Adam Rogan/The Journal Times via AP
Adam Rogan/The Journal Times via AP

Narrativas conflitantes alimentam visões opostas sobre tiros durante protesto em Kenosha

Para manifestantes, vítimas de Kyle Rittenhouse são heróis que morreram tentando desarmar um homem; para parte da direita, adolescente, que matou dois, é 'protetor' de uma cidade assolada pelo vandalismo e pela agitação social

Reis Thebault e Teo Armus, The Washington Post

01 de setembro de 2020 | 05h00

A noite foi ficando cada vez mais tensa com o passar das horas em Kenosha, Wisconsin. Era o terceiro dia de protestos contra os tiros disparados pela polícia contra Jacob Blake, e as manifestações pacíficas haviam cedido lugar a confrontos com as forças de segurança, vandalismos e uma confusão de ativistas, milícias autoproclamadas e protestantes armados.

No final da noite de terça-feira, dizem os investigadores, um jovem de 17 anos empunhando um rifle AR-15 atirou e matou dois homens e feriu um terceiro, desencadeando um caos mortal nas ruas de uma cidade que já havia passado dias protestando contra a injustiça racial e a violência policial.

As autoridades acusaram Kyle Rittenhouse de dois homicídios e uma tentativa de homicídio. Os manifestantes aclamaram as vítimas como heróis que morreram tentando desarmar um homem que as tinha sob a mira do fuzil. Mas a equipe de defesa de Rittenhouse, composta por advogados conhecidos por apoiar causas conservadoras, disse que suas ações foram justificadas porque ele temia por sua própria vida e atirara em legítima defesa. Muitas pessoas de direita estão glorificando o adolescente armado como protetor de uma cidade assolada pelo vandalismo e pela agitação social.

As narrativas conflitantes tomaram a cobertura de notícias, as redes sociais e as ruas das cidades, destacando a profundidade da cisão política entre os americanos e a crescente gravidade da guerra cultural no país. Enquanto muitos apontam que Rittenhouse foi acusado de porte ilegal de arma por causa de sua idade, os manifestantes Back the Blue [algo como “Em apoio aos Azuis”, ou seja, à polícia] em Kenosha no domingo o aplaudiram por intervir onde, segundo eles, os líderes da cidade estavam fracassando.

“É triste que um jovem de 17 anos tenha sentido que precisava vir aqui e nos proteger”, disse Tamara Weber, 51 anos, moradora de Kenosha.

Uma campanha na plataforma de financiamento coletivo GoFundMe para o manifestante Gaige Grosskreutz, que foi ferido por Rittenhouse, arrecadou mais de US $ 43 mil para pagar suas contas hospitalares. E outra campanha arrecadou quase $ 150 mil para Anthony Huber, que foi morto. O mesmo site removeu uma campanha de arrecadação de fundos para Rittenhouse na semana passada, mas um site de crowdsourcing cristão arrecadou quase US $ 250 mil para os honorários jurídicos de Rittenhouse, doados por pessoas que o chamam de “corajoso” e “patriota”.

“É como a casa dos espelhos nos parques de diversão”, disse Cecelia Klingele, professora associada da faculdade de direito da Universidade de Wisconsin. “As pessoas olham para os mesmos fatos e têm reações totalmente diferentes. É perturbador porque, quando as pessoas têm reações assim tão divergentes, tragédias como esta não deveriam ser nenhuma surpresa. As pessoas estão com medo umas das outras, é uma situação que gera perigo para todos”.

As interpretações conflitantes sobre o caso são alimentadas por detalhes obscuros a respeito de quem teria disparado o primeiro tiro e outros fatores-chave do embate. Além disso, está em pauta o escopo jurídico da autodefesa no estado. Wisconsin, ao contrário de alguns outros estados que tipificam pormenorizadamente os casos de legítima defesa, não tem uma lei específica que absolva pessoas armadas da obrigação de recuar quando ameaçadas. Em vez disso, disse Klingele, o tribunal de Wisconsin terá de determinar se Rittenhouse julgou razoavelmente o perigo que enfrentava e empregou um nível de força apropriado em sua reação – algo que pode ser altamente subjetivo.

“As divergências nas reações das pessoas sugerem que a questão aqui é avaliar se o réu reagiu em legítima defesa, de maneira razoável”, disse Klingele. “Não me surpreende que estejam levantando a questão da autodefesa, mas ainda não há como saber se essa estratégia terá sucesso”.

