Negociando com o Grande Satã

As consequências do acordo sobre o programa nuclear do Irã para a instabilidade no Oriente Médio

O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2015 | 02h01

Quatro locais, quatro imagens destoantes de um relacionamento. Em Lausanne, na condição de parceiros diplomáticos, as delegações de Irã e EUA acham-se confortavelmente instaladas no hotel Beau-Rivage. Depois de oito dias de conversações, chegam a um acordo que restringe consideravelmente o programa iraniano de enriquecimento de urânio, em troca de uma suspensão gradual das sanções hoje impostas ao país.

Em Teerã, os iranianos assistem ao pronunciamento que Barack Obama profere na Casa Branca para explicar as razões do acordo. É a primeira vez que o pronunciamento de um presidente americano é exibido ao vivo na TV iraniana.

Em Tikrit e nos céus sobre a cidade, os dois países são aliados extraoficiais. Na guerra contra os jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico (EI), Washington entra com o poderio aéreo e Teerã contribui com forças terrestres, formadas sobretudo por milícias xiitas.

No Iêmen, os dois países se enfrentam por meio de "terceiros". Os EUA fornecem inteligência e apoio logístico à coalizão militar que os sauditas organizaram para repelir os houthis - xiitas apoiados pelo Irã.

Que imagem se aproxima mais da realidade? Seriam americanos e iranianos novos velhos amigos ou estariam os dois países fadados a uma inimizade eterna? A resposta à questão confere cores distintas a qualquer avaliação que se faça do esboço de acordo nuclear a que chegaram na quinta-feira as potências do grupo P5+1 - EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha, França e Alemanha - e o Irã, depois de extensa rodada de negociações. Se a República Islâmica continuar sendo uma ameaça regional, legitimar sua condição de Estado pré-nuclear é um preço alto a pagar pela pequena ampliação do período de tempo que o país precisaria para enriquecer a quantidade de urânio necessária à fabricação de uma bomba, caso resolvesse entrar de vez para o clube das potências nucleares. Mas se o acordo for uma demonstração de uma nova responsabilidade pós-revolucionária por parte dos iranianos, então é o início de um relacionamento mais harmonioso entre dois países cuja rivalidade teve consequências trágicas para a região, mas cujos interesses podem, pelo menos em alguns lugares, estar alinhados.

Por mais importantes que sejam, cláusulas sobre centrífugas, barras de combustível e regimes de inspeção não são a história toda. Há também muita História. A revolução islâmica de 1979 provocou uma mudança radical nas relações dos EUA com o Oriente Médio. A partida do xá, a chegada triunfal do aiatolá Ruhollah Khomeini e a captura de mais de 50 funcionários da embaixada americana, feitos reféns, marcam o nascimento do radicalismo islâmico moderno. A partir daí, os EUA se tornaram um ator militar permanente no coração do mundo muçulmano e também um alvo permanente de ódio e ressentimento. Afinal, foram grupos que o Irã apoiou no Líbano, em 1983, os responsáveis pelos primeiros atentados suicidas a bomba na região, com considerável perda de vidas para as forças americanas, francesas e israelenses.

A sequência de eventos que desembocou nos problemas atuais é essa: na tentativa de impedir que a revolução islâmica se espalhasse pela região, os países ocidentais e árabes apoiaram Saddam Hussein na guerra que o ditador iraquiano travou contra o Irã em 1980; navios das marinhas ocidentais passaram a patrulhar o Golfo, a fim de proteger o trânsito de petroleiros. Em 1990, com o fim da guerra, Saddam invadiu o Kuwait. Então, parte das tropas americanas que lideraram a aliança formada para expulsá-lo das terras kuwaitianas permaneceu na Arábia Saudita, a fim de conter Irã e Iraque. De maneira precipitada, George W. Bush resolveu terminar o trabalho que seu pai teria supostamente deixado inconcluso e, em 2003, invadiu o Iraque para se livrar de Saddam; a ocupação do país pelas forças americanas produziu a resistência jihadista, que acabou por se transformar no atual EI.

Se um acordo nuclear fosse capaz de reverter essa dinâmica calamitosa, isso ajudaria a empurrar o Oriente Médio em direção ao "novo equilíbrio" de que Obama falou à revista New Yorker no ano passado. Como o presidente americano disse a outro entrevistador, a opção pela via diplomática também pode ter como consequência uma progressiva moderação do Irã.

Desejo secreto? Para seus críticos mais acerbos, o acordo desejado por Obama é temerário, um arranjo que permitiria aos EUA abdicar de parte de suas responsabilidades na região e que, ao mesmo tempo, possibilitaria ao Irã reassumir o papel de potência regional hegemônica que tinha na época do xá. Já é palpável - e crescente - a influência política e militar de Teerã em todo o Oriente Médio.

