Nasserista embaralha eleição no Egito

Ascensão de candidato que evoca a figura do líder Gamal Abdel Nassser tira votos do ex-chanceler de Mubarak

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2012 | 03h07

Hamdeen Sabahy, o candidato do partido que se diz herdeiro do presidente Gamal Abdel Nasser (1956-1970), ganha força e, embora dificilmente consiga chegar ao segundo turno, sua ascensão torna ainda mais imprevisível a disputa presidencial no Egito. Ele foi erguido por uma multidão na periferia do Cairo aos gritos de "viva Nasser", num sinal de que, nas eleições de amanhã e quinta-feira, novos tempos e velhas ideias se embaralham.

Entre cotoveladas e empurrões, moradores do bairro pobre de Matareia, perto do aeroporto do Cairo, cercaram o ônibus do nasserista, que não conseguiu deixar o veículo. A comunidade havia pedido à equipe de Sabahy que fizesse seu último discurso no bairro, no domingo. Desde ontem, as campanhas estão suspensas, como prevê a lei eleitoral.

Quando pôs a cabeça para fora da porta do ônibus, Sabahy acabou puxado e foi parar nos ombros de um partidário. "Nasser é o mito; Sabahy, seu representante", seguiu o coro. Tentando se equilibrar sobre a multidão, o nasserista grisalho de 57 anos sorria e acenava.

As pesquisas de intenção de voto são pouco confiáveis no Egito, mas analistas apontam que foi a mensagem de cunho social de Sabahy - sem martelar sobre o Islã ou a necessidade de impor a ordem, como os demais candidatos - que fez dele uma estrela em ascensão. "Sabahy ganhou muita atenção por causa de seu carisma. Seu partido é modesto e ele não tem como competir com Mohamed Morsi (da Irmandade Muçulmana), Abdel Moneim Aboul Fotouh (islâmico moderado), ou Amr Moussa (ex-chanceler)", afirma Nabil Fahmy, professor da Universidade Americana do Cairo. O nasserista do promete "respeitar os empresários" e "apenas lutar para fazer dos pobres menos pobres, sem prejudicar os ricos".

O efeito da subida de Sabahy é sentido na dianteira da disputa. Entre egípcios seculares, ele parece estar roubando votos de Moussa, que foi por dez anos ministro de Hosni Mubarak. Se isso de fato ocorrer, melhor para o campo islâmico, que terá mais chances de emplacar um nome na fase final da disputa.

Em Matareia, Sabahy foi parar em um palco improvisado sob uma tenda de plástico e tapetes - estrutura que tornava ainda mais insuportável o calor do Cairo. O sistema de som, com amplificadores enferrujados, não dava conta e, enquanto discursava, o candidato era várias vezes interrompido por partidários que não se continham e começavam a puxar um novo grito de guerra. Calado à contragosto, ele fazia uma pausa para enxugar o suor com um lenço e acenar para a multidão, até que o silêncio voltasse.

"Voto em Sabahy porque ele não é corrupto, diz que vai baixar o salário do presidente para 1.200 libras egípcias (pouco mais de R$ 400) e trabalhará pelos pobres", dizia Ahmed Ali, um senhor que lutava para manter o lugar na frente do palco. "Nasser fez o Egito brilhar, mas até 1967 (quando o país perdeu a guerra contra Israel). O principal é que os nasseristas querem trabalhar por nós, o povo de verdade."

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