Foto de satélite mostra o navio iraniano MV Saviz na cota do Iêmen Planet Labs Inc. via AP
Foto de satélite mostra o navio iraniano MV Saviz na cota do Iêmen Planet Labs Inc. via AP

Navio iraniano é danificado por minas israelenses no Mar Vermelho, afirma NYT

Ataque coincidiu com o início das conversas para a retomada do acordo nuclear de 2015, abandonado pelo ex-presidente americano Donald Trump e ao qual Israel se opõe

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2021 | 14h45

TEERÃ — Um navio iraniano foi atacado no Mar Vermelho, disse a chancelaria do país, no mesmo dia em que Teerã e as principais potências globais, com a participação indireta dos Estados Unidos, se sentaram à mesa para discutir uma retomada do acordo nuclear de 2015

De acordo com o The New York Times, o incidente foi aparentemente causado por minas israelenses, em um novo capítulo das hostilidades navais que têm caracterizado a relação entre Teerã e Tel Aviv.

Israel, que tem a República Islâmica como adversária, opõe-se à retomada do pacto, que começou a se esfacelar após a saída dos EUA, em 2018, durante o governo do ex-presidente Donald Trump. Para o país do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, os termos do acordo são demasiadamente brandos e pró-Irã.

O navio, identificado como Saviz, foi atacado perto da costa do Djibouti por volta de 6h da manhã de terça-feira (cerca de meia-noite, horário de Brasília), segundo a Chancelaria iraniana, e sofreu poucos danos. A agência de notícias estatal Tasnim afirmou que as minas teriam sido postas na parte externa do casco. Não houve vítimas fatais.

O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Saeed Khatibzadeh, disse que a causa da explosão está sob investigação. A embarcação, afirmou o representante, é um cargueiro não militar que auxilia na segurança da rota e em operações antipirataria, enviando botes para escoltar embarcações comerciais.

Um relatório de 2020 do Instituto Naval dos EUA, no entanto, identifica o navio como um barco à paisana da Guarda Revolucionária.

Israel não comentou diretamente o incidente, mas raramente assume ou nega a responsabilidade em ações diretas contra o Irã. Um funcionário do governo americano, no entanto, disse ao New York Times que Tel Aviv notificou Washington que suas forças haviam atacado o navio cerca de 1h30 depois do incidente.

“Nós temos sistemas de ataque operando 24 horas por dia, sete dias na semana, 365 dias por ano, e estamos prontos para entrar em ação em qualquer arena e em qualquer distância”, disse ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, segundo o site Maariv, quando indagado sobre a questão.

Mudança de ambiente

Segundo a fonte do jornal nova-iorquino, que falou em condição de anonimato devido ao sigilo das informações, o ataque contra o Saviz, danificado apenas acima da linha d'água, foi uma retaliação.

Em 25 de março, um cargueiro israelense, o Lori, foi atingido por um míssil iraniano no Mar Arábico, segundo funcionários do governo. Não houve mortes ou dados significativos. Dez dias antes, Teerã havia culpado Israel por uma explosão em um de seus cargueiros no Mar Mediterrâneo.

As rusgas marítimas entre Israel e Irã se intensificaram após a saída americana do pacto nuclear. Desde 2019, Israel vem atacando navios petroleiros e cargueiros iranianos no Mediterrâneo e no Mar Vermelho em uma guerra secreta que antes era limitada à terra e ao ar. 

A campanha é parte dos esforços israelenses para conter o avanço da influência iraniana no Oriente Médio e bloquear as tentativas de Teerã de driblar as sanções americanas à sua indústria petrolífera.

Segundo o funcionário do governo americano ouvido pelo NYT, é possível que a represália israelense tenha sido adiada para que o porta-aviões americano Dwight Eisenhower abrisse uma distância maior do Saviz. Na ocasião do ataque, havia cerca de 320 km entre os navios.

À Bloomberg, o chefe do Centro de Pesquisa sobre Políticas e Estratégias Marinhas da Universidade de Haifa, Shaul Chorev, disse crer que a ação de Tel Aviv provavelmente não tinha por fim atrapalhar as negociações nucleares. Ele crê que se tratou de um alerta para que Teerã não faça mais ataques contra navios israelenses e que se deve esperar uma represália.

Segundo o professor, cerca de um terço de todas as exportações israelenses passam pelo Mar Vermelho e pelo Golfo de Adem, entre a Somália e o Iêmen. Garantir a segurança de todos estes navios, ele ressaltou, é uma tarefa hercúlea. /NYT, AP e REUTERS

 

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