Jan Grudniewski/Arquivo pessoal
Jan Grudniewski, 22, não vê futuro na Polônia Jan Grudniewski/Arquivo pessoal

'Não vejo meu futuro aqui': Sem esperanças, jovens poloneses e húngaros buscam emigrar

Mudanças em leis e fortalecimento de retórica anti-LGBT estão entre motivos citados para deixar o país de origem

Thaís Ferraz e Ilana Cardial, especial para o Estadão

12 de abril de 2021 | 10h00

Sem perspectiva de um futuro com aceitação e tolerância, jovens poloneses e húngaros planejam deixar seus países de origem. “Não vejo meu futuro na Polônia. Amo meu país, não me interprete mal, mas simplesmente não estou pronto e nunca estarei para morrer por isso ou passar minha vida na prisão”, diz Jan Grudniewski, 22, morador de Varsóvia, “Acredito que seja o que vem pela frente para quem é diferente aqui”. O recuo nos direitos para a comunidade LGBT e para as mulheres tem impulsionado esse desejo em parte da população.

Com a justificativa de defender a família e a infância, a direita ultraconservadora na Polônia tem colecionado ataques a pessoas LGBT nos últimos anos. O próprio presidente Andrzej Duda, no poder desde 2015 pelo Partido Lei e Justiça (PiS, na sigla em polonês), diz que a causa LGBT não é sobre pessoas, mas sobre uma “ideologia” perigosa. 

Em 11 de março, poucas horas antes do Parlamento Europeu anunciar a União Europeia como uma “zona de liberdade LGBTIQ”, o governo polonês anunciou uma nova lei pela qual a adoção de crianças por casais homossexuais seria proibida. Atualmente, ela já não é permitida, mas há uma brecha que admite a adoção individual, por apenas um dos pais. “Estamos preparando uma mudança pela qual (...) pessoas coabitando com uma pessoa do mesmo sexo não poderiam adotar uma criança. Assim, um casal homossexual não poderá fazer a adoção”, disse o vice-ministro da Justiça, Michal Wojcik. O argumento é “proteger as crianças”.

“O Partido Lei e Justiça, que na verdade não representa nenhuma dessas duas coisas, garante que nenhuma pessoa LGBT se sinta segura na Polônia”, afirma Grudniewski. “Eles insultam constantemente os LGBT na televisão polonesa ou no parlamento e incentivam atitudes homofóbicas, como as ‘zonas livres de LGBTs’ em grande parte do país”.

No ano passado, o estudante de Psicologia integrou um grupo de homens gays que processaram Kaja Godek, uma política ultraconservadora conhecida especialmente por sua atuação anti-aborto. Para um noticiário polonês, Kaja afirmou que pessoas gays querem ser elegíveis para adotar crianças “porque desejam molestá-las e estuprá-las”. Em sessão fechada por conta do coronavírus, em maio passado, a Corte rejeitou a acusação. “Nossos advogados ainda entrarão com recurso. É ridículo que o Tribunal tenha dito (como argumento) que não há evidências de que eu sou gay e que é impossível para qualquer pessoa ser gay”, diz Grudniewski. 

No cotidiano, o estudante já foi ofendido diversas vezes no centro de Varsóvia e quase foi espancado. “Mas acredito que todo homem gay na Polônia poderia te dizer isso”, pontua. Ainda assim, diferentemente de quando iniciou seu relacionamento, há três anos, agora se sente à vontade para demonstrações públicas de afeto. “Hoje não tenho medo de pegar na mão do meu namorado ou beijá-lo em público, então faço isso de vez em quando”, conta. 

A perspectiva de Grudniewski é a de um residente da capital, que tem o liberal Rafał Trzaskowski como prefeito. Durante a corrida eleitoral de 2020, Trzaskowski levou suas políticas pró-LGBT ao palanque, mas perdeu no segundo turno para Andrzej Duda. Para Grudniewski, as falas homofóbicas na campanha eleitoral de Duda e as situações de violência, como a que aconteceu durante a Parada do Orgulho LGBT em Bialystok em 2019, quando participantes foram atacados fisicamente, exemplificam o clima de hostilidade do país. “Sei que não vou morar na Polônia e isso é um fato para mim. Simplesmente não há opção. Está ficando muito perigoso”. 

Entre 2017 e 2019, a Escola de Economia e Ciência Política de Londres conduziu a pesquisa Queer #PolesinUK: identity, migration and social media (Poloneses LGBT no Reino Unido: identidade, migração e mídia social, em tradução livre). O levantamento, conduzido com 767 pessoas que haviam mudado da Polônia para o Reino Unido descobriu que a cada quatro entrevistados, um tinha questões ligadas à sua identidade de gênero ou orientação sexual entre as principais razões para deixar seu país.

Também moradora da capital polonesa, a estudante de Gestão de Música, Negócios e Artes Monika Bonkowska, 21, diz que precisa parar de ter medo. “Não quero correr da Polônia só porque não me sinto segura”, afirma. “É o meu país natal. Talvez não seja o melhor, mas é o meu, e quero ver um futuro melhor para todo corpo LGBTQ lá fora”.

