Narcotráfico impõe censura à imprensa mexicana

Com atentados, execuções e ameaças a jornalistas, cartéis assumem papel de editores; população recorre à internet para trocar informação sobre crimes

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL, NUEVO LAREDO, TAMAULIPAS, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h05

A rotina de decapitações, torturas e extorsões imposta pelo narcotráfico mexicano transformou lugares como Tamaulipas e Veracruz em referência mundial de violência capaz de ganhar as páginas de jornais de todo o mundo, exceto as dos locais. Nesses Estados - os dois onde mais se executam jornalistas no país - cartéis conseguem com atentados, execuções e ameaças decidir o que os mexicanos devem ou não saber.

Em Tamaulipas, que vive uma guerra aberta entre os cartéis de Sinaloa e Os Zetas pela rota de exportação de drogas para os EUA, três carros-bomba explodiram nos últimos 45 dias. O último, na terça-feira, matou dois guardas que protegiam o secretário de Segurança do Estado. Os episódios foram tratados com discrição no jornal El Mañana, de Nuevo Laredo, onde, diante da porta principal do prédio amarelo, uma chapa de metal enterrada na calçada e três câmeras indicam as razões da moderação.

Depois que uma bomba explodiu na frente da sede, há dois meses, não se publicam mais ações do narcotráfico. "Começamos a praticar a autocensura. Não noticiamos crimes em concreto, pois podem colocar em risco a vida dos jornalistas. Recorremos a análises sobre o tema. Não é a solução ideal. É resultado da ação de um grupo que quer comprometer a liberdade do país", diz Heriberto Cantu, diretor editorial do El Mañana.

Tamaulipas, Estado com mais de 500 mortes ligadas ao crime organizado por ano, teve 14 jornalistas executados desde 2000. Apenas em um Estado o cerco à liberdade de imprensa é mais forte.

Veracruz, no leste do país, terra do principal porto mexicano, teve 16 jornalistas assassinados desde 2000. Foram nove nos últimos 18 meses. Outros três estão desaparecidos e 10 fugiram do Estado. Embora em Veracruz o número de mortes relacionadas ao tráfico seja menor que em Tamaulipas - não ultrapassa 500 por ano -, houve crescimento de 573% nesse tipo de crime entre 2010 e 2011. Há bloqueios policiais permanentes no acesso à capital e tiroteios são frequentes assim que anoitece.

No dia 30 de junho, a página 5 do jornal Imagen de Veracruz trazia seis notícias. As cinco primeiras eram sobre acidentes de trânsito sem feridos, incluindo uma tragicômica, cujo título era "Vuela con la pizza", sobre um motoboy que colidira contra um carro quando ia entregar uma pizza. A sexta, e de menor tamanho, abordava a tentativa de assassinato do prefeito de Soconusco, cidade 5 mil habitantes. "Há uma inversão da hierarquia das informações por razões que não são editoriais", afirma Renato Consuegra, diretor da Fundação pela Liberdade de Expressão, ONG que registra assassinatos de jornalistas em cada região do México.

"As páginas policiais agora são ocupadas por acidentes de trânsito. O crime organizado decide o que deve sair e o que não deve. Às vezes, são eles que ligam para redação dizendo onde está um cadáver, sinal de que querem publicidade. Outras vezes, avisam os repórteres que o assunto deve ser abafado. Há jornalistas que passam a obedecer as ordens e acabam envolvidos no sistema, vítimas de chantagem", diz Claudia Guerrero Martinez, diretora do grupo de jornais Veraz, de Xalapa, capital do Estado.

"Como ninguém se atreve a publicar sobre o crime organizado, e eu me incluo nesse grupo, as pessoas buscam alternativas para se informar na internet. Pelo Twitter e pelo Facebook, alguém escreve 'tem um tiroteio na minha rua, cuidado'. As redes sociais viraram uma forma de troca de informação sobre a qual é mais difícil os traficantes agirem como editores", acrescenta Claudia.

Alternativa perigosa. Embora prático, o uso da internet para burlar a censura do crime organizado também está sujeito a controle. Em agosto do ano passado, os professores Gilberto Martínez Vera e Maruchi Bravo Pagola ficaram um mês presos depois que uma onda de rumores de sequestros de crianças se espalhou por Veracruz e eles foram acusados de terrorismo. Após ficar provado que repassaram as mensagens sem ter certeza dos fatos, foram libertados.

Parlamentares do Estado, entretanto, aproveitaram a situação para aprovar uma lei que considera "alteração da ordem" referências na internet a ações de criminosos que possam "causar pânico" na população.

O governador do Estado, Javier Duarte de Ochoa, investigado por envolvimento com o narcotráfico, pertence ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), do presidente eleito, Enrique Peña Nieto.

A proximidade de governadores do partido com narcotraficantes constrangeu Peña Nieto na reta final da campanha. Para desfazer desconfianças sobre a ligação do PRI e o crime organizado, suas primeiras palavras no dia seguinte à votação foram de que "não haveria trégua ao narcotráfico". Ele também prometeu defender a liberdade de expressão.

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