Necessitamos de protestos no mundo muçulmano

Pouco adiantaria Obama estar na multitudinária e inútil manifestação das vítimas em Paris; ele deveria ter coragem de inibir relação saudita com radicais

THOMAS L. FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2015 | 02h02

O presidente Barack Obama foi criticado por não participar ou ao menos enviar um substituto adequado à gigantesca manifestação contra o terrorismo em Paris no domingo. A crítica é correta. Mas é normal na política americana atual concentrar-se nessas discussões e não no que faria o mundo sentir de fato que a ameaça jihadista finalmente é enfrentada seriamente.

Não seria um protesto liderado pelo presidente americano, no qual ele não está de modo nenhum envolvido. Mas uma manifestação de milhões de pessoas contra os jihadistas em todo o mundo árabe-muçulmano organizada por árabes e muçulmanos para árabes e muçulmanos sem nenhuma convocação do Ocidente - não só em razão do que ocorreu em Paris, mas dos inúmeros muçulmanos recentemente assassinados por jihadistas em países como Paquistão, Iêmen, Iraque, Líbia, Nigéria e Síria.

Abdul Rahman al-Rashed, um dos mais respeitados jornalistas árabes, escreveu em sua coluna de segunda-feira no Al-Sharq Al-Awsat que "os protestos contra os recentes ataques terroristas na França deveriam ocorrer nas capitais muçulmanas e não em Paris, porque, neste caso, são os muçulmanos que estão envolvidos nessa crise e também os acusados.

A história do extremismo inicia-se nas sociedades muçulmanas e foi com o seu apoio e silêncio que o radicalismo se transformou no terrorismo que vem atingindo a população. Inútil os franceses, que foram as vítimas no caso, saírem às ruas. É preciso que as comunidades muçulmanas rejeitem os crimes em Paris e o extremismo em geral.

A verdade é que há uma enorme ambivalência com relação a todo o fenômeno jihadista no mundo árabe-muçulmano, na Europa e nos EUA. Esta ambivalência começa na comunidade muçulmana, onde observamos uma profunda divisão sobre o que é hoje o Islã autêntico.

Nós nos enganamos quando dizemos aos muçulmanos qual é o "Islã verdadeiro". Porque o Islã não é o Vaticano e não há uma fonte de autoridade religiosa. Existem muitos Islãs atualmente. A linha puritana wahabista/salafista/jihadista constitui um deles e tem mais apoio do que acreditamos.

A ambivalência também toma conta da Europa quando o assunto é o que um país deve exigir dos novos imigrantes muçulmanos para aceitar os valores desse país. George Friedman, de Stratfor, está certo ao afirmar que os europeus aceitaram o multiculturalismo exatamente porque na verdade não queriam absorver seus imigrantes muçulmanos e muitos deles, que foram para a Europa em busca de emprego e não de uma nova identidade, não quiseram ser absorvidos? Se é este o caso, isso significa problemas.

Dependência. A ambivalência também envolve as relações de Washington com a Arábia Saudita. Desde que os jihadistas tomaram o templo sagrado do Islã em Meca em 1979, proclamando que os dirigentes sauditas não eram suficientemente devotos, a Arábia Saudita multiplicou seu engajamento com o Islã wahabista ou salafista - a versão mais puritana, antipluralista e antifeminista desta crença.

Esta mudança para a direita dos sauditas - combinada com receitas de petróleo usadas para construir mesquitas, websites e madrassas de inspiração wahabista em todo o mundo muçulmano, empurrou a comunidade sunita inteira para a direita. Basta ver uma foto de mulheres formadas na Universidade do Cairo em 1950. Poucas usavam véus. Mas hoje estão usando véus. Essa corrente do Islã aberta e branda que prevaleceu no Egito por séculos - orar cinco vezes por dias, mas acompanhado depois de uma cerveja à noite - foi enrijecida por essa corrente wahabista da Arábia.

Os presidentes dos EUA nunca discutiram com a Arábia Saudita o assunto por sua dependência do petróleo. Como já disse, dependentes nunca dirão a verdade para seus dealers. O governo saudita opõe-se aos jihadistas. Infelizmente contudo, é um passo muito curto do Islã wahabista para o violento jihadismo praticado pelo Estado Islâmico. Os terroristas franceses nasceram na França, mas mergulharam nas ideias salafistas e wahabistas pela internet e mesquitas locais - não nas de Voltaire.

Além do que, a outra guerra civil no Islã - entre sunitas e xiitas - levou muitos regimes, mesquitas e entidades beneficentes sunitas a apoiar os grupos jihadistas porque são combatentes ferozes contra os xiitas. Finalmente, ambivalentes também foram os 60 anos de aliança tácita entre os ditadores árabes e o seu clero religioso sunita. Os regimes financiaram esses clérigos muçulmanos sem inspiração religiosa que, por seu lado, abençoaram ditadores também nada inspirados e ambos refrearam o surgimento de um Islã reformador, inspirado, autêntico, que enfrentasse o wahabismo-salafismo, apesar de muitos muçulmanos assim o desejarem. Uma reforma autêntica exige um espaço de liberdade no mundo árabe-muçulmano.

"Os muçulmanos precisam de um upgrade no seu software, que está programado principalmente por nossas escolas, nossa TV e nossas mesquitas - especialmente as pequenas mesquitas que negociam o que é proibido", afirmou o intelectual egípcio Mamoun Fandy no Al-Sharq Al-Awsat. "Não existe outra alternativa senão desmantelar esse sistema e reconstruí-lo para ser compatível com a cultura e os valores humanos."

Em resumo, é fácil condenar o fanatismo jihadista, mas serão necessárias múltiplas revoluções para sufocá-lo - revoluções que exigirão que muitas pessoas no mundo árabe-muçulmano e no Ocidente abandonem sua ambivalência e deixem de fazer jogo duplo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Thomas L. Friedman é colunista

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.