Ted Aljibe/AFP
Ted Aljibe/AFP

Nas Filipinas, retorno presencial às aulas pode levar anos

Um ano após o início da pandemia de coronavírus, que causou um mês de confinamento no país, as escolas ainda não foram reabertas e as crianças são obrigadas a ficar em casa

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 16h00

MANILA - Andrix Serrano, de 9 anos, mora em uma favela em Manila com a avó e tenta acompanhar os estudos. Mas, como não tem internet, o ensino à distância para ele é um desafio.

Um ano após o início da pandemia de coronavírus, que causou um mês de confinamento no país, as escolas ainda não foram reabertas e as crianças são obrigadas a ficar em casa.

Com medo de contaminar os idosos, o presidente Rodrigo Duterte se recusa a autorizar a retomada das aulas e alertou que as escolas não serão reabertas até que a vacinação seja generalizada, o que pode levar anos.

Enquanto isso, o governo desenvolveu um programa de "aprendizado combinado", que mistura cursos online, materiais impressos e aulas por meio da televisão e da mídia social.

O programa começou em outubro, com quatro meses de atraso, e desde então tem sido atormentado por problemas, a começar pelo fato de que a maioria dos alunos nas Filipinas não tem computador ou internet.

"Não consigo. É muito difícil”, diz Andrix, em seu barraco próximo a um rio poluído na capital. Na parede há uma foto dele em seu uniforme escolar. “A escola é muito mais divertida. É muito mais fácil aprender.”

Kristhean Navales, seu professor de ciências, dá suas aulas por meio do Facebook Messenger, mas menos da metade de seus 43 alunos tem acesso a um computador ou smartphone.

Os mais privilegiados podem usar emojis, corações ou polegares para cima para mostrar que entendem ou indicar que têm uma dúvida.

Mas a cobertura da internet nem sempre é estável e nem todos têm dados suficientes para pagar por longas chamadas de vídeo. “E o que você pode fazer com o Messenger em disciplinas que envolvem experimentos, como ciências?”, pergunta o professor.

Quem não tem acesso a um computador ou smartphone é totalmente dependente de recursos impressos pelas escolas.

Quando as aulas terminam, um novo dia começa para Navales, que visita Andrix e seus colegas que não conseguem acompanhar. Muitas vezes ele aproveita a oportunidade para levar alguns vegetais para suas famílias.

Direito sacrificado 

O professor está preocupado com a evasão escolar e irritado com a incapacidade do governo de se organizar para a  volta às aulas. “O direito à educação não deve ser sacrificado por esta pandemia”, disse ele.

De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as Filipinas já estavam muito atrás no ranking de habilidades de leitura, matemática e ciências entre os jovens de 15 anos. 

Mas, em um ano, o Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicefestima que 1 milhão de filipinos abandonaram a escola. “Covid é um fardo para todos os sistemas escolares do mundo, mas aqui é ainda pior”, disse Isy Faingold, chefe de educação do Unicef nas Filipinas.

Segundo ele, as crianças que saem do sistema enfrentam um risco maior de violência sexual, gravidez precoce e envolvimento em gangues.

Além disso, o governo impôs confinamento a todos os menores de 15 anos, estigmatizando ainda mais os jovens. Muitos pais não conseguem aplicar essa proibição e permitim que seus filhos brinquem na rua ou nos parques.

Depressão e ansiedade 

O confinamento foi suspenso brevemente em janeiro, mas Duterte o impôs novamente, defendendo a televisão como um sistema para manter as crianças ocupadas. 

E os planos para reabrir escolas foram abandonados em janeiro por causa de variantes do coronavírus. "Ser privado de interações reais com colegas e amigos tem um grande impacto no desenvolvimento emocional das crianças", diz Maria Lourdes Carandang, psicóloga infantil, citando níveis "alarmantes" de depressão e ansiedade.

A situação também afeta pais e avós.  Todas as semanas, Aida Castillo, de 65 anos, vai à escola retirar os formulários que seus cinco netos estudarão sob sua supervisão, enquanto os pais trabalham.

Apenas o mais velho dos cinco tem acesso a um smartphone para as aulas online quando a mãe chega em casa. “É como se eu fosse a professora”, diz Castillo, que abandonou a escola aos 11 anos. “O que tenho a dizer quando não entendo do assunto?"/ AFP

 

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