Negócios do Brasil com Irã se reduzem

'Esfriamento' político em relação a períodos anteriores se reflete na queda das exportações brasileiras para a República Islâmica

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2012 | 02h03

O distanciamento político entre o governo de Dilma Rousseff e o governo iraniano está se traduzindo em uma queda acentuada das exportações brasileiras para o mercado do Irã nos últimos meses, numa espécie de retaliação por parte de Teerã em relação às posições tomadas pelo Brasil no cenário internacional.

Nos últimos anos, o comércio vinha registrando uma ampla expansão, mesmo com a crise internacional e as sanções impostas sobre o país persa. Mas, desde o início do ano, as vendas despencaram.

O Irã vem sendo alvo de sanções comerciais e políticas dos Estados Unidos e da Europa desde 2006. Com um foco cada vez mais financeiro, a ação de Washington e Bruxelas tem como meta isolar o Irã. Bancos estrangeiros foram praticamente impedidos de atuar e o comércio internacional passou a sofrer graves entraves.

Até o fim de 2011, porém, o Brasil mantinha um acesso relativamente privilegiado ao mercado iraniano. Dados oficiais apontam que o Brasil conseguiu expandir de forma significativa seu comércio com um dos regimes mais isolados do mundo, enquanto as importações totais desse país despencaram nos últimos anos em relação aos produtos do resto do mundo.

Em 2010, o Irã importou de todo o mundo US$ 65,2 bilhões, segundo informações coletadas pela Organização Mundial do Comércio. No ano seguinte, o volume caiu para US$ 61,5 bilhões, apesar do fato de, para superar as sanções, os iranianos terem passado a usar novas rotas, aumentando seus custos.

Enquanto o cerco começava a fazer efeito, as exportações brasileiras para o Irã seguiram uma direção contrária.

Entre 2009 e 2010, as vendas brasileiras para o Irã saltaram em 74%, para um total de US$ 2,1 bilhões. Em 2011, mais um aumento, desta vez de 10%, para US$ 2,3 bilhões.

Mas a tendência seria revertida logo no início de 2012, num fenômeno interpretado no Itamaraty como um sinal de desacordo em relação às posições tomadas pelo Brasil na área de direitos humanos e nos temas nucleares.

Na semana passada, o governo brasileiro chegou a se abster em uma votação em Nova York de uma resolução da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre as violações do Irã. Mas, em sua explicação de voto, Brasília apontou que as preocupações da comunidade internacional em relação à Teerã eram legítimas.

Em Teerã, diplomatas brasileiros sofrem para manter a mesma circulação fácil que tinham entre o governo local poucos anos atrás. O próprio embaixador Antonio Salgado tem tido dificuldades para manter os mesmos níveis de contato com as autoridades iranianas.

Esse esfriamento foi refletido no comércio. As vendas do País no Irã registraram perdas de 15% e 2012 deve fechar com um retrocesso, colocando a relação comercial entre os dois países de volta nos níveis anteriores à expansão das vendas. Até outubro, o País vendeu ao mercado iraniano US$ 1,7 bilhão, quase se equiparando ao ano de 2007.

Um segmento acabou sendo o símbolo dessa queda. A venda de carne de frango e carne bovina para o mercado iraniano foi reduzida em 54% e 44%, respectivamente.

Segundo fontes ligadas às operações comerciais bilaterais, o setor de carnes transformou-se numa espécie de termômetro da relação. Isso porque sua autorização no país exige que o produto tenha um corte que atenda aos padrões islâmicos de consumo.

Rejeitar a sua entrada, portanto, seria também um recado político e um sinal dos dirigentes da República Islâmica de que o Brasil não dispõe mais da mesma confiança que existia antes. Ainda que, tecnicamente, as empresas brasileiras tenham investido mais nos últimos anos para atender às exigências religiosas do cliente muçulmano xiita e nada tenha mudado em relação à qualidade dos produtos.

Depois de alimentos sofrerem uma expansão de exportação para o Irã de 40% em 2009, 47% em 2010 e 23% em 2011, o comércio desses produtos registraria uma queda de 7% em 2012.

Nos quatro primeiros meses do ano, as vendas brasileiras não conseguiam passar da marca mensal de US$ 60 milhões.

A Câmara de Comércio Brasil-Irã não respondeu na semana passada aos repetidos pedidos da reportagem por uma entrevista com sua diretoria.

Os sinais de esfriamento das relações entre Brasília e Teerã tiveram início logo após a eleição da presidente Dilma Rousseff, em 2010. Numa entrevista ao Washington Post, Dilma afirmou que cobraria do Irã garantias de respeito aos direitos humanos e no tratamento em relação às mulheres. O Irã não respondeu, mas o mal-estar ficou claro.

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