ITAR-TASS / AFP
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Naufrágio do 'Kursk', uma tragédia russa completa 20 anos

Submarino nuclear que participava de exercícios entre a Rússia e a Noruega sofreu uma explosão e os 118 homens a bordo morreram

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 08h00

MOSCOU - Em 12 de agosto de 2000 a explosão acidental de um torpedo provocou o naufrágio do submarino nuclear "Kursk", considerado uma joia da frota russa. O destino dos 118 homens presos a 108 metros de profundidade no mar de Barents manteve a nação em suspense até o fim trágico, nove dias depois, da maior catástrofe sofrida pela Marinha do país desde o fim da União Soviética.

O naufrágio

Na manhã daquele sábado, o gigantesco submarino "Kursk" de 154 metros de comprimento participava nos exercícios em grande escala da Frota do Norte, na fronteira entre Rússia e Noruega.

Às 11H28 (4H28 de Brasília) os sismógrafos noruegueses registraram uma violenta explosão, seguida, 10 minutos depois, de uma segunda detonação mais forte.

O submarino foi localizado na manhã de domingo pela Marinha russa. A conexão de rádio com a tripulação estava cortada. Apenas o SOS que um tripulante lança por meio de golpes no casco foi capturado.

No fim da tarde, um primeiro submarino de resgate foi acionado, mas bateu contra os destroços do "Kursk" e precisou subir rapidamente à superfície. 

Ajuda rejeitada

"Problemas técnicos": com estas palavras a Marinha russa anunciou publicamente o acidente do "Kursk" dois dias mais tarde, em 14 de agosto.

Segundo o comandante da Marinha, uma "explosão no primeiro compartimento de torpedos" danificou o submarino, obrigando a embarcação a descer a uma zona internacional, 150 km ao norte do porto russo de Severomorsk. A Marinha trabalhou com a hipótese de um choque com um navio estrangeiro.

Os militares afirmaram que o reator do submarino estava paralisado e sob controle, e os 24 mísseis a bordo não representavam nenhum perigo de explosão nuclear. Finalmente nenhum vazamento radioativo foi registrado.

De acordo com a Marinha, a tripulação tinha oxigênio suficiente para resistir até 18 de agosto.

Apesar do temor pelos marinheiros, os russos rejeitaram as ofertas de ajuda de britânicos, noruegueses e americanos.

Equipados com ferramentas obsoletas ou inadequadas, os russos continuaram sozinhos as operações de resgate em plena tempestade, acumulando fracassos.

Putin em férias

Vladimir Putin estava de férias em Sochi, no Mar Negro. Esperou até 16 de agosto para dar uma primeira declaração, vestido com roupa casual: a situação é "crítica", mas a Rússia "dispõe dos meios de resgate necessários".

No mesmo dia, após uma conversa por telefone com o presidente americano Bill Clinton, o ex-agente da KGB ordenou que o país "aceitasse ajuda de onde viesse". Mas não interrompou as férias.

Seu silêncio provocou críticas na imprensa. "A catástrofe deveria ser uma obsessão (...) para o Estado, começando pelo presidente", afirmou o jornal Izvestia. A imprensa acusou os militares de mentir.

No dia 18, Putin afirmou que as possibilidades de salvar a tripulação eram "muito escassas, mas ainda existiam" e finalmente decidiu voltar a Moscou.

No dia 21, após 30 horas de trabalhos, mergulhadores noruegueses abriram a escotilha do submarino, que encontraram completamente inundado em seu interior. Todos os tripulantes estavam mortos.

Em Vidiaievo, o porto base do Kursk, Putin foi criticado pelas mulheres dos mortos, que não conseguiam conter as lágrimas.

Em 23 de agosto, o governo decretou dia de luto nacional, mas as famílias dos marinheiros se negaram a aderir ao momento. O presidente afirmou sentir-se "culpado pela tragédia".

Depoimento póstumo

O MP russo encerrou a investigação em julho de 2002, sem apontar responsáveis. De acordo com suas conclusões, um torpedo explodiu e destruiu todo o arsenal. Os marinheiros morreram no mais tardar oito horas após a explosão.

Uma mensagem encontrada em outubro de 2000 no corpo de um tenente entre os destroços do submarino mostra que ao menos 23 homens sobreviveram em um primeiro momento à explosão e se refugiaram em uma cabine de descompressão. 

"Minha querida Natasha e meu filho Sasha!!! Se receberem esta carta, isto significa que estou morto. Amo muito vocês", escreveu Andrei Borisov antes de ficar sem ar. / AFP

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