Spencer Platt/Getty Images/AFP
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Navio-hospital com mil leitos enviado a Nova York está vazio

Embarcação da Marinha foi enviada para atender pacientes sem coronavírus, mas emaranhado de protocolos militares e obstáculos burocráticos impediu o USNS Comfort de aceitar pacientes

Michael Schwirtz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 09h44

NOVA YORK - Quando o navio-hospital USNS Comfort, da Marinha americana, chegou ao porto de Nova York na última segunda-feira, 30, uma verdadeira multidão de pessoas esqueceu por um tempo as restrições do distanciamento social e se amontoou  ao longo do lado oeste de Manhattan para ver sua chegada.

Na quinta-feira, 2, no entanto, o enorme navio branco com 1000 leitos que as autoridades haviam prometido que traria socorro a uma cidade à beira do abismo estava quase vazio, enfurecendo executivos de hospitais locais. 

Apenas 20 pacientes foram transferidos para o navio, disseram autoridades, enquanto os hospitais de Nova York lutavam para encontrar espaço para os milhares infectados pelo coronavírus

O Comfort foi enviado a Nova York para aliviar a pressão nos hospitais da cidade, para tratar pessoas com outras doenças, que não estejam com Covid-19, a doença causada pelo coronavírus.

Mas a realidade tem sido diferente. Um emaranhado de protocolos militares e obstáculos burocráticos impediu o Comfort de aceitar muitos pacientes.

As 1.000 camas do navio não são utilizadas, assim como suas 12 salas de cirurgia, e sua tripulação de 1.200 médicos e enfermeiros militares fica ociosa quase todo o tempo.

A dificuldade para transferir os pacientes para o navio e para a internação de suspeitos de coronavírus pelos militares revoltou muitos funcionários da saúde e executivos da rede de hospitais de Nova York. 

“Vou ser franco, isso é uma piada”, disse Michael Dowling, chefe da Northwell Health, o maior sistema hospitalar de Nova York. “Todos podem dizer: 'Obrigado por montar esses lugares maravilhosos e abrir esses salões cavernosos'. Mas estamos em uma crise aqui, estamos em um campo de batalha, e não podemos demorar a atender pacientes”, disse ele ao jornal The New York Times. 

O caso não é único. Outro navio-hospital da Marinha, o USA Mercy, ancorado em Los Angeles, teve um total de 15 pacientes.

Além de suas rígidas regras que impedem as pessoas infectadas com o vírus de embarcar, a Marinha também se recusa a tratar uma série de outras condições. As diretrizes divulgadas aos hospitais incluíram uma lista de 49 condições médicas que impediriam um paciente de ser internado no navio.

Ambulâncias não podem levar os pacientes diretamente ao Comfort; eles devem primeiro levar os pacientes a um hospital da cidade para uma longa avaliação - incluindo um teste para o vírus - e depois buscá-los novamente para o transporte até o navio.

Em um briefing matinal na quinta-feira, 2, as autoridades disseram que três pacientes foram transferidos para o Comfort. Depois que o New York Times publicou um artigo com esse número, Elizabeth Baker, porta-voz da Marinha, disse que o número havia aumentado para 20 no final do dia. "Estamos trazendo eles o mais rápido que pudermos", disse ela.

Revolta entre profissionais da saúde

Os administradores de hospitais de Nova York estão exasperados com os atrasos.Dowling disse que teve que destruir seus hospitais, adaptando qualquer espaço não utilizado, incluindo lobbies e salas de conferências, em enfermarias. Suas instalações agora abrigam 2.800 pacientes com Covid-19. Em 20 de março eram 100. Cerca de 25% deles estão em condições graves em unidades de terapia intensiva.

Em toda a cidade, os hospitais estão tomados. Os pacientes morrem nos corredores antes mesmo de poderem ser conectados aos poucos ventiladores disponíveis em Nova York. Médicos e enfermeiros, que tiveram que usar o mesmo equipamento de proteção repetidamente, estão ficando doentes. Tantas pessoas estão morrendo que a cidade está ficando sem sacos de cadáveres.

Ao mesmo tempo, não há um grande volume de pacientes sem coronavírus. Como a maioria dos nova-iorquinos se isolou em suas casas, há menos lesões por acidentes de carro, tiros e acidentes de construção que exigiriam uma visita à sala de emergência.

Por fim, Dowling e outros disseram que, se o Comfort se recusar a atender pacientes da Covid, haverá poucos pacientes a serem enviados. E, dada a disseminação da doença na cidade de Nova York, onde quase 50.000 foram infectados na quinta-feira, dividir os pacientes entre aqueles que têm coronavírus e aqueles que não têm é inútil, disse ele.


A solução, para Dowling e outros epidemiologistas, era abrir o Comfort para pacientes com Covid-19. "É muito ridículo", disse Dowling. "Se você não vai nos ajudar com as pessoas com quem precisamos de ajuda, qual é o objetivo?"

Pedido para atender pacientes com coronavírus

Questionado sobre as críticas de Dowling, o Departamento de Defesa se referiu às declarações de Trump sobre o Comfort em seu briefing diário. O presidente disse apenas que o navio não estava aceitando pacientes com o coronavírus.

No final da quinta-feira, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, chegou a um acordo com Trump para levar pacientes do Covid ao Javits Convention Center, em Manhattan, outro local alternativo operado pelos militares, com 2.500 leitos hospitalares.

"Pedi ao presidente Trump nesta manhã que considerasse o pedido e a urgência do assunto, e o presidente acabou de me informar que concordou com nosso pedido", disse Cuomo em comunicado.

Não houve comentário sobre fazer o mesmo com o navio. O capitão Patrick Amersbach, comandante da equipe médica a bordo do Comfort, disse em uma entrevista coletiva que, por enquanto, suas ordens eram para aceitar apenas pacientes com resultado negativo para o vírus. Se ordenado a aceitar pacientes com coronavírus, ele disse, o navio pode ser reconfigurado para que isso aconteça.

"Se nossa missão mudar, faremos o possível para cumpri-la", disse ele. Desde o início, preparar o navio hospital para uso em uma pandemia provou ser um desafio. O Comfort foi construído para operar em condições de campo de batalha, e seus médicos acostumados a tratar soldados jovens e saudáveis ​​que sofrem ferimentos relacionados a tiros e explosões de bombas. 

A maioria das pessoas hospitalizadas com o Covid-19 é mais velha e infectada com um novo patógeno que nem mesmo os principais pesquisadores médicos do mundo compreendem.

Qualquer surto a bordo pode se espalhar e desativar rapidamente as operações do navio. Como precaução, a tripulação do navio isolou-se por duas semanas antes de embarcar em sua missão em Nova York. Eles devem permanecer a bordo pelo período de sua missão.

O navio lutou para cumprir missões civis no passado. Depois que o furacão Maria atacou Porto Rico em 2017, o Comfort foi enviado para aliviar hospitais excessivamente lotados, mas acabou tratando apenas um punhado de pacientes por dia.

Um médico militar que já havia servido nos navios-hospitais da Marinha disse em entrevista que as condições a bordo eram adequadas para soldados, mas, com suas macas estreitas em vez de camas de hospital modernas, não era ideal para tratar civis.

Embora os médicos militares estejam acostumados a situações no campo de batalha, eles são bem treinados e devem ser capazes de lidar com os doentes da pandemia se ordenadas a tratar pacientes com o coronavírus, disse ele.

"Como médicos militares", ele disse, "eles fariam o melhor possível".

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