The Washington Post by David Vaaknin
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Nascida judia em campo nazista, matriarca muçulmana revela segredo para sua família

Leila nasceu em um campo de extermínio, mas constituiu família com o marido árabe palestino

Steve Hendrix, Ruth Eglash / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2020 | 05h00

UMM AL-FAHM, ISRAEL - Leila Jabarin é a matriarca de uma família muçulmana. Mas, cercada por alguns de seus 36 netos em uma sala de estar tomada pelo aroma de café com cardamomo, ela conversa em hebraico, não em árabe, e conta uma história que nem seus sete filhos souberam até virarem adultos. Ela nasceu Helene Berschatzky, uma judia.

Sua história começou em um campo de concentração nazista. “Primeiro fui perseguida por ser judia. Agora, sou perseguida por ser muçulmana”, lamentou Leila. “Quando estava na escola, ensinaram para nós que os árabes tinham caudas. Todo mundo deveria saber o que aconteceu com os judeus, porque pode acontecer com os árabes.”

Leila levou décadas até revelar suas memórias: o esconderijo escuro, o “pijama listrado”, os objetos redondos espalhados que pareciam bolas na sua lembrança de bebê, mas que agora pairam como caveiras.

Seus vizinhos sabiam que ela era judia quando chegou, em 1960, nesta cidade árabe de 55 mil habitantes, localizada ao sul de Nazaré. Mas apenas seu marido, Mohamed, sabia de suas origens no Holocausto. Seus seis filhos e uma filha não entendiam por que ela era fascinada por documentários de TV sobre um assunto que eles pouco aprenderam nas escolas árabes.

Em 2012, em uma reunião de aposentados, um funcionário do governo israelense ouviu Leila interpretando seu hebraico para os colegas. Ele fez algumas perguntas, ficou surpreso ao saber que ela era judia e sobrevivente do Holocausto. Mais tarde, seu caso foi investigado e registrado no programa de sobreviventes de Israel. Só então ela contou aos filhos. 

Leila nasceu de mãe judia húngara e pai judeu russo em um campo de concentração nazista na Hungria ou na Áustria, em 1942 ou 1943. O médico do campo escondeu sua família no porão de sua casa. Durante esse tempo, ela saia pouco, até a libertação, em 1945.

Com milhares de outros judeus, a família foi para um campo de transição na Iugoslávia, até embarcar em um navio para Israel, em 1948. “Eles nos disseram que era um país judeu”, lembrou.

Após desembarcaram em Haifa, estabeleceram-se em Tel-Aviv. Helene, como era conhecida, era ainda adolescente quando um jovem operário palestino chamou sua atenção. Quando contou ao pai que se casaria com Mohamed Jabarin, ele ficou furioso. Eles não eram religiosos, mas ele queria que ela se casasse com um judeu. “Se você for embora com ele, será como voltar para Hitler”, conta ela, sobre a reação do pai.

Mas ela estava determinada e se casou em 1960. Então, Helene virou Leila, acrescentando o árabe ao russo, húngaro e hebraico que já dominava. Mais tarde, ela se reconciliou com o pai e se reaproximou da mãe. 

Mas foi só depois que os filhos nasceram que ela se converteu ao Islã, em 1973, mais por razões de ordem prática do que espiritual – como judia, seus filhos seriam considerados judeus pelo governo e obrigados a servir o Exército. Foi quando Leila decidiu que já tinha convivido tempo suficiente com a guerra. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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