Desde que o governo começou a atingir os LGBT com uma onda de ódio, tudo tem piorado, diz Monika. Ela já não se sente segura para usar acessórios com o símbolo do arco-íris ou alguma de suas camisetas de orgulho LGBT. 

Atacar pessoas pelo uso do arco-íris tem sido uma prática do movimento anti-gênero, de acordo com a professora Agnieszka Graff-Osser, do Centro de Estudos Americanos da Universidade de Varsóvia. “Há um caso bem famoso da Elżbieta Podleśna, que está sendo processada há um bom tempo por retratar a imagem da Virgem Maria com arco-íris. A estratégia legal que estão usando (na acusação) é afirmar que o arco-íris como um símbolo da comunidade LGBT é uma ofensa às sensibilidades religiosas”, diz. 

Agnieszka explica que a técnica se baseia em criar um ambiente discriminatório inverso, acusando as minorias de discriminarem. “Há vários casos como o da Elżbieta, não é o único, apenas o mais famoso. Basicamente, o argumento não é que ‘nós não queremos direitos LGBT’, mas sim que ‘nós, católicos poloneses, estamos sendo discriminados por pessoas LGBT que estão sendo agressivas e ofensivas em relação à religião’”, diz.

Para Monika, há um aspecto positivo: as causas LGBT e das mulheres deixaram as sombras. Com os protestos iniciados no ano passado contra a decisão de banir quase totalmente o aborto legal, que chegaram a reunir 430 mil pessoas em um único dia, a estudante percebeu que não está sozinha. Apesar disso, ela faz planos para emigrar. “Eu quero fazer uma mudança, mas um dia eu quero criar filhos com a minha esposa. Então, em algum lugar no futuro, eu não estarei na Polônia”, diz. “Não é um país para se criar filhos. As pessoas só querem fugir daqui”. 

A onda das mais recentes manifestações – pelos direitos LGBT em agosto de 2020 e das mulheres a partir de outubro – despertaram os mais jovens, que pareciam não se interessar pela política nos primeiros quatro anos do governo PiS, segundo a professora Agnieszka. O início foi o chamado “Black Protest Movement” de 2016, quando mulheres saíram às ruas vestidas de preto como forma de protesto à tentativa de restringir o aborto. “Aquele foi intergeracional, não dominado por jovens, mas você poderia finalmente ver alguns deles nas ruas”. 

“Desta vez são quase exclusivamente jovens protestando, majoritariamente estudantes do ensino médio e universidade”, diz a professora, “’E a razão pela qual são tão jovens é porque a lei é sobre sexualidade, é sobre seus corpos, mas também pela pandemia. Pessoas mais velhas estão apavoradas de irem para rua, por a doença ser muito mais perigosa para elas”. As manifestações contaram com danças, músicas e interferências artísticas – prática incomum em protestos políticos na Polônia. 

Na Hungria, a família com a qual sonha Renato V., 25, não parece possível. Com a aprovação de uma emenda parlamentar em dezembro de 2020, a Constituição húngara passou a definir família como “baseada no casamento e na relação pais-filhos. A mãe é uma mulher e o pai, um homem”, detalha o texto. Ainda que um dos parceiros se inscreva individualmente para a adoção legal, não é possível consegui-la. Mesmo pais solteiros devem solicitar autorização especial do governo. 

“Eles querem ter uma definição de família, mas família é sobre como você se sente. Não é sobre regras e leis”, diz Renato, que trabalha com agricultura e sustentabilidade em Budapeste. Ele e o namorado planejam se mudar da capital húngara, onde sequer se sentem à vontade para andar de mãos dadas. “Sei que em outros países ser gay não é uma grande questão. Mas aqui, as pessoas podem dizer coisas muito rudes e até partir para agressões físicas. Se você está de mãos dadas, dizem que é nojento e que fará com que as crianças sejam gays”, conta. 

Por conta do Fidesz, partido ultraconservador que está no poder, Renato diz não ter esperanças. A tristeza e a raiva marcam a decisão de sair da Hungria, onde ficam seus amigos e parentes. “Não é justo que eu tenha que deixar meu país por não ter os mesmos direitos de outras pessoas. Mas não tenho outra opção”, diz, “Não posso me casar e não posso adotar. (Emigrar) não é a melhor situação, mas temos que encontrar uma opção”. 

Na visão de Renato, a falta de conhecimento e informação é o que prejudica a Hungria. “As pessoas não sabem a diferença entre ser trans e ser gay, entre uma mulher trans e uma drag queen”, exemplifica. Os jovens, diz ele, são quem podem causar uma mudança no país. “Nossa geração é mais liberal, tolerante e solidária. Isso pode mudar muito, principalmente se as famílias criarem suas crianças para aceitar pessoas gays, porque elas não são diferentes. Eu estudo e trabalho -- a única diferença é que tenho um namorado”, afirma.

 

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