AP Photo/ Charlie Neibergall
AP Photo/ Charlie Neibergall

Nas primárias americanas, batalha será entre radicais e reformistas

Economia dos EUA precisa de reformas e não de troca de insultos entre Trump e um candidato radical democrata 

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 07h00

O contraste foi devastador. Se de um lado, o caucus de Iowa se tornou um fiasco (os democratas culpam o software), o presidente Donald Trump, por sua vez, saudou “o retorno americano” no seu discurso sobre o Estado da União e desfrutou de sua absolvição na votação do impeachment no Senado.

Com a economia prosperando e seus índices de aprovação subindo, Trump tem mais probabilidade do que nunca de sair vitorioso nas eleições de novembro. Um contraste com os democratas depois de Iowa, em que nenhum candidato obteve o apoio de muito mais do um quarto dos eleitores.

Os democratas concordam que pôr um fim ao bombástico mandato de Trump é prioridade. Mas seus candidatos, agora seguindo para New Hampshire para lutar pelos votos antes da primária na próxima semana, estão brutalmente divididos quanto ao que oferecer aos americanos no lugar de Trump. A esquerda afirma que os EUA deixaram de trabalhar em prol de muitas pessoas e é necessária uma reestruturação fundamental. Os moderados defendem que sejam feitos reparos.

É surpreendente que todos os possíveis indicados têm feito uma campanha mais à esquerda do que o presidente Barack Obama em 2012 e Hillary Clinton em 2016. Todos têm planos ambiciosos sobre a mudança climática e, com exceção de Michael Bloomberg, são reticentes com relação ao comércio global. Mas Bernie Sanders, que se qualifica como um socialista democrata, e Elizabeth Warren, que diz ser capitalista, são mais militantes, em estilo e substância.

Em parte, isso depende do ponto de vista, como mostra a política de saúde. Todos os democratas querem que o número de americanos sem uma cobertura de saúde, que aumentou de 27 milhões para 30 milhões no governo Trump, seja reduzido, preferivelmente a zero.

Os reformadores pretendem expandir o sistema adotado pelo governo Obama até que todas as pessoas estejam seguradas. Sanders e Warren, pelo contrário, defendem a nacionalização do seguro-saúde, revolucionando a assistência médica, uma atividade avaliada em US$ 3,8 trilhões representando 18% do PIB e que emprega 16,6 milhões de pessoas.

Há ainda uma diferença fundamental também quanto ao papel do governo. No caso dos direitos trabalhistas, por exemplo, todos os democratas evocam uma mítica era dourada em que as pessoas sejam recompensadas adequadamente por um dia de trabalho. Os reformadores aumentariam o salário mínimo para US$ 15 por hora e gastariam mais em educação e reciclagem.

Os radicais obrigariam qualquer empresa maior a contratar. Warren daria a seus representantes 40% dos assentos, Sanders 45%. Quanto a Sanders, ele promete exigir que as empresas transfiram 20% do seu ativo para organizações de trabalhadores.

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Trump mostrou em 2016 que você consegue vencer uma eleição pelo fervor de sua base, não formando uma coalizão. O que não deve funcionar no caso dos democratas nas eleições de 2020, por causa dos tipos de candidatos que se afastam muito do centro político. Os eleitores consideraram Hillary Clinton mais radical do que Donald Trump em 2016 e isso não foi bom para ela. 

Trump se divertirá com Sanders, que deseja dobrar os gastos federais da noite para o dia. Não foi por acaso que Trump – quando fez o discurso sobre o Estado da União – apontou para Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, convidado da noite, e lembrou ao Congresso que o “socialismo destrói nações”. A ideia dos democratas, então, é trocar o populismo tipo reality show de Trump por um populismo econômico forte. 

O que os EUA precisam é de reformas – redução do custo da habitação, mudanças no campo da assistência médica, uma economia com menos emissões de carbono, um sistema de votação que privilegie o consenso, não o partidarismo. Para isso, a política nacional tem de se tornar enfadonha novamente e não uma luta exaustiva, de troca de insultos entre Trump e o candidato mais radical que o Partido Democrata arrumará. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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