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Nas mãos de Trump, a Guerra ou a paz em Ormuz

O risco de uma guerra contra o Irã é deflagrar um conflito que incendeie o Oriente Médio

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2019 | 05h00

Será que os petroleiros que ardem no Estreito de Ormuz, por onde passa 30% do petróleo mundial, vão inflamar todo o Oriente Médio? Até há alguns dias, temia-se pelo pior. Donald Trump esbravejava. Ele via ali a mão do demônio. 

Ameaçou punir o Irã, ao qual acusa de preparar uma bomba nuclear (embora não haja nenhum sinal disso). A tensão aumentou. Parecia que estávamos de volta a 2003, quando os EUA, de George W. Bush, se preparavam para saltar sobre o Iraque, acusado de ter armas de destruição em massa. 

Um general americano apresentou na ONU provas dessa acusação. Eram provas ridículas e o mundo inteiro riu, mas Bush desfechou mesmo assim sua guerra. Hoje, ouvindo as imprecações de Trump contra o Irã, a sensação é de que o pesadelo voltou. Os indícios fatais se multiplicam.

Em abril, Trump acrescentou a Guarda Revolucionária à lista e organizações terroristas. Pior, contrariando a tradição, autorizou o comando militar no Oriente Médio a decidir por sua conta o nível de ação conveniente em caso de necessidade. 

O quadro ficou mais sombrio, mas nada aconteceu. Trump continuou a rugir, limitando-se, porém, a deslocar seus navios. Especialistas criaram a expressão “procrastinação compulsiva”, que traduzida significa “Trump tem boca grande, mas é um tigre de papel”. Há dois anos ele está em vias de lançar seus raios, mas prefere cada vez mais a arma econômica (tarifas e sanções) à guerra. 

Na névoa por trás da qual são tomadas as grandes decisões estratégicas, muitos acreditam que a frente anti-Irã de Trump começou a se esgarçar.

Nos EUA, existem os adeptos da solução extrema – riscar o Irã do mapa – e os que apoiam a arma preferida de Trump, manejada pelos operadores econômicos, agentes alfandegários e financistas. Dois homens próximos ao presidente comandam o partido da guerra: o chefe da diplomacia, Mike Pompeo, ex-diretor da CIA, e o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, o falcão que impulsionou a guerra contra o Iraque. 

Pensam que Bolton se acalmou? De jeito nenhum. Hoje, ele quer que os EUA bombardeiem o Irã até a morte. Bolton lembra o romano Catão, que começava seus discursos com um “delenda est Carthago” (um chamado à destruição de Cartago). Ainda bem que Catão não tinha bomba nuclear. 

A mesma fratura se observa entre as diferentes peças do quebra-cabeças do Oriente Médio. De início, achávamos que a Arábia Saudita, a grande monarquia aliada de Trump, se alinharia sem restrições. Mas, ao que parece, Riad também pendeu para a solução do dinheiro em lugar de abrir fogo e semear cadáveres. 

É verdade que o jogo na Arábia Saudita é dissimulado. O Conselho de Ministros, presidido pelo velho rei Salman, propôs uma “resposta decisiva”, pois o Irã estaria ameaçando suas reservas de petróleo. Diante dele, porém, está um de seus filhos, Mohamed bin Salman, que tende mais às sanções. 

Outra posição estranha é a dos Emirados Árabes, geralmente alinhados a Riad, que adotaram um discurso mais belicoso que o dos sauditas.

Outro enigma: Israel é tido como um ninho de falcões liderados por Binyamin Netanyahu, que também tem uma posição parecida com a de Trump e teme que uma guerra contra o Irã ateie fogo a todo o Oriente Médio. 

Será que Netanyahu tomou conhecimento das palavras ditas nesta semana pelo chefe do Hezbollah, Hassan Nasrallah? “Uma guerra contra o Irã não ficará confinada às fronteiras iranianas”, disse ele. Em matéria de terror, é bom acreditar no Hezbollah, que entende do riscado. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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