REUTERS/Ammar Awad
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Nazaré preserva suas tradições árabes perto do Natal 

Manter costumes é particularmente importante na maior cidade árabe de Israel em um ano no qual muitos acham que suas comunidades foram afetadas negativamente pela nova legislação israelense sobre Estado-nação  

O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2018 | 05h00

NAZARÉ - Enquanto Nazaré é enfeitada para o Natal, um grupo de tecelões se reúne nas ruas de paralelepípedos da maior cidade árabe de Israel, com a intenção de preservar sua herança palestina no momento em que suas comunidades se sentem sob pressão. 

Acima das mulheres cristãs e muçulmanas que dispunham seus estandes de bordados, os operários amarravam as luzes da festa natalina na Igreja de São Gabriel. A fonte subterrânea da igreja, de acordo com a tradição ortodoxa grega, é o local onde Maria tirava água, durante a Anunciação - quando o anjo Gabriel lhe disse que ela daria à luz Jesus. 

A forma mais comum de bordado em exibição era "tatreez", uma forma secular de ponto-cruz bordado em telas brancas, que é comum a comunidades árabes em Israel, e em cidades palestinas na Cisjordânia e em Gaza. 

“Há um sentimento de que nós, os cidadãos palestinos de Israel, estamos começando a perder nossa identidade, nossa língua e nossa herança”, disse Violette Khoury, diretora da Nasijona, uma associação de mulheres que realiza oficinas de Natal para ensinar bordado às gerações mais jovens. 

“Em nossas escolas, as crianças não aprendem essas tradições. Elas não aprendem sua história", acrescentou Khoury. “Então, decidimos trazer pessoas da geração mais antiga, muitas das quais nasceram antes de Israel, para o workshop de ensinar trabalhos tradicionais aos nossos jovens.” 

Manter as tradições de seus idosos é particularmente importante, dizem as mulheres, em um ano no qual muitos acham que suas comunidades foram afetadas negativamente pela nova legislação israelense. 

Este ano, Israel aprovou uma lei de "Estado-nação", declarando que apenas os judeus têm o direito de autodeterminação na “pátria histórica do povo judeu” e retirando o árabe como língua oficial ao lado do hebraico. 

Os defensores da lei dizem que ela é basicamente simbólica, marcando o 70º aniversário da independência do Estado. Quando foi aprovada em julho, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu disse ao Parlamento que era um “momento decisivo nos anais do sionismo e na história do Estado de Israel”. 

Racista

Mas os críticos chamaram a lei de uma medida racista. Muitos dentro da minoria árabe de 20% de Israel dizem que suas comunidades enfrentam discriminação em áreas como educação, saúde e moradia. 

Nazaré é o ponto focal da minoria árabe de Israel, que compreende principalmente descendentes dos palestinos que permaneceram depois da guerra árabe-judaica de 1948 que cercou a criação do Estado de Israel. 

A integração daqueles que permaneceram no que se tornou Israel - alguns dos quais se identificam abertamente como palestinos - é tema de debate dentro do país. 

A própria Nazaré se torna uma atração para todas as comunidades na proximidade do Natal, pois as principais praças da cidade ficam lotadas de famílias e hordas de turistas e peregrinos que querem ver a iluminação da árvore de Natal e a decoração. 

“Essa árvore é um sinal de paz. É um acontecimento muito importante para os cristãos e moradores de Nazaré e da região da Galileia”, disse Efaf Touma, presidente do Conselho Comunitário de Nazaré. “Simboliza nossa presença, que ainda estamos vivendo aqui” disse ela. (Tradução de Claudia Bozzo) / REUTERS  

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