Naufrágio no Mar Mediterrâneo pode ter matado 700 pessoas

Se mortes forem confirmadas, será o maior naufrágio da história da travessia de imigrantes; Itália denuncia 'novo tráfico de escravos'

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2015 | 06h28

Atualizado às 14h00.

GENEBRA - O Mar Mediterrâneo vive seu pior acidente envolvendo imigrantes e o desaparecimento de cerca de 700 pessoas mergulha a Europa em uma crise política. Na noite entre sábado e domingo, um velho pesqueiro de 30 metros que cruzava o mar com imigrantes irregulares naufragou e, por enquanto, apenas 28 pessoas foram resgatadas com vida. Para líderes, a Europa vive um fluxo de imigração de "proporções épicas" e um novo "tráfico de escravos".

O bloco anunciou uma reunião de emergência de seus líderes para a semana diante da constatação de que o ano já soma 1,6 mil mortes, 30 vezes as taxas de 2014.  Mas o novo acidente levou o papa Francisco a fazer duras críticas, enquanto a ONU acusou os governos europeus de não agir para não perder votos em eleições.

Segundo a ONU, testemunhas que sobreviveram indicaram que o barco continha até 700 pessoas. Se confirmado, esse seria o maior desastre já registrado no mar que, nos últimos anos, passou a ser o caminho usado por milhares de africanos e árabes para chegar até a Europa.

Esse é também o segundo desastre de grande escala no Mediterrâneo em apenas uma semana, gerando séria pressão contra governos europeus. Há oito dias, outros 400 imigrantes não sobreviveram em mais um naufrágio. A pobreza na África, mas também a guerra na Síria, no Iraque, a instabilidade na Somália, o caos político no Iêmen tem contribuído para um salto no número de pessoas tentando chegar até a Europa e saindo, na maioria dos casos da costa da Líbia.

No acidente deste fim de semana, o barco teria virado 27 quilômetros da costa da Líbia e 220 quilômetros de Lampedusa, ilha no Sul da Itália. Segundo testemunhas, o naufrágio teria ocorrido quando os imigrantes avistaram um barco comercial de bandeira portuguesa e tentaram chamar a atenção, correndo todos para o mesmo lado. Organizado por grupos criminosos, a travessia usa barcos em estado crítico e que não teriam condições de viagem.

A marinha de Malta e da Itália, assim como barcos comerciais, atuam nas buscas e o governo de Mateo Renzi em Roma convocou uma reunião de emergência.

Crise. Renzi quer um encontro de todos os líderes europeus, o que segundo ele teria o apoio de Barack Obama.  Mas o debate sobre o destino dos imigrantes reabriu uma crise dentro do bloco. Para os países do Sul, a UE precisa garantir a volta de uma operação sistemática de resgates, mas também aceitar que os estrangeiros devem ser repartidos entre os 28 países do bloco. "Essa é uma tragédia europeia e não é apenas um problema da Itália", declarou o italiano, que ligou para François Hollande, Angela Merkel e David Cameron ontem pedindo apoio.

"Essa é uma questão política diante de um massacre. Não podemos usar uma visão burocrática de que esse é um problema de outros. Não podemos mais usar de demagogia. Estamos diante de uma grande pressão internacional", alertou Renzi.

Mas a proposta italiana tem encontrado resistência pelos países do norte que preferem não ter a responsabilidade de receber esses imigrantes. "Temos dito muitas vezes a frase "Nunca Mais", declarou Federica Mogherini, chefe da diplomacia da UE. "Chegou a hora de que a Europa trate dessas tragédias sem demoras", defendeu. Amanhã, os ministros de Relações Exteriores do bloco se reúnem para lidar com o caso.

"O que está ocorrendo tem proporções épicas", alertou o primeiro-ministro de Malta, Joseph Muscar. "Se a Europa continuar a se fazer de cega, seremos todos julgados da mesma forma que a Europa julgou a Europa quando virou a cada diante do genocídio", alertou.

Em Paris, Hollande preferiu mudar o foco do debate, preferindo atacar os grupos criminosos que organizam as travessias. Para ele, se de fato um reforço do resgate precisa ocorrer, ele também defende que haja "uma luta ainda mais intensa contra as pessoas que colocam os imigrantes nos barcos".  "Eles são traficantes e até terroristas", disse.

Renzi também deixou claro que a luta passa por um diálogo com o governo da Líbia para tentar conter a saída de imigrantes e lutar contra os traficantes. "Esse é o novo tráfico de escravos", disse. "Não adiante apenas colocar mais dez barcos para resgatar. No momento da tragédia, havia um barco atuando no resgate. Precisamos impedir que essas pessoas saiam de seus portos. Se não solucionarmos a situação líbia, não haverá uma solução", insistiu.

Na Líbia, que vive um caos político, apenas três navios estão em funcionamento para monitorar a costa. Emu ma semana, mais de 60 barcos de imigrantes deixaram sua costa.

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