Stefano Rellandini / Reuters
Stefano Rellandini / Reuters

Naufrágio deixa 115 desaparecidos no que pode ser a pior tragédia no Mediterrâneo em 2019

Imigrantes tentavam chegar à Europa e podem ter se afogado na costa da Líbia; cerca de 140 pessoas foram salvas e 62 corpos já foram resgatados

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2019 | 04h38
Atualizado 26 de julho de 2019 | 19h42

TRÍPOLI -  A Líbia informou nesta sexta-feira (26) ter recuperado os corpos de 62 imigrantes, após um naufrágio, na véspera, perto de Khoms, cidade situada 120 quilômetros a oeste de Trípoli, na pior tragédia registrada no Mar Mediterrâneo este ano, segundo a ONU.

"As unidades do Crescente Vermelho da  Líbia conseguiram resgatar 62 corpos de imigrantes", disse Abdel Moneim Abu Sbeih, alto funcionário da organização, à AFP

O número de migrantes a bordo da embarcação que naufragou na madrugada de quarta para quinta-feira é incerto, e as cifras variam conforme as fontes.

De acordo com a Organização Internacional de Migrações (OIM), 145 pessoas foram resgatadas e 110 estão desaparecidas ao longo da costa da Líbia, um país mergulhado desde 2011 no caos, com disputas de poder e milícias que exercem o poder.

Para a Marinha líbia, 134 pessoas foram resgatadas e 115 estão desaparecidas. A ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) na Líbia estimou, por sua vez, que cerca de 400 pessoas estariam a bordo da embarcação.

Segundo o alto comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, se todos estiverem mortos, esta será a "pior tragédia no Mediterrâneo este ano". 

O naufrágio ocorreu perto da cidade líbia de Khoms, 120 km ao leste da capital Trípoli, afirmou Safa Msehli, oficial de comunicações do escritório da OIM na Líbia.

"Vamos prosseguir com as operações para recuperar os corpos trazidos pelo mar esta noite e na próxima", acrescentou Sbeih, confirmando que não era possível dar um número exato do total de vítimas do naufrágio.

As autoridades de Khoms, de onde partiu a embarcação, enfrentam dificuldades para sepultar os corpos recuperados, informou uma fonte da administração municipal da cidade. 

Além dos "problemas relativos a procedimentos jurídicos", eles sofrem para "encontrar um lugar para o enterro das vítimas" deste novo drama, qualificado pela ONU como a pior tragédia do ano no Mar Mediterrâneo.

"Nós precisamos de rotas seguras e legais para os migrantes e os refugiados. Todo migrante em busca de uma vida melhor merece segurança e dignidade", escreveu no Twitter o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que se disse "horrorizado" com a tragédia.

O naufrágio é um "terrível lembrete" dos riscos assumidos pelos migrantes que querem deixar a Líbia rumo à Europa, afirmou nesta sexta a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini. "Cada vida perdida é demais", acrescentou.

Antes deste naufrágio, o Alto Comissariado para os Refugiados (Acnur) e a OIM haviam reportado ao menos 426 mortos desde o início do ano tentando atravessar o Mediterrâneo, que se tornou a via marítima mais mortal do mundo.

 

Em "estado de choque" 

Segundo o porta-voz da Marinha líbia, general Ayoub Kacem, a embarcação era "de madeira" e "naufragou a menos de 5 milhas náuticas da costa, segundo testemunhos de sobreviventes".

Os migrantes resgatados são, na maioria, da Eritreia, mas entre eles há palestinos e sudaneses, acrescentou, em um comunicado.

Perto de Khoms, cerca de 30 pessoas retiradas das águas aguardavam em silêncio em um local sem cobertura e sobre um chão de cimento. Eles contaram à AFP como ocorreu a tragédia.

Menos de duas horas depois de sua partida, na noite de quarta-feira, a embarcação se encheu de água e o motor parou. "Ficamos na água entre seis e sete horas", contou um dos sobreviventes, contando ter visto a morte de cerca de 200 pessoas, "homens, mulheres e crianças".

"Um homem originário do Sudão nos disse ter visto sua esposa e seus filhos se afogarem. Estava totalmente desorientado e ficou sentado lá, em estado de choque", contou Anne-Cecilia Kjaer, enfermeira de MSF, que cuidava dos sobreviventes.

"Muitas crianças não sabiam nadar e mesmo as que sabiam, sucumbiram ao cansaço", relatou.

 

"Viagem horrível" 

Este naufrágio foi para as vítimas a última etapa de uma "viagem horrível": antes de chegar ao mar, "eles atravessaram o deserto, foram capturados por traficantes" de seres humanos, contou a enfermeira.

Segundo cifras da OIM, pelo menos 5.200 pessoas estão atualmente em centros de detenção na Líbia.

Apesar dos riscos da travessia para a Europa, os migrantes se aventuram no mar, preferindo tentar a sorte do que permanecer na Líbia, onde sofrem abusos, extorsões e torturas, explicam as ONGs.

Se forem socorridos no mar e levados de volta à Líbia, geralmente são acolhidos pelas ONGs que atuam localmente, que lhes oferecem cuidados e alimento, depois colocados pelas autoridades líbias em centros de detenção, regularmente descritos pelas ONGs como locais sem direitos. / AFP e NYT

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