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Nas ruas e nos escritórios, cresce no Sudão a oposição ao golpe de Estado

A mídia estatal, entretanto, permanece em silêncio sobre a violência e a instabilidade política do país

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 08h00

O golpe militar do general Abdel Fattah al-Burhan e a dissolução do governo de transição provocaram novos protestos diários nas ruas do Sudão, mas a oposição também se encontra em outras frentes, de diplomatas, autoridades locais e ministérios.

A resistência começou antes mesmo de Burhan tornar explícito seu golpe em um discurso na televisão estatal na última segunda-feira. O Ministério da Informação foi a primeira instituição a se rebelar por meio de sua página no Facebook.

Nos estágios iniciais do golpe militar, o homem forte do Sudão desde a derrubada do ditador Omar al-Bashir em 2019, divulgou em sua página a prisão do primeiro-ministro Abdalla Hamdok e de outros ministros e funcionários.

Cada mensagem foi acompanhada por uma hashtag: "não é possível voltar atrás".

A frase tem sido o grito de mobilização dos partidários do governo civil no Sudão, liderado desde agosto de 2019 por um conselho civil-militar em uma transição para as eleições em 2023.

Na quarta-feira, o estado de Khartoum juntou-se às vozes dissidentes, ainda que o governador esteja entre as autoridades detidas pelos militares.

Um comunicado assinado pelos "diretores-gerais" e outros oficiais do estado "condena o golpe militar do general Burhan" e diz que não haverá "nenhum retorno" à autocracia do passado.

Também incentiva a "desobediência civil" e pede que "bens essenciais" como farinha ou equipamento médico de emergência fossem disponibilizados aos manifestantes.

Diplomatas rebeldes

Diplomatas se juntaram à resistência, incluindo Noureddine Sati, que desde 2020 é embaixador do Sudão nos Estados Unidos.

Alguns se manifestaram aos membros de sua comunidade a favor da "revolução" e "se opuseram ao golpe", enquanto outros o fizeram por escrito.

As manobras militares atraíram repreensões de seis embaixadores, incluindo os dos Estados Unidos, da União Europeia, da China, da França e da Suíça.

O representante na Suíça, Ali Ibn Abi Taleb Abderrahman Mahmoud al Gendi, descreveu o general Burhan como "chefe das autoridades golpistas" e rejeitou "sua demissão ilegítima e inconstitucional".

Gendi também acusou as forças de segurança de empregar "a pior repressão" contra os manifestantes.

A ministra das Relações Exteriores, Mariam al Sadiq al Mahdi, cujo pai foi o primeiro ministro deposto pelo golpe de Bashir de 1989, aplaudiu os diplomatas, chamando os posicionamentos de "uma vitória para a revolução".

Ela é uma das poucas líderes civis não detidas e surgiu como uma das principais vozes críticas contra Burhan.

Mesmo antes do golpe, o ministro da Indústria, Ibrahim al-Sheikh, participou de um protesto apelando para uma rápida transferência de poder para os civis. Ele está agora entre os membros do governo presos.

Alguns de seus colegas das Forças pela Liberdade e Mudança, uma aliança de grupos que lideraram protestos contra Bashir em 2019, ainda estão em liberdade.

Na quinta-feira, alguns ministros deste grupo conclamaram a sociedade a manter "protestos pacíficos" e a "desobediência civil", incluindo uma greve geral decretada pelos sindicatos do setor petrolífero.

Uma declaração de três ministros publicada no Facebook do Ministério de Informação e Cultura disse que a "resistência" contra os militares deveria continuar "até o fim do golpe e o retorno à legitimidade constitucional".

A mídia estatal, entretanto, permanece em silêncio sobre a violência e a instabilidade política. Os militares apreenderam as instalações da emissora estatal e ordenaram aos jornalistas da agência estatal SUNA que deixassem as instalações. / AFP

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