Mark Baker / AP
Mark Baker / AP

Negar publicidade ao terror é melhor caminho para lidar com ataques

A atitude da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, de não mencionar o nome do terrorista que matou 50 pessoas levanta a discussão sobre a divulgação de atos de terror

RICK NOACK THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2019 | 05h00

Falando ao Parlamento na terça-feira, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, tomou uma atitude decisiva ao negar ao atirador de Christchurch, que matou 50 pessoas, a atenção pela qual ele ansiava. “Quando eu citá-lo, ele não terá nome. E imploro a todos que digam os nomes daqueles que perderam as vidas, não do terrorista que as tirou. Ele pode estar em busca de notoriedade, mas aqui na Nova Zelândia não lhe daremos isso. Não diremos nem mesmo seu nome.”

A atitude de Ardern em não divulgar nomes de terroristas ou dar enfoque a eles não é propriamente nova. Alguns pesquisadores argumentam que o terrorismo não existiria sem a publicidade que a mídia lhe proporciona ao divulgar suas ações e suas ideologias. Através das décadas, a busca dos terroristas por manchetes resultou em ataques planejados sob medida para a TV – como o do 11 de Setembro –, ou para a mídia social, como foi o de Christchurch. 

Em vários países, suspeitos de terrorismo foram acusados em julgamentos secretos para evitar publicidade e impedir que detalhes importantes de segurança nacional se tornassem públicos.

Desde que surgiu, no século 19, o terrorismo contemporâneo vem tendo cobertura da imprensa. E desde que essa cobertura começou vem sendo travado um debate sobre seus excessos e falhas.

Jornalistas são, com frequência, criticados por dar aos terroristas o “oxigênio da publicidade” ao noticiar sua motivação e suas exigências. Mas o ataque terrorista de direita ocorrido em Christchurch assinala uma grande mudança. Terroristas não precisam mais de jornalistas, uma vez que têm um milhão de pessoas para baixar suas mensagens por eles. 

O Facebook disse que removeu mais de 1,5 milhão de versões do vídeo que o terrorista fez de seus ataques a duas mesquitas de Christchurch. Outras plataformas, como YouTube e Twitter, igualmente lutaram para conter o alastramento da imagem. Ao mesmo tempo, usuários da internet em todo o mundo liam o manifesto do atacante, no qual ele divulgava sua visão de mundo sob a forma de perguntas e respostas.

O ataque de sexta-feira deu a um dilema moral, que antes afetava principalmente jornalistas, uma amplitude que alcança quase todos que tenham acesso à mídia social. Onde ficam limites entre postar um ataque e condená-lo – e, sem intenção, ajudar no mesmo processo a espalhar a mensagem dos criminosos?

Analistas de terrorismo sustentam que discutir os motivos e a trajetória de indivíduos para a radicalização é crucial para se entender como funcionam os ataques e como preveni-los no futuro. Eles argumentam que as democracias, particularmente, deveriam ter o fundamental interesse em descobrir por que algumas pessoas em seu meio sentem a necessidade de recorrer a táticas violentas para atingir seus objetivos ideológicos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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