foi eleito para administrar o Marrocos, resolver seus problemas econômicos e sociais, não para obrigar as mulheres a usar o véu e os homens a deixar a barba crescer, ou para proibir bebidas alcoólicas. É o que afirma o deputado Khalid Elboukarai, secretário-geral da Juventude do PJD. Em entrevista ao Estado, no entanto, o deputado deixou clara a inspiração religiosa do partido: "Essa religião é para nós a que estabelece a justiça, e que vai pôr em prática o bom governo".

O que mudou com as reformas constitucionais?

Muitas coisas mudaram com a Constituição de 2011, sobretudo a independência de cada instituição em relação à monarquia. A separação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário é a mais importante mudança. A partir da Constituição de 2011, os partidos vencedores das eleições são por força de lei os que formam governo. Antes, o rei tinha a possibilidade de escolher o chefe de governo mesmo fora dos partidos, o que não era normal nem democrático.

Muitos dizem que o governo não tem poder real para governar.

É uma etapa transitória. Não podemos fazer essa transição de forma brusca. É preciso seguir as etapas, esperar. Temos certeza de que essa separação dos poderes não pode ser executada da noite para o dia. Hoje é o primeiro-ministro quem governa. Ele também é o responsável pela gestão dos órgãos públicos. O rei é o chefe de Estado e preside o gabinete ministerial. Mas o governo tem um programa, aprovado pelo Parlamento. O governo é responsável por executar esse programa.

Qual o papel da religião no governo do PJD?

O PJD é um partido político, que se encarregou da administração pública. Temos problemas econômicos, sociais e políticos. O PJD deixou bastante claro em sua plataforma que se propõe a fazer um bom governo, a gerir os problemas econômicos, sociais e políticos. Todos os marroquinos são muçulmanos. Por força da Constituição, o Islã é a religião do Estado. É a referência de todas as instituições. Não temos problema com relação a isso. Essa religião é para nós a que estabelece a justiça, que defende a igualdade entre todos os marroquinos, que vai reduzir a distância entre ricos e pobres, que luta contra a corrupção e que vai pôr em prática o bom governo. Não estamos aqui para obrigar as mulheres a se cobrir com o véu, ou os homens a deixar a barba, para se comportar de uma determinada forma, ou para suprimir as bebidas alcoólicas em todo o país, esse tipo de ação.

Alguns dizem que a situação econômica não mudou.

Herdamos uma situação econômica difícil. Estamos atravessando uma crise não só nacional mas mundial, que atingiu a maioria dos nossos parceiros. Em dois anos, não se pode resolver todos esses problemas. Sobretudo porque herdamos uma economia que não era bem conduzida. Estamos trabalhando para resolver os problemas. Para nós está evidente que alguns grupos lutam contra essas reformas, incluindo partidos políticos, que procuram impedir o bom governo. A crise das compensações (subsídios para combustíveis e produtos básicos, que sobrecarregam o orçamento), por exemplo, é um dos temas que nenhum governo tinha tido coragem de enfrentar. Já o atual governo colocou essa questão sobre a mesa no primeiro dia de seu mandato.

O que mudou com a recomposição do gabinete (saída do partido nacionalista Istiqlal e entrada da União Nacional dos Independentes, liberal)?

Infelizmente, entre as coisas que não pudemos por ora resolver é a falta de responsabilidade de alguns partidos, mesmo na situação crítica que estamos atravessando. O partido Istiqlal decidiu sair do governo sem apresentar argumentos. Estávamos começando as reformas e ele começou a fazer um tumulto dentro do governo para não deixar que as coisas avançassem. Ao sair, e deixar o governo em uma situação ruim, sem maioria, ele tentou provocar a troca do primeiro-ministro. O governo já havia anunciado as reformas, estabelecido sua estratégia e não o deixaram começar as reformas. Tínhamos duas opções: um remanejamento do gabinete, procurar um novo aliado e formar uma nova coalizão ou antecipar as eleições. Para o PJD seria bom antecipar as eleições, mas colocamos o interesse do país acima do partido, porque, com a crise econômica e a instabilidade na região, não era o momento de realizar eleições antecipadas. Foi uma grande mudança para nós, um ponto favorável para o chefe de governo o fato de ele ter conseguido refazer a coalizão.

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