O conluio militar de americanos e iranianos no Iraque, a relutância do governo Obama em agir contra o regime sírio de Bashar Assad, que é apoiado pelos iranianos, sua passividade em relação à interferência de Teerã no Iêmen - tudo isso indica que o americano pretende "estimular e ampliar as chances de que o Irã se transforme numa potência regional viável e numa nação amiga e parceira dos EUA", afirma em artigo recente Michael Doran, que trabalhou no Pentágono e no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Bush. E a crítica não para por aí. Com seu entusiasmo, Obama vai acabar abrindo mão das antigas e duradouras alianças que o país tem com Israel e as monarquias árabes. Para o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, não resta dúvida de que é isso que está acontecendo. No mês passado, ele foi ovacionado no Congresso americano ao dizer que um acordo em Lausanne abriria caminho para as aspirações nucleares iranianas. O Irã já "abocanhou" quatro capitais árabes: Bagdá, Damasco, Beirute e Sanaa. A lambança no Iêmen, argumentou o líder israelense, pode deixar Teerã em condições de ameaçar a embocadura do Mar Vermelho, coisa que já acontece no acesso ao Golfo. Desse modo, os iranianos teriam sob seu controle dois dos mais importantes pontos de estrangulamento naval do planeta.

Os líderes árabes tratam o assunto com mais discrição, mas concordam plenamente com Netanyahu. Segundo um vazamento de comunicações diplomáticas, em 2008, o rei Abdullah, da Arábia Saudita, já pedia que os EUA atacassem o Irã e "cortassem o mal pela raiz". Em março deste ano, os sauditas deixaram de lado a prudência habitual e resolveram atacar o mal, ou pelo menos um rebento seu, no Iêmen. Agora, lideram a coalizão de dez países sunitas que vem bombardeando posições houthis.

Rumos. A estratégia para lidar com um Oriente Médio caótico: é possível submeter as ações do presidente americano a uma interpretação menos hostil - e mais convincente. Eleito com o compromisso de reduzir o papel dos EUA no Oriente Médio, Obama não vê nenhum indício de que mudar de rumo agora traria resultados positivos. Daí sua decisão de retirar as tropas americanas do Iraque e do Afeganistão, a política de "liderar pela retaguarda", que ele adotou em 2011 na Líbia, e sua relutância, em 2013, em atacar a Síria sem aprovação do Congresso.

Nas ocasiões em que acabou intervindo na região, Obama fez isso apenas para prevenir desastres a custo mínimo. Assim, ordenou ataques aéreos, com pequena presença de tropas em terra, para deter a marcha do EI quando pareceu que Bagdá corria o risco de cair. E chegou perto de um acordo que pode postergar de forma significativa - mas não necessariamente impedir - a concretização das ambições nucleares iranianas. Com seu apoio aos sauditas no Iêmen, ele também dá mostras de que não se sente em dívida com o Irã.

Nessa análise, a responsabilidade pelo aumento da influência regional do Irã não se deve à cautela de Obama, mas à decisão de derrubar Saddam e o Talibã, que seu antecessor tomou sem atentar devidamente para as consequências. Gary Samore, que já fez parte da equipe encarregada de negociações nucleares no atual governo americano, diz que a estratégia do presidente para o Oriente Médio é um "reflexo do caos que predomina na região. Ele está fazendo o possível para lidar com problemas que simplesmente não têm solução e que são, em sua maioria, consequências da Primavera Árabe". Como está decidido a não fazer intervenções militares, a única opção de Obama é "deixar que eles briguem entre si e de vez em quando pôr o dedo na balança". Com o Irã enfrentando o EI e a Arábia Saudita se mobilizando para atacar os houthis, a tentativa de deixar que os países da região resolvam seus problemas tem chances de se mostrar acertada - ainda que submeta grande número de pessoas a episódios de violência aterradores, coisa que, por sua vez, pode acabar sendo prejudicial aos Estados Unidos e a seus interesses.

Não há dúvida de que, no rescaldo da ocupação americana no Iraque e da Primavera Árabe, a região virou um pandemônio sangrento. Há quem compare as atuais atribulações do Oriente Médio à Guerra dos 30 Anos, uma sucessão de conflitos que assolou a Europa Central entre 1618 e 1648, envolvendo religião, interferência de estrangeiros e crueldades sem igual.

No momento, há quatro guerras civis árabes em curso - no Iraque, na Síria, no Líbia e no Iêmen -, com múltiplas divisões de religião, etnia e classe social. A divisão sectária, em que o Irã apoia os xiitas e seus aliados, enquanto a Arábia Saudita oferece auxílio a pelo menos alguns dos sunitas - tornou-se mais pronunciada. É no Iraque que ela se revela de forma mais patente: o governo do país é dominado pelos xiitas e age em estreita aliança com Teerã, ao passo que a maioria das áreas sunitas foram conquistadas pelos jihadistas do EI.

