Shizuo Kambayashi/AP
Shizuo Kambayashi/AP

Negar ao Estado Islâmico o que ele quer

Atos recentes de terror na Europa poderiam fazer governos e indivíduos tratarem todos os muçulmanos como perigosos

Fareed Zakaria, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 02h04

Novamente, um assassinato do Estado Islâmico (EI) provoca temores de que o grupo esteja vencendo - e leva a pedidos por mais ações. Bret Baier, da Fox News, captou o clima quando disse o seguinte sobre o último vídeo de execução divulgado pelo grupo: "Pavoroso e bárbaro - e também calculado e competente em propaganda high-tech". O sentimento é de que o EI está conquistando terreno com métodos brutais e diabólicos.

Estará mesmo? Examinemos a sequência de fatos que levaram a esse mais recente vídeo abjeto. O EI fez reféns dois japoneses - uma escolha curiosa, dado que o Japão é completamente tangencial ao Oriente Médio. Os terroristas pediram a Tóquio um resgate de assombrosos US$ 200 milhões. Isso sugere que a alardeada máquina de fazer dinheiro do EI pode não estar funcionando tão bem como muitos acreditam.

Tóquio se recusou a pagar e isso deixou os terroristas com reféns que não tinham qualquer valor. Executaram um e se ofereceram para soltar o outro se o governo jordaniano libertasse a terrorista Sajida al-Rishawi. Isso foi um duplo enigma. O Japão não exerce nenhuma grande influência sobre a Jordânia e Rishawi era uma terrorista suicida, em grande parte esquecida, de um episódio de antes até da existência do EI. Isso sugeriu um esforço para criar uma nova exigência quando a principal foi rejeitada. A Jordânia analisou a possibilidade de incluir na barganha seu piloto capturado, o tenente Moaz al-Kasasbeh, e o EI parecia estar negociando, mas as autoridades jordanianas agora acreditam que o piloto havia sido morto semanas antes.

O vídeo do piloto sendo queimado até a morte pode ser um disfarce para mascarar uma operação que desandou. O EI certamente não poderia ter imaginado a resposta que ele causou no Oriente Médio, com jordanianos se unindo, clérigos de toda a região condenando em alto e bom som a execução e o Japão se apressando para dar mais apoio e respaldo contra o grupo.

Enquanto isso, as notícias do campo de batalha não têm sido boas para o EI. O pesquisador Kenneth Pollack, da Brookings Institution, alerta para a "espantosa inversão" que os extremistas enfrentaram no Iraque, o que poderia explicar a brutalidade da mais recente execução e do vídeo. O grupo compreende perfeitamente o propósito principal do terrorismo, que é induzir medo e reações desatinadas.

Quando surgiu o terrorismo moderno no Oriente Médio nos anos 1960 e 1970, o historiador David Fromkin escreveu um ensaio na Foreign Affairs que talvez seja o melhor guia condensado para compreender o fenômeno. Ele assinalou que, desde seu princípio, após a Revolução Francesa, o terrorismo tem sido uma estratégia do fraco, destinado a projetar uma força falsa e, sobretudo, desnortear os espectadores.

Fromkin ofereceu dois exemplos que propiciam lições poderosas. Relatou uma reunião, em 1945, com um líder do Irgun, um grupo de cerca de 1,5 mil militantes judeus na Palestina, que na época fazia parte do Império Britânico. O Irgun sabia que não poderia derrotar o poderoso Exército da Grã-Bretanha, por isso, decidiu explodir prédios e criar uma aparência de caos. "Isso, o líder do Irgun disse, levaria os britânicos a reagirem com exagero guarnecendo o país de tropas", trazendo soldados de todo o império, o que pressionaria os cofres britânicos a ponto de Londres, enfim, abandonar a Palestina. Fromkin notou que "o Irgun, vendo que era pequeno demais para derrotar a Grã-Bretanha, decidiu, como uma abordagem alternativa, que a Grã-Bretanha era grande o bastante para derrotar a si própria."

A estratégia do EI é certamente uma versão dessa. A escolha dos EUA e seus aliados como alvos, os vídeos e a barbárie, tudo isso é destinado a atrair Washington para a batalha terrestre na Síria - na esperança de que essa guerra complexa, sangrenta e prolongada mine o vigor da superpotência.

Outro exemplo de Fromkin: a Frente de Libertação Nacional (FLN), organização nacionalista que lutava para libertar a Argélia da França nos anos 50 e 60. O governo de Paris argumentava que a Argélia não era uma colônia e sim parte da França, com todos seus cidadãos tratados como homens e mulheres franceses.

A FLN começou, então, uma campanha de terror para provocar uma reação exagerada particular do governo francês - fazê-lo considerar suspeitos todos os argelinos muçulmanos. "Os franceses achavam que a FLN plantava uma bomba em um ônibus público para explodir o ônibus, quando o verdadeiro propósito da FLN não era explodir o ônibus, mas provocar uma reação exagerada das autoridades levando-as a prender como suspeitos todos os não europeus da área."

Os muitos atos recentes de terror cometidos na Europa não têm por trás uma estratégia coerente, mas poderiam fazer governos e indivíduos europeus tratarem todos os muçulmanos da Europa como suspeitos e perigosos - e, com isso, os jihadistas e terroristas terão alcançado um objetivo importante.

As coisas não precisam ser assim. Fromkin concluiu seu ensaio observando que, "embora o terrorismo nem sempre possa ser previsto, ele sempre pode ser derrotado". "Nós sempre podemos nos recusar a fazer o que eles querem que façamos." TRADUÇÃO DE CELSO PACIONIRK

*Fareed Zakaria é colunista

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