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Gilles Lapouge
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Natureza passa à oposição

O presidente francês, François Hollande, já possuía muitos inimigos: a direita, tendo como porta-bandeira Nicolas Sarkozy, e no seu próprio campo políticos de esquerda o censuram como "um homem de esquerda, de direita". Agora, a este grupo de adversários, eis que se juntam novos: os rios e florestas, coelhos, raposas, os pintarroxos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2014 | 02h03

Por que eles vieram engrossar as fileiras da oposição a Hollande? Graças à morte de um jovem. Um rapaz de 21 anos, biólogo, que participava das duras manifestações organizadas há algumas semanas contra uma barragem situada na bela região do Tarn, sudoeste da França. E uma manhã, depois de um dia de disputas entre ecologistas e policiais, foi encontrado o corpo do jovem, o dorso aberto por uma granada.

A barragem, contra a qual os manifestantes protestavam, não é uma obra gigantesca. Para os 50 camponeses da região ficarem bem abastecidos de água, seria desviado um pequeno rio que destruiria uma floresta de rara riqueza, uma das joias dessa sublime região.

A barragem não foi uma obra decidida pelo governo de Paris, mas pelas autoridades da região. Os trabalhos começaram. Sob o sol multimilenar, as papoulas e as árvores de carvalho desapareceram, dando lugar a uma terra rasa, suja e ressecada. Foi então que, da França inteira, os jovens vieram em socorro da floresta.

O governo de Hollande não fora colocado em questão. Entretanto, quando correu a noticia da descoberta do cadáver do jovem, às 2 horas, nem o presidente ou o primeiro-ministro, ninguém, enfim, soube dizer uma palavra digna. Distração sem dúvida. Esses senhores se contentam em repetir, como uma lição que se decora, que os policiais franceses, como são os melhores do mundo, os mais gentis, estava claro que jovem morrera sozinho, por si próprio. Mas rapidamente a autópsia revelou o contrário: o jovem foi atingido por uma granada no dorso, às 2 horas, uma granada da polícia. Ele morreu na hora.

E aí entra Hollande. Mesmo quando, por casualidade, não fez uma bobagem, ele se esforça para parecer o responsável pelas tragédias.

Mostra-se um homem sem coração, sem emoção. Rígido e frágil ao mesmo tempo. Suas delongas o lançam no banco dos acusados.

O resultado político foi duro. A direita descobriu repentinamente que adora esses jovens ecologistas (às vezes, vândalos e quase sempre de esquerda) que querem salvar nosso belo país das máquinas de terraplenagem e das escavadoras. Os ecologistas são "vento contra" Hollande. E entre os socialistas, uma grande minoria está revoltada com a nulidade dos seus chefes, Hollande e Valls.

Claro que a construção da barragem foi abandonada. O que significa que milhões de euros foram jogados fora. E o único benefício dessa morte atroz foi este: as florestas respiram.

É de se prever outras batalhas, pois a França obstina-se a lançar obras faraônicas e inúteis, com o risco de desfigurar um dos mais belos países do mundo. E, paralelamente, a juventude francesa torna-se cada vez mais combativa contra os criadores de desertos e que destroem a beleza do país.

Atualmente está em andamento um projeto de uma "fazenda gigante" que deverá abrigar mil vacas, como já existem nos Estados Unidos e no Brasil. Essas vacas não receberão nada de forragem. Seu leite será tirado por meio de máquinas. Elas serão privadas das únicas coisas que amam: as cores do céu, o vento, um tufo de dente de leão. Horror.

Podemos dizer que são "vacas"?. Que sabemos de vacas e seus sonhos? Mas o dia em que elas também entrarem na oposição... / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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