Na Síria, a minoria alauita do presidente Bashar Assad, que é considerada um ramo minoritário do islã xiita, controla o governo e conta com o apoio do Irã e de seu preposto no Líbano, o Hezbollah. Já os rebeldes sírios, majoritariamente sunitas, acham-se fragmentados numa miríade de grupos, incluindo o EI, a Frente al-Nusra - ligada à Al-Qaeda - e muitos outros. Muitos dos rebeldes recebem apoio dos Estados Unidos e de países sunitas, com frequência por meio de arranjos obscuros.

No Iêmen, a ligação entre os houthis (seguidores do ramo zaidita do xiismo) e o Irã (devotos do ramo duodecimano) talvez seja a de contornos menos claros. O ex-presidente do país, Ali Abdullah Saleh, um zaidita que atualmente é aliado dos houthis, já foi apoiado pelos sauditas. Acontece que a situação na Síria fez que uma linha vermelha cortasse o Iêmen e todos os lados agora veem o país como o mais novo palco da batalha entre sunitas e xiitas. Isso posto, a primeira intervenção saudita depois da Primavera Árabe, em 2011, foi a favor da monarquia sunita do Bahrein, onde a população de maioria sunita exigia mais direitos.

Nos lugares onde não há divisões sectárias e o Irã não tem influência, é comum que os sunitas também não se entendam entre si, em particular no que diz respeito ao papel do Islã político. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes apoiam Abdel-Fattah al-Sisi, o homem forte do Egito, em sua luta contra a Irmandade Muçulmana, que, por sua vez, é apoiada pela Turquia e pelo Qatar. Os mesmo dois grupos sustentam governos rivais na Líbia. Mas no Iêmen todos se uniram para combater os houthis. A ascensão iraniana chegou mesmo a produzir uma aproximação dos regimes árabes sunitas com Israel.

Os iranianos que defendem uma diplomacia mais pragmática se vangloriam da influência crescente do país, embora digam que a beligerância de Teerã é simplesmente uma resposta às pressões dos países ocidentais e árabes. Segundo o ex-diplomata iraniano Hossein Mousavian, um acordo nuclear resultará num "Irã menos agressivo" e fortalecerá os moderados em torno do presidente Hassan Rohani, cuja maior preocupação é reanimar a economia, paralisada pelas sanções impostas pela ONU. Alguns acham até que Rohani pode vir a suceder o aiatolá Khamenei como líder supremo. Por ora, no entanto, Khamenei garante que um eventual acordo não levará a uma aproximação com os EUA. "De jeito nenhum", disse ele no mês passado, diante de um grupo de estudantes que entoavam o bordão "Morte à América".

Resultados. É possível que um acordo contribua para a moderação progressiva do Irã. Mas também pode aumentar a instabilidade da região. Há sempre o risco de que o governo iraniano trapaceie, ou de que os linhas-duras do regime queiram testar os limites dos compromissos assumidos. Outra possibilidade é que, céticos com o acordo, os congressistas americanos impeçam Obama de votar pela suspensão das sanções, ou que seu sucessor rejeite os termos pactuados.

Livre de parte das sanções, e possivelmente se sentindo imune a um ataque militar americano (ou israelense), Teerã pode resolver ampliar ainda mais sua influência regional - opção que, aos olhos de Khamenei, talvez pareça uma boa maneira de aplacar os ânimos dos linhas-duras. Por outro lado, é capaz que os aliados americanos, sentindo-se abandonados, adotem posturas mais agressivas. Entre os militares israelenses, volta-se a falar em bombardear as instalações nucleares do Irã ao primeiro sinal de violação do acordo. John Bolton, diplomata que trabalhou no governo Bush, sugere que Israel ataque logo os iranianos.

Os sauditas e outros árabes podem resolver ampliar seus esforços para confrontar o Irã, talvez tentando fortalecer os rebeldes sírios que recentemente fizeram avanços. Além disso, Arábia Saudita já deu mostras de que pretende acompanhar todos os avanços no processo de enriquecimento de urânio que os iranianos tiverem permissão para manter - legalmente, claro. O país não conta com engenheiros capacitados para isso, mas pode, por exemplo, adquirir o know-how de seus aliados paquistaneses - cujos cientistas venderam projetos de centrífugas para o Irã e para a Líbia. A Turquia também não vai querer ficar para trás. Assim, um acordo firmado com o intuito de impedir a proliferação de armas nucleares pode resultar na expansão da capacidade pré-nuclear da região. Há quem diga que os EUA deveriam tranquilizar seus aliados no Oriente Médio, incluindo-os sob a proteção de seu guarda-chuva nuclear.

É possível que a negociação de um acordo venha a ser a parte fácil do desafio que Obama tem pela frente. Mais difícil talvez seja convencer os céticos, internamente e na região, de que o pacto é bom para seus interesses. Mais difícil ainda talvez seja lidar com as sequelas políticas e militares.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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