Rittenhouse, cujos feeds nas redes sociais demonstraram uma profunda afinidade com a polícia, viajou 32 quilômetros de sua casa em Antioch, Illinois, para Kenosha, onde muitos homens armados se autoproclamaram defensores de propriedades e responsáveis pelos primeiros socorros. Rittenhouse veio armado com um rifle e um kit de primeiros socorros. Passou o dia limpando pichações em uma escola, disseram seus advogados. Depois, ficou circulando com outros homens armados e, à noite, foi entrevistado por repórteres. Em uma das entrevistas em vídeo, Rittenhouse pisca os olhos rapidamente, dizendo que alguém na multidão jogara spray de pimenta. Em outra, ele interage com os policiais que passam em veículos blindados e levanta a mão quando perguntam se ele e os outros homens armados precisam de água.

“Muito obrigado a todos vocês. Muito obrigado mesmo”, diz um policial de dentro do veículo, lançando uma garrafa de água.

Parado na frente de um prédio fechado enquanto falava com Richie McGinniss, repórter do Daily Caller, Rittenhouse disse em uma entrevista por vídeo: “Nosso trabalho é proteger este estabelecimento”.

“Se alguém se ferir, vou correndo para o perigo”, disse ele. “É por isso que tenho meu rifle, porque preciso me proteger, claro”.

De acordo com o comunicado do escritório de advocacia Pierce Bainbridge, que está representando Rittenhouse, o adolescente ouviu o dono de uma concessionária de automóveis no centro da cidade pedir ajuda para proteger seus estabelecimentos, que haviam sido danificados durante os distúrbios. Enquanto caminhava para ficar de guarda em uma das oficinas mecânicas, Rittenhouse se deparou com um grupo de manifestantes, de acordo com o comunicado da firma.

Algumas partes dos momentos caóticos e mortais que se seguiram foram capturados em inúmeros vídeos de espectadores, testemunhados por repórteres do Washington Post e detalhados na queixa criminal contra Rittenhouse, junto com uma longa declaração de seus advogados.

Um dos vídeos mostra Rittenhouse poucos minutos antes da meia-noite, correndo pelo estacionamento de uma concessionária de carros usados na Sheridan Road, ao sul do centro de Kenosha. Ele é seguido por um homem que as autoridades identificaram como Joseph “Jojo” Rosenbaum, 36 anos, natural do Texas. Rosenbaum joga o que parece ser um saco plástico que cai bem perto de Rittenhouse. Os dois começam a correr e acabam atrás de veículos estacionados, mas a câmera perde a perseguição de vista antes que, segundos depois, os tiros sejam ouvidos. Não está claro quem atirou.

No comunicado em defesa de seu cliente, o escritório de advocacia descreve os manifestantes como “uma turba” que estava “determinada machucar” Rittenhouse porque ele estava protegendo um estabelecimento comercial que pretendiam destruir. O comunicado também diz que Rittenhouse ouviu um tiro atrás dele, virou-se e viu Rosenbaum “se lançando contra ele, tentando pegar seu rifle”.

Mas a queixa apresentada pelos promotores do condado de Kenosha disse que Rosenbaum estava desarmado quando tentou pegar a arma de Rittenhouse. McGinniss, que estava perto dos dois, disse aos investigadores que Rosenbaum parecia estar tentando agarrar o cano da arma.

Rittenhouse atirou em Rosenbaum pelo menos cinco vezes, matando-o, de acordo com um relatório de autópsia citado na denúncia.

Enquanto McGinnis realizava os primeiros socorros em Rosenbaum, Rittenhouse usou seu celular para fazer uma ligação, disseram os promotores. Como se vê em um dos vídeos, ele foge da cena dizendo ao telefone: “Atirei em alguém”.

Rittenhouse fugiu rumo norte na Sheridan Road, uma das principais vias da cidade, passando por multidões de pessoas nas ruas e calçadas, de acordo com vídeos, enquanto as pessoas gritavam “Pega esse cara!” e “Ele atirou naquele outro!”. Rittenhouse tropeçou e caiu no chão, depois mirou nas pessoas que o perseguiam. Várias pessoas bateram nele ou tentaram desarmá-lo enquanto ele estava no chão.

O comunicado do escritório de advocacia diz que Rittenhouse “temeu por sua vida”.

