Necessidade de diplomacia

Crise na Ucrânia só terá solução satisfatória se Washington e Moscou retomarem diálogo

JACK F. MATLOCK JR. , THOMAS R. PICKERIN, JAMES COLLINS , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2014 | 02h02

A crise envolvendo a Ucrânia quase congelou a comunicação oficial entre Estados Unidos e Rússia. A reação russa à sublevação política em Kiev - a absorção da Crimeia e a intervenção no leste da Ucrânia - e as repostas americanas a essas ações provocaram uma ruptura quase total no diálogo normal e regular entre Washington e Moscou. As relações entre as duas capitais ficaram limitadas a tentativas de cada lado de pressionar o outro, ações retaliatórias, declarações estridentes e à redução do contato entre os governos e sociedades.

Relatórios da reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) realizada no começo do mês em Newport, País de Gales, indicam que os EUA e seus aliados reagirão à intervenção e à violência da Rússia na Ucrânia com uma escalada do seu lado - incluindo novas sanções, maior presença militar em Estados na linha de frente, e, possivelmente, mais apoio às Forças Armadas da Ucrânia. Isso significa apenas mais do mesmo com pouca, se alguma, garantia de resultados melhores.

Diplomacia. O que falta à estratégia ocidental é uma abordagem diplomática igualmente vigorosa para pôr fim ao conflito. Os esforços diplomáticos deveriam ter por objetivo prover a Ucrânia e seus vizinhos de um futuro capaz de manter a paz e a segurança para todos os países da região, restabelecer o respeito aos princípios centrais da ordem política europeia e abrir o caminho para relações russo-americanas mais produtivas.

Na condição de ex-embaixadores americanos que serviram em Moscou, acreditamos que chegou a hora de a liderança dos EUA fazer um sério esforço diplomático para alcançar esses fins. Cada um de nós viu o alto preço que pagamos quando as relações e o diálogo entre Washington e Moscou foram rompidos, como no esforço para impedir a independência báltica no fim da era soviética, a crise de Kosovo e a insurgência na Chechênia.

Sempre que as relações foram rompidas, houve um alto custo para a causa da paz e da segurança tanto para os EUA como para a Rússia, e também para os aliados de ambos. Nossa experiência nos convence de que uma diplomacia criativa, disciplinada, séria e ativa - por canais tanto oficiais como extraoficiais - proporciona um meio de sair de crises destrutivas e da dependência de violência e confronto. O chamado diálogo Track 2 entre atores que não são Estados - especialistas e grupos de ambos os lados - também pode desempenhar um papel útil.

Por enquanto, felizmente, um acordo de cessar-fogo anunciado há pouco mais de uma semana pelo presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, e pelo presidente russo, Vladimir Putin, parece estar sendo cumprido.

Também é encorajador que as partes tenham começado uma discussão sobre como manter a paralisação dos combates e enfrentar as questões políticas que precisam ser acertadas para se chegar a um acordo duradouro.

Há muitas razões para tratar com cautela essa abertura. Mas não se deve deixar que a oportunidade potencial seja perdida. Este é um momento em que a liderança americana será essencial. Os termos de qualquer cessar-fogo duradouro precisam incluir, é claro, que quantidades adequadas de observadores internacionais, mais especificamente da Organização para Segurança e Cooperação na Europa, assegurem que nenhum lado tire vantagem indevida da interrupção dos combates.

Qualquer acordo duradouro também precisará reforçar o frágil processo político já iniciado, que deve envolver a busca de acordo sobre um tratamento justo e igual, de representação política adequada de todos os ucranianos; de respeito à soberania sobre território ucraniano, e de cooperação internacional para reconstruir a economia.

Moderação. O apoio firme e inabalável dos EUA a esses princípios será crucial para o sucesso de qualquer negociação. A retomada de um diálogo regular entre Moscou e Washington será central para a recuperação das relações.

Felizmente, a chegada a Moscou do novo embaixador americano, John F. Tefft, oferece uma abertura para melhorar a comunicação e o diálogo. Experiente diplomata de carreira que serviu na Lituânia, na Geórgia, na Ucrânia, e também na Rússia, Tefft leva a Moscou a capacidade de exprimir claramente as opiniões e posições americanas e de ouvir e explicar o pensamento russo a Washington. Sua chegada dá a ambos os governos uma oportunidade de reconstruir suas relações e se afastar da atual rota de confronto.

Revigorar a diplomacia russo-americana será difícil. Os efeitos negativos da crise da Ucrânia fazem parte de uma retração mais ampla nas relações nos últimos anos. A escalada de violência na Ucrânia e os crescentes apelos entre europeus e americanos a uma ação mais contundente e sanções mais duras para confrontar a atividade militar russa, aumentaram a perspectiva de mais escalada e maior retração das relações bilaterais.

Apesar de porta-vozes e líderes em Washington terem sugerido que a Rússia tem uma "rampa de saída" para se livrar da situação presente - e de os EUA estarem dispostos a cooperar nesse esforço -, o caminho é cheio de pedras e, em grande parte, desconhecido. Sanções adicionais, maior pressão militar e escalada no campo de batalha por si sós não ajudarão na rota do progresso.

Somente o uso da diplomacia pode ajudar Poroshenko a se beneficiar de novas aberturas para definir as relações de seu país com seus vizinhos, restaurar a soberania ucraniana e conseguir o fim permanente do derramamento de sangue. Sanções e novos esforços para aumentar a pressão política e militar, e a dependência de uma ação unilateral sem uma concomitante diplomacia, praticamente garantirão a continuação do sofrimento do povo ucraniano.

É hora de os EUA usarem seu capital diplomático, incluindo o novo embaixador em Moscou, para assumir uma liderança ativa nos esforços diplomáticos para resolver a crise da Ucrânia e estabelecer relações americanas com a Rússia num curso novo e mais produtivo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

JACK F. MATLOCK JR. FOI EMBAIXADOR DOS EUA NA UNIÃO SOVIÉTICA DE 1987 A 1991. THOMAS R. PICKERING FOI EMBAIXADOR DOS EUA NA RÚSSIA DE 1993 A 1996 E JAMES COLLINS, DE 1997 A 2001

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