Zohra Bensemra/Reuters
Zohra Bensemra/Reuters

Negócios do Brasil na Líbia devem ser mantidos

Membros do conselho de transição dizem que critérios comerciais regerão contratos

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Atitudes como a abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU que autorizou a intervenção da Otan na Líbia, em março, e o bloqueio dos investimentos líbios no Brasil, semana passada, no momento em que a comunidade internacional descongela os ativos do país, em reconhecimento ao Conselho Nacional de Transição (CNT), têm criado a percepção de um insistente alinhamento do governo brasileiro com o regime de Muamar Kadafi.

Mesmo assim, o governo de transição e executivos líbios ouvidos pelo Estado asseguram que os negócios brasileiros na Líbia não serão prejudicados.

"É cedo para dizer o que vai acontecer", ponderou Mansour Abouen, diretor da filial em Trípoli da Arab Banking Corporation (ABC), cujos investimentos o governo brasileiro decidiu bloquear na sexta-feira (mais informações nesta página). "A situação não é clara. Mas acredito que o governo líbio vá respeitar todos os contratos, independentemente das posições assumidas pelos países", disse Abouen ao Estado. "É uma relação de negócios, entre empresas, não entre países."

Segundo o executivo, o ABC "é muito bem-sucedido no Brasil" e a sede do banco em Bahrein está acompanhando a situação. O Banco Central da Líbia tem mais de 60% do ABC. O restante pertence à Autoridade de Investimentos do Kuwait.

"Tenho lidado com as grandes empresas brasileiras aqui", continuou o executivo. "Conheço todas elas. E elas têm grandes negócios aqui."

O embaixador do Brasil no Egito, Cesario Melantonio, reuniu-se duas vezes com o presidente do CNT, Mustapha Abdul Jalil - no fim de julho em Benghazi, a "capital rebelde", e na quinta-feira em Paris, durante a Conferência em Apoio à Nova Líbia, que reuniu 60 países.

"O presidente me garantiu que não há problemas para as nossas empresas", disse ontem Melantonio ao Estado. "O tom foi muito positivo no sentido de que a presença e cooperação econômica com o Brasil são importantes para o futuro desenvolvimento líbio", prosseguiu o embaixador, que esteve em Benghazi entre os dias 27 e 31 de julho.

"Contrariedade". "No momento, estamos contrariados com as posições de alguns países, mas, no fim das contas, o próximo governo terá de fazer o que é melhor para a Líbia", analisou o gerente de produção da parceira estatal líbia de uma grande multinacional do petróleo em Trípoli. "Não podemos dizer: "os africanos não nos apoiam e não vamos fazer negócios com eles". Temos de fazer os melhores negócios para a Líbia."

Membros do CNT insinuaram no passado que países como o Brasil, Rússia, China e África do Sul, que tiveram posições consideradas pró-Kadafi, sofreriam represálias nos seus negócios no país.

A Petrobrás mantém atividades de exploração na Líbia - etapa anterior à de produção de petróleo. As construtoras brasileiras Queiroz Galvão e Odebrecht também realizavam obras na Líbia.

Numa pequena amostra das reviravoltas que ocorrem na "nova" Líbia, os funcionários da Mellitah, a estatal líbia parceira da italiana ENI, "demitiram" o presidente e três diretores, ligados a Kadafi.

Ao voltar ao trabalho no domingo, escolheram seus substitutos por votação. "Estávamos esperando este momento", disse a advogada Wafa Jreibi, analista de contratos. O mesmo tem acontecido em outras estatais.

Justiça formaliza bloqueio no País

Como anunciou na sexta-feira, a Advocacia-Geral da União bloqueou ontem, na Justiça Federal de São Paulo, as ações de titularidade do Banco Central da Líbia no Banco ABC Brasil e na ABC Brasil DTVM. As duas empresas eram controladas pelo BC líbio por intermédio da Arab Banking Corporation (ABC), banco internacional com sede no Bahrein.

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