Um homem identificado como Huber, de 26 anos, atacou Rittenhouse com seu skate, tentando arrancar a arma das mãos do adolescente, disseram os promotores. Rittenhouse atirou em Huber uma vez no peito e o matou, afirma a denúncia. Depois ele atirou em um terceiro homem – Gaige Grosskreutz, que estava segurando uma arma de fogo, segundo a denúncia – atingindo-o no braço direito.

Grosskreutz, manifestante de 26 anos, foi hospitalizado e deve se recuperar do ferimento à bala. Seu advogado, Kimberley Motley, recusou-se a responder a perguntas sobre a suposta arma de Grosskreutz, mas disse que ele “não estava tentando atacar” Rittenhouse.

Motley criticou a conduta da polícia local naquela noite, dizendo que os policiais, que foram filmados dando água a Rittenhouse e agradecendo aos homens armados, encorajaram o adolescente que pouco depois abriria fogo.

“Eles foram absolutamente cúmplices do que aconteceu ao meu cliente”, disse Motley sobre os policiais. “Meu cliente era um manifestante pacífico. Meu cliente não merecia ser fuzilado. À queima-roupa. Ponto final”.

Depois dos tiros, o vídeo mostra Rittenhouse caminhando em direção a um grupo de veículos da polícia com as mãos para cima, e alguém grita: “Ei, ele acabou de atirar nas pessoas!”. Os policiais não o prenderam.

Rittenhouse voltou para Antioch e depois se entregou, de acordo com seus advogados.

“Kyle não fez nada de errado”, disse Pierce Bainbridge, que defendeu Rudy Giuliani, advogado pessoal do presidente Donald Trump, e também Carter Page, ex-conselheiro de Trump. “Ele exerceu seu direito à legítima defesa, um direito constitucional, consagrado e concedido por Deus”.

O ativista Porche Bennett disse ao Kenosha News que Huber e Rosenbaum vinham participando das manifestações desde o final de maio, quando George Floyd morreu sob custódia policial em Minneapolis.

“Eles sempre vinham aqui com a gente”, disse Bennett. “Dois caras doces, carinhosos. Caras de grande alma e coração”.

Rosenbaum nascera em Waco, Texas, e se mudara para Kenosha no ano passado, para ficar mais perto da noiva e de sua filha, informou o Milwaukee Journal Sentinel.

Outros manifestantes dizem que Huber morreu tentando salvar suas vidas. Skatista inveterado, o morador de Silver Lake usou seu skate contra Rittenhouse para impedi-lo de atirar nas pessoas ao redor, disse sua namorada, Hannah Gittings, à mídia local.

“É uma verdadeira prova do tipo de pessoa que ele era”, disse ela em uma entrevista na semana passada para a estação de rádio WBBM.

Huber, que morava a cerca de 24 quilômetros a oeste de Kenosha, deixou uma enteada, de acordo com uma arrecadação de fundos online para Gittings e sua família.

Natural de West Allis, 50 quilômetros ao norte de Kenosha, Grosskreutz está envolvido com o grupo de justiça social Movimento de Revolução Popular de Milwaukee, de acordo com o Journal Sentinel. Uma mulher que esteve com ele nas duas primeiras noites de protestos em Kenosha disse ao Washington Post que ele estava se voluntariando como médico.

“Ele sempre foi alguém que ajudava os amigos, dava tudo o que tinha”, disse Patti Wenzel, amiga da família, em uma entrevista ao Chicago Sun-Times.

O caso criminal de Rittenhouse provavelmente andará mais devagar por causa da pandemia do coronavírus, disseram especialistas jurídicos. Ele será julgado como adulto, mas está detido em um centro juvenil de Illinois, informou a mídia local. Ele deve primeiro ser extraditado para Wisconsin, o que não acontecerá até pelo menos 25 de setembro, disse Pierce Bainbridge.

Se seus advogados levarem o caso a julgamento – e Pierce Bainbridge diz que tem intenção de fazê-lo – o processo terá de levar em conta as volumosas evidências de vídeo e a interpretação do júri, disse Abbe Smith, professor de direito da Universidade de Georgetown que foi advogado de defesa criminal por mais 30 anos e está cético em relação ao caso de Rittenhouse.

“De vez em quando, o crime está claramente descrito em vídeo, mas muitas vezes fica sujeito a interpretações”, disse Smith. “O vídeo é como um Teste de Rorschach. Cada um vê uma coisa diferente. As pessoas veem o que querem ver”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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