Nas favelas de Caracas, apelos por segurança

Anabel Mirón, de 28 anos, tem três filhos, está desempregada e há quatro meses é viúva. Seu marido foi morto por uma gangue em um assalto ao chegar do trabalho na megafavela de Petare, em Sucre, na Grande Caracas. No outro extremo da região metropolitana, na favela 23 de Enero, a comerciante Nayani Carrillo, de 40 anos, testemunhou a execução de um vizinho ao sair de casa para trabalhar. Esses são apenas 2 dos 9 mil homicídios por ano que tornam a Venezuela um dos países mais violentos da América Latina.

Agência Estado

20 Maio 2012 | 09h00

Petare e 23 de Enero são duas faces de uma mesma realidade. A primeira, com cerca de 600 mil habitantes, é uma das maiores favelas da América Latina. Ali, Chávez foi derrotado nas eleições regionais de 2008, quando a oposição derrotou o candidato chavista à prefeitura de Sucre.

O 23 de Enero, com 60 mil habitantes é uma favela urbanizada nos últimos anos e o núcleo duro do chavismo em Caracas. Na Venezuela se diz que seus moradores, que contam com uma ampla história de mobilização política de esquerda, eram "chavistas antes de Chávez". Boa parte desses militantes anda armada.

Petare ocupa as encostas dos altos morros que cercam o extremo leste de Caracas. Na entrada da favela, uma praça funciona como centro comercial. Frutas e outros tipos de alimentos são vendidos em uma grande feira livre. À medida que se avança morro acima, as construções em alvenaria tornam-se escassas e dão lugar a puxadinhos similares aos que existem nas grandes favelas brasileiras. A coleta de lixo é precária.

Com pouco dinheiro, ela diz que os filhos têm acesso a serviços de educação em saúde. Mesmo assim, faz ressalvas ao presidente Hugo Chávez em razão da violência urbana. "Não vou votar nas eleições. Nem nele nem em Capriles", afirma. "Para quê?"

Em 23 de Enero, a politização da comunidade salta aos olhos. Logo na entrada da favela, há uma rádio comunitária, com uma imagem de Che Guevara pintada no muro. Alguns moradores circulam com a camiseta do guerrilheiro argentino e do ex-líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Manuel Marulanda - que também dá nome a uma praça do bairro. No centro comercial de 23 de Enero, há uma cafeteria estatal - uma espécie de Starbucks chavista - onde o café com leite é vendido pelo equivalente a cerca de R$ 3.

Chavista militante, Nayani reclama de dois problemas: segurança pública e escassez de produtos básicos. Dona de uma barraca de lanches, ela relata falta de farinha e azeite, insumos essenciais para vender suas empanadas. Em outras lojas do bairro, há anúncios de troca de azeite por outras mercadorias, como meio de amenizar a falta.

Nayani mora sozinha em um quarto alugado pelo equivalente a 500 bolívares (cerca de R$ 250) por mês, mais 100 pelos serviços de água e gás. Com o que ganha na barraca, consegue poupar algum dinheiro no final do mês. "Não consigo emprego melhor porque não tenho estudo", afirma. A segurança também a preocupa. Ela sai todos os dias cedo para trabalhar e volta depois de anoitecer e tem medo do que possa acontecer. "O pessoal dos coletivos é quem faz a segurança aqui", afirmou. Segundo ela, algumas gangues criminosas têm conseguido se infiltrar no 23 de Enero, o que aumentou a incidência de roubos e homicídios.

O coletivo La Piedrita, tido como um dos mais radicais do 23 de Enero, é apontado por analistas como um desses grupos. Para o cientista político Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar, o La Piedrita atua como "braço paramilitar" do governo. "Eles têm acesso a armas pesadas e são treinados para confrontos moderados", disse. No começo do ano, uma imagem de crianças armadas em um evento do La Piedrita provocou polêmica no país.

Líder do coletivo Simón Bolívar, Juan Contreras admite que há episódios de violência na favela, mas garante que o local é mais seguro do que Petare. "Violência existe em todo lugar, mas graças a um programa de conscientização social temos conseguido afastar as crianças da criminalidade", declarou. "Essa atitude criminosa foi importada de narcotraficantes colombianos que atuam hoje na Venezuela. E a oposição politizou a questão da segurança."

O analista da USB concorda que há influência de gangues colombianas nas favelas de Caracas. "Elas não têm uma filiação ideológica e disputam territórios com outros grupos para vender drogas e traficar armas", explicou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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